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Sob O Signo De Câncer Nem
eu mesmo sei por que ou para que estou escrevendo isto. O único motivo
que consigo enxergar é a vontade que tenho de contar tudo a alguém e
nunca terei esta oportunidade se não o fizer agora. Talvez jamais haverá
algum leitor para estas palavras. Pouca gente decifrará estas garatujas e
a probabilidade de que o destino delas será o fogo é altíssima. Tenho
muito medo de que a minha mulher me surpreenda escrevendo, pois se tomar
conhecimento do conteúdo do texto, o destruirá imediatamente e assim eu
não teria a menor chance de desabafar tudo o que sinto. Não
direi uma palavra sobre os meus sofrimentos físicos. Por quê? Primeiro
porque me sentiria como um copista medieval que estivesse reproduzindo
todos os mistérios dolorosos do evangelho; por outras palavras, todos já
os conhecem, embora poucos os tenham experimentado na própria carne.
Depois, porque não disponho de forças, tempo, oportunidade, privacidade
e nem mesmo de papel e lápis suficientes para isto. Portanto, prefiro me
concentrar naquilo que mais me magoa e que tem tudo para ir comigo para a
sepultura sem que ninguém jamais tome conhecimento, a menos que estes
rabiscos se salvem e alguém se interesse por eles. Defequei
sangue pela primeira vez na noite do último reveillon. Já me encontrava
trajado a rigor e estava prestes a sair para o baile quando veio a
vontade. Sentei-me no vaso sanitário e pensava que estaria com diarréia.
Nunca tinha sentido isto sem nenhum motivo como fora o caso naquela noite.
Quanto mais defecava, mais aumentava a vontade. Percebi um cheiro
estranho, ergui-me um pouco do vaso e vi que havia eliminado cerca de meio
litro de sangue vivo. Senti tonturas e suei frio. Meu pulso era rápido,
minha pressão arterial estava baixa. Depois de algum tempo de ter perdido
aquela quantidade de sangue me senti melhor, mas não tive mais disposição
para sair da cama. Minha mulher ficou contrariadíssima. Ainda cogitou de
sair sozinha e perguntou se eu faria alguma objeção. Claro que neguei. Não
sei o que teria se passado em sua cabeça, pois desistiu de ir ao baile,
embora tenha permanecido com um péssimo humor. As duas filhas foram com
os namorados. No
feriado do ano novo defequei mais sangue, embora numa quantidade bem
menor. No dia seguinte fui ao proctologista. Ele me examinou
minuciosamente e, ao terminar, me disse que eu ficasse tranqüilo, pois
tudo indicava que não teria passado de uma ruptura de hemorróidas, mas
por medida de segurança eu teria de me submeter a um exame em que um tubo
longo e flexível teria de penetrar cerca de quarenta centímetros no meu
intestino, através do ânus. Como sempre tive hemorróidas, indaguei-o se
tal procedimento não poderia ser evitado ou, pelo menos, adiado, até que
eventualmente eu viesse a ter uma nova crise. Ele concordou, mas me
recomendou que ao menor sinal de sangue nas fezes entrasse imediatamente
em contato com ele. Cerca
de três meses depois voltei a ter hemorragia, e no outro dia, fui
submetido ao tal exame. O médico não adiantou nenhum diagnóstico
imediato. Disse apenas que havia encontrado um pequeno pólipo no meu
intestino grosso e que havia retirado um fragmento para biópsia. Uma
semana depois soube que estava com câncer e teria de ser operado
imediatamente. Fiz todos os exames e, como me encontrava muito debilitado,
fui internado três dias antes da cirurgia para receber transfusões de
sangue. Hoje está completando quinze dias que fui operado. Como já
declarei, não quero dizer nada acerca das dores que senti e ainda sinto,
senão da montanha da qual desabei desde quando tive a primeira
hemorragia, a fim de refletir acerca das mudanças que um homem pode
sofrer em tão pouco tempo. Não citarei os fatos que me sucederam em
ordem cronológica. Prefiro o critério da importância que atribuo a cada
um deles. A
primeira decepção que tive foi a que considero menos grave. Quando me
internei fiquei alojado em acomodações privadas onde poderia dispor de
alguma pessoa para me fazer companhia, embora eu não estivesse bem certo
de quem seria essa pessoa. A única certeza que tinha era que não deveria
ser alguém da minha família. Quando cheguei em casa com o resultado do
exame e falei que teria de ser operado, minha mulher disse logo que nem
ela, nem minhas filhas poderiam me servir de companhia. Talvez me
visitassem dia sim, dia não. Foi então que contratei um auxiliar de
enfermagem; um homem a quem jamais eu tinha visto antes, mas era somente
com quem eu poderia contar. No dia seguinte em que me operei veio ao meu
apartamento uma pessoa da administração e declarou que eu teria de me
mudar para uma enfermaria – sem direito a acompanhante – pois o meu
plano de saúde não cobriria as despesas daquele tipo de acomodações.
