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Raymundo Silveira Um Dia De Cão Gosto de animais. Alimentei um cão abandonado e faminto, um vira-lata de médio porte. O bicho me seguiu. Era diferente dos outros. Não sei dizer por que, mas era diferente. Me acompanhava para todos os lugares sem demonstrar simpatia. Me encarava com cara de só de mal. Quanto mais o fustigava, menos desistia. Decidi ser flexível. Talvez eu não o interpretasse bem, preferível ter paciência a ser cruel. Com o tempo vai se afastar, cuidei. De fato, sumiu pela hora do jantar, mas logo retornou. Saciado. Como se tivesse comido as sobras de um banquete. Em casa, deixei-o fora, enfim, me safei. Não dormi um minuto. Sentia-me acuado, não conseguia fixar o pensamento em outra coisa, precisava conversar com alguém, falar daquela obsessão que me impedia de dormir ou pelo menos permanecer em paz. O dia amanheceu cansado e eu de ressaca. Engoli um café de rotina com gosto de obrigação. Ao abrir a porta, o animal estava lá. Mais diferente do que na véspera... Continuava sem entender por quê... Observei-o com atenção. A cara não era a de um cão comum, pelo menos entre as raças que eu conhecia. Aprontei um pontapé e chutei o ar. Distendi um músculo da coxa. Estava atrasado, não perdi tempo com mezinhas: apanhei o carro e fui trabalhar. O bicho já me esperava à entrada da empresa, me acompanhou ao relógio de ponto e, depois, à minha sala. O Chefe veio inspecionar: o cão era meu? Contei tudo. Dois zeladores o expulsaram a pauladas. Ao meio dia saí pra almoçar com vontade de ficar. Seria estranho, todo mundo ir almoçar, menos eu. O esquisitão, como me chamavam... Resolvi não mais comer sem sentir fome. Não tinha aonde ir, e não havia outro ir a não ser almoçar. Então me pus a arrodear o quarteirão. Ia na segunda volta quando vi o bicho, de longe, na esquina. Voltei e segui por outra rua, me distanciando o máximo possível. Só que os meus sapatos eram muito acochados e começavam a fazer calos. Louco que chegasse a hora de voltar, mas com medo de encontrar o cachorro. Cheguei na minha sala com os pés esfolados. Naquela noite consegui dormir um pouco. Acordei às seis e um quarto, tomei café e fui apanhar o carro. O bicho estava na garagem. Apesar do susto, pude enfim perceber por que era um cão diferente: não tinha focinho. Não era como o de um pequinês, tratava-se de uma coisa muito estranha. Tinha a boca, o nariz, os olhos e as orelhas de um macaco. Tenho certeza: quando o encontrei não era assim. O resto do corpo não sofreu alteração alguma. Tentei enxotá-lo, não recuou. Partiu para o ataque e me mordeu a perna. Tive de entrar rápido no carro e sair. Neste dia não o encontrei mais. Pensei em contar pra alguém, mas antevi a troça. Ou pior ainda, o desemprego e o manicômio. O esquisitão confirmou: pinelou de vez. Passei a tarde cansando de fazer nada. Todos me olhavam com cara de tá fodido. Sentia-me assaltado, como se tivessem roubado a minha normalidade. Você precisa se tratar, tire quinze dias de licença. Pode deixar: aqui eu seguro as pontas, só volte quando estiver curado. Curado de que se eu não estava doente? Cogitei, mais uma vez, de falar sobre o cachorro, mas me contive a tempo. Seria uma ordem de internação expedida por mim mesmo. Uma camisa de força comprada com as minhas próprias palavras. Não tinha parentes, nem amigos a quem pudesse pedir ajuda, salvo dois filhos casados, com muitos prafazeres, morando a seis horas de avião das seis horas: o único sem escalas. Não podia perturbá-los por conta de um vira-lata. Duvido que me levassem a sério. Também para eles eu era um diferente, um esquisitão. Não ia procurar tratamento algum, não me sentia doente, o cão era real, se fosse uma alucinação ou delírio não me teria mordido. Alguém soluçou lá fora. Sobressalto. Medo. Pensei nos filhos e netos... Felizmente, era choro de novela de televizinha. Um alívio de vapor de panela de pressão que ainda assobia nos meus ouvidos. Há muitos anos provava o insosso da vida... A sensaboria de uma existência sem tempero. Tateava a verdade e tocava na ilusão. Ansiava por ouvir as sinfonias de convivência e só escutava os prelúdios da solidão. Quanta ironia! Agora tinha sempre companhia, mesmo na ausência do companheiro. A obsessão do animal não me largava um segundo e a cada dia piorava. Profunda melancolia seguida de extrema indiferença pela vida. Abandonei tudo, inclusive as pequenas ações indispensáveis do dia a dia... Há mais de um mês sequer olhava um espelho. Evitava sair com pavor de encontrar o cachorro. Então, surgiu um pensamento terrível, o bicho teria assumido as minhas feições: um cão com cabeça humana, que não seria outra senão a minha. Mudei de idéia, agora precisava encontrá-lo a qualquer custo. Saí do jeito que me encontrava. As pessoas me olhavam com olhos de meu deus... Algumas tapavam o nariz. Vagueei o dia inteiro. Queria encontrar aquele cão para acabar com a minha cabeça naquele corpo canino... Não havia mais a menor dúvida de que ele levava a minha cabeça. As pessoas me olhavam cada vez mais atônitas: com certeza o tinham visto e agora se apavoravam com a aberração da minha cabeça no corpo do animal. À noite voltei pra casa, estava um pouco mais sossegado. Cheguei mesmo a dormir... Acordei outra pessoa. Desapareceu a obsessão, estava disposto a voltar ao trabalho. Fiz uma faxina no quarto e troquei tudo. Me considerava curado. Tomei uma ducha de meia hora, cortei as unhas do mês e meio, e respirei todo o ar do novo dia. Joguei as roupas imundas no lixo, retirei cuecas, meias, calças e camisa limpas do armário. Pus tudo sobre a cama e fui me barbear. Não havia barba por fazer... Ao me olhar no espelho, minha cabeça era a de um cachorro.
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