Raymundo Silveira

Sumiço

Ele (pensando): Na frente da casa tinha um ficus benjamin. Grosso, frondoso, radiculoso e ridiculoso. Nos três primeiros casos, pelo porte. Ridiculoso porque o maior galho era impotente: pendia e balançava, ao sabor do vento, de tanto a gente trepar nele. Trepar mesmo. Subir. Éramos de gêneros opostos, e naquele tempo este verbo não tinha outra concepção. Embora alguém concebesse. Mas não nas nossas cabeças infantis. Brincar com ela era mais gostoso do que com meninos. Sentia uns arrepios quando trepava sozinha e eu olhava pra cima. Sabia a deleite aquelas calcinhas. Mas do real sabor das suas roliças coxas da cor de leite, pouco eu sabia. Quando ficamos maiorzinhos disseram ser pecado. Então, de vez em nunca fazia um pelosinal para afastar o capeta. Ela notava o meu desavontade com vontade e tinha um jeito de ficar mais provocante sem ficar. O tempo nos casou prematuramente. Não sei se somos felizes. Talvez não. O nosso ontem nos manteve juntos no hoje com saudades do amanhã.

 

Ela e Ele (sonhando): Graças a Deus me casei. E com um anspeçada. Nem todas as mulheres tiveram a minha sorte. Não é rico, mas é instruído. Bebe, como todo homem hoje em dia, mas é respeitado. Lido. Considerado. Estamos sonhando o nosso maior sonho: viajar. Acorda! Com quem tu tava sonhando? Contigo. Mentira! Sonhei que tu tava sonhando com outro. Pois eu sonhei que tu sonhava comigo. Pois prova. Homem de Deus, como eu posso provar se eu tava sonhando contigo? Eu posso provar que tava sonhando contigo. Pois prova. Ora, se eu te acordei dizendo que sonhei que tu tava sonhando com outro homem, só podia estar sonhando contigo...

 

Na feira-livre. Ela na frente, ele atrás. Pencas de carne. Mantas de bananas. Litros de coco. Montanhas de mel. Saltimbancos saltavam bancos para não assaltarem Bancos, diziam. Quanto é hoje do mês? Sábado. Cuidei que fosse quarta. Quarta-feira? Claro! Onde já viste quarta sem feira? Mas já vi sábados. Claro, nem todo sábado tem feira. Pergunta ali a quanto tá o xuxu enquanto eu... Não é xuxu, já cansei de te ensinar, é chuchu. Desculpa, hoje amanheci com um gosto de xuxu e pensei errado. Pergunta a como tá o chuchu. Eu vou olhar aqueles frangos rindo pra mim... Preço melhor, com certeza. Não te esquece da carne-de-sol da paçoca. De novo? De novo, não, de velho. Tu sabe: desde quando a gente casou, todo domingo tem de ter... Sem paçoca, com banana pra ir atrás dela empurrando, eu não almoço.

 

Ele (pensando): Todos têm um ideal. Uns querem ser doutores, outros enriquecer, ser deputados. Eu não! Sou apenas um anspeçada. Leio muito. Mas só estudei em escolas de mundo, com professores de vida. Meu futuro já passou. E o passado fica daqui a sete léguas. Não dá pra ir caminhando. E não possuo automóvel... Tampouco botas. Nem tão muito nada. Queriam-me consumidor, contribuinte, mutuário e multuário. Tiveram-me assim. Também não sou mortuário. Como todo homem, sou inquieto, curioso, desacomodado. Minhas inquietações são de outros feitios. Não perco tempo com desimportâncias. Quero saber por que a Terra é redonda e não quadrada. Me preocupo com a eventualidade de não amanhecerem mais amanhãs. Passo horas contemplando um pôr-do-sol, não porque o admire, mas para tentar descobrir se, naquela hora, ele é mais frio do que ao meio-dia...

 

Eu (escrevendo): Viajaram muito, mas sem saírem de casa. Conheciam a Europa, a América do Norte, o Oriente Médio. Estavam de malas prontas para a Índia, a China e o Japão. Viajavam na imaginação. Na maionese, como é de uso se dizer agora. O prazer era igual. Conheciam, em pormenores, todos os lugares por onde passavam. Templos góticos, monumentos, castelos, palácios, parques, construções barrocas... Distinguiam estilos arquitetônicos e escolas pictóricas quiném professores de História da Arte. Descreviam catedrais. Não era segredo a da Sagrada Família, de Gaudi. Conheciam melhor do que muitos espanhóis. Gárgulas, transeptos, arcobotantes, ogivas, flechas, vãos amplos, rosetas, contrafortes e abóbadas eram termos tão familiares quanto condomínio, salário e fim-de-mês. Identificavam torres góticas, medievais, renascentistas e pós-renascentistas. Museus, atração à parte. Paixão.

