Raymundo Silveira

Um Cego

Lufadas de água. Torós de vento. Pra que separar diferenças onde não há? Transeuntes não protegidos encharcavam de chuva. Quem usava capas e capotes também. Estes, de suor. Quase todos corriam. Uma correria sem serventia. O tempo estava molhado por fora e por dentro. Não seriam corre-corres que iam mudá-lo.

Só as estátuas não se mexiam. Inclusive uma estátua viva. Um pedinte. Cego e meio gordo. Que se desabrigava sob um chapéu-de-sol mal armado. Como o tempo, ele se molhava por dentro e por fora. Mas se mantinha impassível. E estendia uma bacia para além do desabrigo, indiferente a tudo ao seu redor. Não chorava uma palavra. Era um silêncio patético e profundo.  E só uma pessoa o escutava: eu.

Depois de ouvir aquela mudez durante mais de uma hora, atirei cinco moedas na bacia e me afastei. Caminhei até o estacionamento. Antes de apanhar o veículo, decidi retornar. E pus uma cédula que valia dez vezes mais. O mendigo nem percebeu. Sacudi-lhe o braço e murmurei ao pé do ouvido que tomasse cuidado. Voltei ao estacionamento. Entrei no automóvel e parti.

Ao chegar em casa era noite. Despi-me, como se estivesse me despojando da importância de tudo. Vesti um pijama velho e me deitei. Não dormi. Pensava no mendigo.

Amanheceu. Aquele pedinte não me saía do pensamento. Tanta gente preocupada em sobreviver... Tantas pessoas apressadas para chegar a algum lugar. E aquele cego imóvel como um poste... A esperar a caridade alheia, sem sequer pedir. Voltei. Fiquei a observá-lo por mais uma hora. Para tentar descobrir, pelos meus próprios meios, aquele mistério. Não consegui. Nem resisti.

- Ceguinho, me desculpe. Ontem passei mais de uma hora à sua frente. Vi o seu braço estendido e ninguém pôs um centavo na bacia. Somente eu, que lhe dei cinco moedas. Logo depois me arrependi. Voltei e pus uma nota de mais valor. Quantas pessoas costumam fazer o que eu fiz? Em outras palavras, quanto você apura por dia?

O cego se riu.

- Meu amigo, ontem só você me deu uma esmola.

- Perdão, ceguinho. À noite não dormi pensando e supondo isso mesmo. O que o leva, então, a passar o dia sentado nesse mocho. A enfrentar todo tipo de intempéries. Imóvel. Se não consegue ajuntar o dinheiro do pão de cada dia?

- Meu irmão. Eu sou um cego, mas não preciso de esmolas. Possuo imóveis. Tenho outros bens. Obtenho rendimentos suficientes para viver com dignidade. Esta minha condição de mendigo é um disfarce.

- ...?

- Passo os dias aqui cumprindo uma promessa. Não tive mãe. Não tive irmãs. Não tive filhas. Pra falar a verdade, nunca tive mulheres de espécie alguma na minha vida. Minha avó foi martirizada justo por ser mulher. E eu prometi que a veria em cada uma que encontrasse. Então, todas que passam, reconheço pelo cheiro. Desde uma menina de colo a uma anciã. E presto uma homenagem. São homenagens simples... Mas eu me empenho em prestá-las e me considero feliz. Para algumas faço uma prece. Para outras digo palavras delicadas e gentis. Ainda que não escutem. Em suma, impus a mim mesmo essa missão... E vivo bem assim.

Não me dei por convencido. Ainda hoje passo horas a contemplar o cego tolo. Aquilo é mais do que utopia: é pura falta do que fazer. Além de se sacrificar para cumprir uma tarefa inútil, nem sequer é percebido. Seja por homens ou mulheres. Se soubessem o que faz ali, muitas ririam dele. Seria ridicularizado. A única conclusão a que cheguei foi a de que aquele cego bem que merecia ser cego. Pois mesmo que enxergasse, nada veria.

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"A diferença entre ficção e realidade? Ficção tem que fazer sentido."

 (Tom Clancy)

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