Raymundo Silveira

Soberba

"You must bear with me.
Pray you now, forget and forgive.
I am old and foolish."
[W. Shakespeare: King Lear]

 

 Chamava-se Amadeus. Professor / Doutor. Membro da Academia Nacional. Sócio das mais prestigiosas entidades internacionais. Meia dúzia de idiomas. Conferências Magistrais nas Universidades de Heidelberg, Uppsala, Berkeley, Princeton, Harvard, Sorbonne, Oxford e Cambridge. Prêmios sem conta. Ainda assim, se sentia frustrado: faltava o Nobel.  O céu era o limite para as ambições. Não falava com alunos. Nem mesmo com colegas de pouco destaque. Certa feita - no centro cirúrgico -, um Assistente o interpelou entre uma operação e outra: "Professor, encontra-se na Recepção um sheik árabe insistindo em conhecê-lo. O que devo dizer?" "Que existem fotografias minhas na butique do Hospital para serem vendidas”.

 

Vangloriava-se dos títulos que já tinha e ansiava pelos que ainda faltavam. Discursava solenemente, sem o menor constrangimento ou pudor: "Sou Professor / Doutor; Fellow pela Universidade de Harvard e Master pela de Londres. Mas ainda chegarei a 'Sir' do Império Britânico”. Os médicos mais mordazes ousavam pilheriar às escondidas: "Não! Falta, também, ser membro da Câmara dos Lordes, Primeiro Ministro, Rei e suprimir as duas primeiras sílabas do nome!”

 

Quando tratava pacientes famosos e era convocado para dar entrevistas, fazia questão de se apresentar impecavelmente vestido, era o único a falar e respondia às perguntas dos repórteres com arrogância, prepotência e onipotência. Insistia em ser chamado pelo título predileto: Professor / Doutor. Nos bastidores, antes que as luzes dos refletores se acendessem, reivindicava a presença de um Assistente e, sob as vistas dos profissionais da imprensa, interpelava-o: "Sou Doutor ou Professor / Doutor?" O outro já sabia o que dizer: "Doutor, senhores, é um médico qualquer. Não é, em hipótese alguma, o caso do entrevistado de vocês. Ele é sim, Professor / Doutor. Está anos / luz acima de meros ‘doutores’. Portanto, todo cuidado é pouco quando o estiverem inquirindo diante das câmeras de televisão!"

 

Os clientes menos ilustres eram os parlamentares do chamado "baixo clero". Mas só eram atendidos cerca de noventa a cento e vinte dias depois de marcar consultas. Comentava-se, à boca miúda, que cantava as clientes. Proclamava aos quatro ventos que comia quase todas. Como se fizesse um favor... Contudo, suas pretensões não se limitavam à estadia neste planeta. Prestígio póstumo não estava descartado. Mandara erigir, no "cemitério dos ricos", imponente mausoléu, que era uma réplica mirim do Partenon. Construído em mármore de Carrara. Cariátides esculpidas pelos artistas mais caros do mundo. Supunha que tal “viagem” só aconteceria depois dos oitenta. Levava vida saudável. Não admitia que acidentes acontecessem... Consigo. Mas esqueceu de comercializar tal produto com o destino. Uma noite mal humorada decidiu cobrar a sua parte... Pilotava a Mecerdes a mais de cento e vinte por hora. Tráfego traidor... Traseira de trator...

 

 Dez dias inconsciente, mas se recuperou. Contudo, os membros superiores e inferiores tiveram de ser amputados. Hoje, se resume a um tronco e a uma cabeça. Vive completamente isolado. Salvo pela companhia fortuita de serviçais indiferentes. Depende de empregados pra tudo: locomover-se, alimentar-se, vestir-se, cuidar da higiene e cumprir necessidades fisiológicas. Eventualmente, prostitutas são convocadas para satisfazer o que resta da libido. Algumas, o masturbam até a iminência do orgasmo. Então, param de repente. Como já foram pagas com antecedência, retiram-se do quarto bruscamente. Às gargalhadas...

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