 

Ele (pensando): Jamais desejei comprar imóvel, ter dinheiro em Banco, pastar em casas de pasto. Pra quê? Não gosto de capim. Os meus amigos de infância e juventude possuem tudo isto. Jamais vi qualquer um feliz. Desconheço viver melhor alguém da minha laia. Moro num dois quartos enxutos e um terceiro molhado: herança do meu pai. E recebo um pequeno salário. Em compensação, não pago um puto de imposto de renda, ignoro ipva, iss, fgts, pis, pasep, fudep. Só um tal de iptu porque o juiz mandou descontar do meu holerite. É uma mixaria. Tomamos café com pão pela manhã, almoçamos PF e jantamos cuscuz com leite. Para que mais?

 

Eu (escrevendo): Estranho. Sinto-me frustrado. Fracassado. Quando comecei essa história, meus personagens não existiam. Agora tenho vontade de viver a vida deles. Me sinto um mestre superado pelos discípulos. Pior: um artista ultrapassado pela própria obra. Um Miguel Ângelo com inveja do “Moisés.” Esfacelaria o tempo se pudesse começar tudo outra vez. Mas seria personagem. Não autor. Tarde demais. Extinto instinto de beber um vinho ex-tinto. Maratona cansada de talvezes inúteis e sem medalhas. Carrilhão adiantado bimbalhando atrasos menstruais sem gravidezes.

 

Eu (pensando que ela está pensando): Pára com isso. Todos temos algo em comum. Também somos desiguais. Ilusão querer ser quem não se é para melhor estar. Se tu tomasses o meu lugar e eu o teu, a inveja seria recíproca e inversa. A resignação não passiva é a terra nutriz do bem-estar. O estoicismo, berço da fortaleza. Mas não te deixa impressionar pela retórica. Confere se é isso mesmo...

 

Ela (pensando pra mim): Me deixa sossegada senão aquele maluco vai dizer que eu tô pensando noutro homem. E ele vem já. De cara cheia.

 

Uma choradeira de novela e, a seguir, uma enfiada de burundangas sem juros, sem entrada e sem correção, entram pela entrada da frente.

 

- Tu devia comprar uma televisão.

- Pra quê?

- Pra ver se acaba com essa bebedeira...

- E tu ficar pensando noutros machos, né?

- Tu tá é doido

- Em qui tu tá pensando agora?
- Em nada.
- Num pode. Ninguém pode num pensar em nada. Anda, diz logo.
- Toda vez qui tu bebe tu vem com estes aloucamentos.
- Aloucamentos, não. É qui quando eu num bebo eu não fico com a mente esperta como tô agora. Tava pensando em macho, né?
- Pára com isso se não eu vou me mudar de quarto.
- Tu quer bem dizer qui num tava pensando em macho, né? Tu nunca teve vontade de trepar com outro macho, né?
- E se eu tivesse não ia te dizer. Tu quer saber até dos meus maus pensamentos...
- Num disse! Tava pensando em macho. Pra mim é igual a trair.
- Tu devia deixar esta cachaça.
- Por quê?
- Porque quando tu bebe começa a falar essas bestagens.
- Num é bestagem, não. A bebida faz a gente ver as coisas qui a gente num pode ver quando não bebe.
- Onde foi qui tu ouviu falar nisto? Todo bebo inventa o qui não tá existindo, só pra criar confusão.
- Criar confusão? Só porque descobri a tua tara?
- Qui tara?
- Quando eu perguntei se tu tava pensando em macho tu disse: mesmo qui tivesse não te dizia.
- Num disse qui tu tá doido... Onde já se viu uma pessoa querer saber dos pensamentos dos outros?
- Dos outros, não. Da minha mulher. Minha mulher, ouviu? Sou eu qui sustento esta casa. Tenho direito de saber tudo o qui se passa aqui dentro.
- O qui se passa aqui dentro homem de Deus?
- Se passa qui tu tá me traindo em pensamento e só tá me chamando homem de Deus pra ver se eu amanso. Eu num sou corno manso, não.
- Da onde tu tirou essa psicose de dizer qui é corno?
- Da onde eu tirei? Ora da onde eu tirei, do meu cérebro privilegiado. Da minha inteligência qui aumenta quando bebo umas...
- Tu tá é doido, já disse. Nunca dei motivo pra tu suspeitar de mim.
- Motivo, não. Acabo de ter certeza. Tu disse qui não me conta os teus maus pensamentos. Qui maus pensamentos são esses? Só podem ser pensamentos em macho. E pra mim, pensar é a mesma coisa de fazer.
- Chega. Agora me deixa dormir. Ou vou sair pro outro quarto.
- Tá bom. Amanhã a gente conversa. E o autor? Cadê o autor? Terá deixado a gente falando só?

- Sei lá daquele maluco... Esquece ele. Dorme.

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