Raymundo Silveira

Transplante de Cabeças

Conheci um homem que nasceu com uma anomalia nunca vista. Nada de centauros, esfinges, pés-de-cabra, chifres. Chifres mesmo. De boi. Ou qualquer outra coisa que se possa imaginar. Não! Era um aleijão tão estranho que assustava: a alma era maior do que o corpo.

Quando a parteira deu fé daquela marmota, desatou a correr. Apavorada. Deixou mãe e filho sozinhos e foi preciso chamar um médico pra terminar o parto. Este foi logo dizendo, depois de extrair a placenta e de coser alguma coisa lá por baixo: “Bem, a minha tarefa está concluída. Este defeito não é comigo. Melhor chamar um padre”. E abalou. Este, por sua vez, também alegou incompetência: “Não é da minha alçada. Melhor chamar um médium...”. O médium...

Então, nada ficou resolvido. Isso foi apenas o começo da via crucis que o infeliz teve de percorrer na vida. Logo depois, quando o levaram para batizar, o mesmo padre que tirou o cu da seringa, levantou uma nova questão. “Não posso. A liturgia que existe é somente para quem tem alma e corpo de iguais tamanhos. Se eu batizar assim, vão ficar pedaços de alma pagãos. E porções de corpo cristãs demais. Só se levarem a criança a Roma pra consultar um especialista em Direito Canônico. Naquele tempo não havia Internet. Nem muito menos videocam.

Como os pais não possuíam nem onde pisar mortos, ficou por isso mesmo. Numa incerta vez, quando o menino já tinha quatro anos, chegou àquele vilarejo um preto véio metido a feiticeiro. Que diziam ter parte com o Diabo. Desesperados, os pais decidiram consultá-lo. “Bem, eu conserto e garanto o serviço. Mas o pedaço que sobrar tenho de levar comigo”. “Ora, pensou o pai, que importância tem que ele leve um pedaço de alma? O essencial é que fique o resto. E bem na medida do corpo”.

“Joaquim, isso num tá certo. Tu sabe lá pra onde ele vai levar este pedaço de alma do menino!” “Ora, mulher, mesmo que ele dê pro Satanás...” “Vixe, Nossa Senhora... Não fala assim home de Deus...” “Falo sim. O que tem isso? Se fosse o contrário e o doutor tivesse de cortar um pedaço do corpo, pra onde tu pensa que iam levar?” Joaquim fez a cabeça (do corpo e da alma) da mulher que concordou com o curandeiro. E o contra-peso de alma foi removido.

Levaram, de novo, pra batizar. “Ah, não! Arrancaram a cabeça da alma. Quando eu despejar a água na cabeça do corpo, só batiza o corpo. Como uma pessoa pode viver com o corpo cristão e a alma pagã?” “Padre, dê um jeitim. Como meu filho pode ficar todo pagão a vida inteira? Se pelo menos o corpo...” “Bem, vou batizar. Mas quando ele tiver entendimento de gente diga pra ele. Pode ser que encontre a cabeça da alma e mande completar o serviço. Só assim ele se salva”.

Passou-se, passou-se e o menino virou homem. E os pais não contaram nada. Tinham medo que ficasse maluco. Ou fizesse coisa inda pior. Quando completou vinte e cinco anos começou a dar ataque e a ver coisas que não eram. Os médicos disseram serem abusões. Chegou outro preto véio feiticeiro no lugar. Este não tinha parte com o Demônio. E foi logo dizendo: aqui tá na cara. É falta de cara, ou melhor, de cabeça de alma. Não tem jeito. Só transplante resolve.” Então, lhe revelaram que apenas o corpo era batizado. A alma, não.

Parece mentira, mas taí o povo de lá que não me deixa mentir. Um ano depois nasceu um sobrinho dele com alma de duas cabeças. Foi outro assombro. O padre também não queria batizar pra não ficar com alma mais cristã do que corpo e tra-lá-lá... Chamaram o curandeiro e perguntaram se não dava pra fazer transplante de uma das cabeças da alma do sobrinho para a do tio. “Qui dá, dá... Só qui eu não me responsabilizo. Nunca fiz nada dessa iguala. Num sei como vai ser o resultado.”

Transplante feito. Pós-operatório excelente. Tio e sobrinho com alma e corpo de respectivos tamanhos. Porque o primeiro tinha crescido e o volume da cabeça da alma da criança assentava como luva no seu corpo. O menino foi batizado. E a alma do tio também. Maravilha.

Passou-se, passou-se e num incerto dia apareceu, na cidade, um preto véio, muito velho com um pacote debaixo do sovaco. E foi direto pra casa do tio. “Moço, vim devolver a cabeça da sua alma. Meu patrão disse que de cabeça lá já anda cheio. Tem cabeça de alma pra todos os gostos: de ladrão, de corruptos, de miseráveis, de banqueiros, de agiotas, de tudo inquanto... Tássim assim, ó... Meu chefe disse que não quer a cabeça da sua alma lá, nem morta. E ela ainda tá vivíssima. Desde o dia que eu cortei não sei o que fazer com ela”.

Até hoje ninguém sabe que fim levou. Mas bem que podiam arrancar a cabeça da alma de pelo menos um desses muitos políticos que se dedicam a pôr a vida, aqui neste planeta, cada vez mais perigosa. E botar essa no lugar. A dele? Ora, a dele o Diabo quer, com certeza. Pra implantar nele próprio

27/02/2005

www.raymundosilveira.net

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