Raimundo Silveira 

Terraço Itália

 Quarenta e três andares. Não dançaram. Nem antes, nem depois de comerem. Não foram ali com esse propósito. O jantar foi apenas um pretexto. Mal provaram os pratos caríssimos que pediram. Preferiram circular, rapidamente, em torno do Restaurante. Não sabiam para quê. O panorama de São Paulo, a perder de vista, contido numa circunferência a 170 metros de altura, pouco os interessou.  Havia outra prioridade. Havia, também, urgência. E muita expectativa...

 Uma mistura de emoções: excitação, medo, desejo... Tinham acabado de se conhecer fisicamente. O encontro foi marcado pela Internet. Ambos impelidos pela obsessão de realizar uma fantasia: fazer sexo no elevador. Para isso, ele estudara antes como ligar o dispositivo que impedia a parada em pavimentos intermediários. Teria de ser uma viagem contínua. Do Restaurante ao térreo.

 Havia uma pequena fila. Tiveram de esperar. Isso aumentou a tensão. Batimentos cardíacos a mil. Suores. Ligeira sensação de sufocação. Mesmo assim ele teve dificuldade para esconder o imenso volume à altura da braguilha. O elevador demorou um século. Enfim chegou. Mal entraram, ele suspendeu-lhe a saia e arrancou a calcinha como se a esfolasse viva. Ela, por sua vez, tentou abrir-lhe a braguilha. A princípio não conseguiu. O veículo já passava pelo quadragésimo primeiro pavimento. Isso a tornou ainda mais ansiosa. Desafivelou o cinto e baixou-lhe a calça com toda a força. O pênis não se conteve dentro da cueca. Saltou duríssimo, ereto, espesso, enorme, como um moai. Atirado vigorosamente por uma catapulta. Ou, pelo menos, assim ela interpretou.

 O mostrador registrava o trigésimo oitavo andar. Não havia tempo a perder. Nada de carícias. Nada de preliminares. Atracou-se com ele que a suspendeu pelas nádegas. Nenhuma ajuda seria necessária. A penetração aconteceria de qualquer maneira. Automaticamente. Mesmo assim, ela tentou apressar. Apanhou o enorme pau com a mão direita e tentou socar na buceta. Errou o caminho e o pênis resvalou para baixo. Apanhou-o novamente e repetiu com toda a força. Quase desesperada. Sentindo o tempo escoar e o elevador prosseguir a viagem.  Indiferente àquela ansiedade...

Desta vez não houve erro. A glande mal sofreu a resistência dos lábios protetores. Penetrou firme. Abrindo caminho, afastando paredes, superando virtuais obstáculos. Só parou quando atingiu o colo do útero. Ela urrou. Um misto de dor e de prazer. Começaram as estocadas. O elevador passava pelo vigésimo nono.

O vaivém aumentava, apesar do cansaço que ele sentia por suportar-lhe o peso. O pênis entrava e saía progressivamente como se fosse o mancal de uma máquina sendo acelerada ao ponto máximo. Ambos só pensavam no orgasmo. Que, por sua vez, insistia em não chegar. Vigésimo. Estavam quase gozando. Mas o medo de que não houvesse tempo, atrasava as ejaculações. Suavam em bicas. Ela implorava com a voz rouca: “Não me deixa sem gozar, pelo amor de Deus”. E chorava.

Ele intensificou o mais que pôde os vaivens. As coxas tremiam. Sentiu que ia desmaiar. Décimo quinto. Estavam quase a explodir. Sentiam o gozo iminente. Mas não acontecia. Décimo... Oitavo... Quinto... “Agora!”, disse ele arfante. “Também”, disse ela. Terceiro... Não havia mais retorno ou possibilidade de parar. Entre o segundo e o primeiro, as ejaculações simultâneas. Ele parecia urinar, tão volumosa era a quantidade de sêmen... Térreo. Separaram-se bruscamente, tratando de se recomporem às pressas. Mas, ao abrir-se a porta, não puderam evitar que as pessoas, na imensa fila, vissem o ofego dos dois. Nem a abundante quantidade de esperma a escorrer-lhe pelas pernas...

www.raymundosilveira.net

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 "A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..." 
(Julio Cotázar)