Vi-me, então, compelido a ter de ficar sozinho.
Há seis dias tomei conhecimento da bancarrota financeira em que me
encontrava envolvido e da qual estava completamente alheio. Não era rico,
mas sempre pertenci à chamada classe média alta. Possuo aplicações
financeiras diversas, vários imóveis e levava um padrão de vida compatível
com as minhas posses. Acabei de tomar conhecimento do motivo da minha
derrocada financeira. Soube tudo através de um representante do meu
banqueiro. Minha mulher tinha um amante a quem mantinha de tudo; supria,
inclusive, o seu vício de toxicomania. Como sempre havíamos partilhado
eqüitativamente os nossos bens, ela dispunha de crédito tanto quanto eu.
Endividou-se até a raiz dos cabelos. Foi ela, inclusive, quem trocou
todos os planos de saúde da família pelos mais baratos a fim de dispor
de cada vez mais recursos para manter o amante e o seu vício. Portanto,
todos os meus bens terão de ser vendidos e, ainda assim, o dinheiro da
venda cobrirá apenas a metade das dívidas. Foi por este motivo que tive
de deixar o apartamento individual e vir parar nesta precária enfermaria
de trinta leitos onde existe uma quantidade ínfima de funcionários para
atender a tantos doentes. Somente
no terceiro dia depois da operação foi que encontrei uma bolsa ao meu
lado direito. Quando perguntei à enfermeira o que era aquilo ela me disse
que era um coletor de fezes pois eu as estaria eliminando por um buraco
feito na minha barriga. Aquilo foi um choque, mas quando o médico veio me
visitar e declarou que eu iria viver assim permanentemente quase
desfaleci. Ele nunca tinha me falado sobre isto. Eu também tinha uma
amante. Ela não pôde ser a minha acompanhante enquanto estive no
apartamento a fim de evitar escândalo e ódio por parte dos meus
familiares. É quinze anos mais jovem do que eu, mas foi a única mulher
com quem me realizei
sexualmente. Vinha me visitar todos os dias; evidentemente, sempre em
ocasiões não coincidentes com as raras visitas da minha mulher e das
minhas filhas. Confessou-me que chegou a voltar diversas vezes da porta da
enfermaria por causa disto. Entretanto, desde quando contei a história da
tal bolsa que seria, a partir de então, minha eterna companheira, minha
amante deixou, subitamente de me visitar. Agora
que estou chegando ao fim, concluo que não fiz nada do que prometi, isto
é, contar o meu tormento desprezando a ordem cronológica dos fatos em
detrimento daquilo que considerava mais importante. Com efeito, que
diferença faz estar morrendo na suíte de um hotel cinco estrelas ou no
catre imundo de uma favela promíscua? Que importância tem ter perdido ou
não a minha amante? Que tipo de relacionamento eu poderia ainda vir a ter
com ela a não ser uma cadeia de sucessivas humilhações? Que conseqüências
trágicas eu poderia esperar por ter perdido todos os meus bens materiais?
O único “bem importante” que ainda me resta é este fiapo de vida
destituído de quaisquer resquícios de esperanças. 28/05/2004 |