Versalhes

Desde quando fui "assentado" neste "site", nunca lamentei tanto quanto agora, não ser possível reproduzir nele as imagens exuberantes expostas, neste exato minuto, na tela do meu micro, servindo-lhe de "wall-paper". Pois hoje amanheci com um desejo incontrolável de rever Versalhes - mesmo precariamente sob a forma destas reproduções - e costumo não me contentar quando não posso dividir com outras pessoas as coisas maravilhosas desta vida. Poderia começar este falatório (ou escrevinhatório) dizendo ser aquele palácio, o resultado dos delírios de um megalômano, desfrutado por um déspota e cujo preço foi tragicamente quitado por um simplório. Com efeito, tudo aquilo foi idealizado e executado por Luís XIV (isso, nosso já velho conhecido, pois além de ser o "Sol", ele dizia ser também o próprio Estado). Contudo, quem usufruiu de fato dos seus encantos foi Luís XV e sua corte/bordel. Mas a conta daquilo tudo foi saldada pelo ingênuo, néscio, gorducho e atoleimado Luís XVI e sua (sua?) mulher austríaca com nada menos do que as respectivas cabeças. Poderia ainda reportar-me ao esplendor do Palácio o qual, antes de ser construído, era um refúgio simples de caçadores, ainda no reinado de Luís XIII, além de servir de residência de verão para ele e para sua família. Poderia também descrever a magnificência do seu interior, onde se destaca o Salão dos Espelhos, cuja decoração, duvido rivalizar com algo semelhante sobre a face deste planeta em qualquer um dos seus quadrantes, latitudes, meridianos ou hemisférios. Sobrariam, assim mesmo, muitas sete vezes sete maravilhas para deitar falação: Grand Trianon; Petit Trianon; os Aposentos do rei e os da rainha; Fontes Luminosas; os Grandes Apartamentos para Chefes de Estado; os magníficos Portões ladeados por estátuas de animais selvagens; os suntuosos candelabros de vidro pendendo do teto; as imensas estátuas douradas resguardando as paredes em volta do interior de todo o imenso edifício; o Museu Francês de História, com seus seis milhares de quadros, duas mil esculturas e muitos outros objetos de arte. Sem falar na própria estrutura arquitetônica a qual, por si só, já justifica ser o Palácio de Versalhes, uma das edificações mais esplendorosas do universo, Taj Mahal incluído. Não! Não estava a fim de tagarelar sobre nada disto. Gostaria de limitar-me apenas aos seus jardins! Antes de tudo, confesso: se não exercesse este ofício de "curão" (neologismo criado pelo meu ídolo Pedro Nava para significar "médico"), seria botânico; supondo eventual fracasso nesta profissão, seria paisagista; caso também não fosse bem sucedido como tal, juro perante Deus do céu, iria ser jardineiro! Gosto de todos os seres vivos, começando por este aglomerado de átomos e moléculas pensantes chamado Homem/Mulher. Tenho uma fascinação pela escala zoológica inteira: do mais insignificante paramécio, passando pelos insetos, todos os outros artrópodes, até os vertebrados mais evoluídos, inclusive aqueles potencialmente nocivos, como as serpentes e as feras. Mas a minha paixão mesmo são as plantas! Já fui possuidor de um dos jardins mais exuberantes de uma das cidades onde morei no interior nordestino. Passava lá não minutos, não horas, não tardes, não manhãs, mas dias inteiros a contemplar-lhe. Das coisas materiais por mim já perdidas nesta existência, considero a exclusão daquele ecossistema, a minha própria "expulsão do Éden". Penso que isto justifica querer comentar neste texto, não os Palácios de Versalhes, mas os seus jardins!

A paisagem cuja fotografia tenho diante dos olhos é deslumbrante. Foi obtida a partir de uma das fontes situadas na parte posterior do Palácio e abrange toda a extensão do terreno coberta pelas plantas. Uma longa alcatifa verdejante se estende desde o primeiro até o último plano, mas não traduz nenhum grau de monotonia como, à primeira vista, poderia parecer. Vários artefatos se encarregam de evitar isto, sendo o mais importante deles, um espelho lacustre, com águas de um azul anil, mas cristalinas. O lago é subdividido em um Grande Canal e outros acessórios. Uma escadaria junto à fonte permite, não apenas a observação cômoda e abrangente do conjunto, mas também que este possa ser admirado de variadas perspectivas. Extensos renques de esculturas monumentais margeiam os gramados, cuja relva é impecavelmente cuidada a ponto de não se identificar uma mínima falha sequer. Encimando a Fonte de Bassin, encontra-se a maior e a mais majestosa dessas estátuas a qual parece representar uma deusa da mitologia grega, tendo um zéfiro a seus pés. São tão bem preservadas a ponto de, durante o inverno, ficarem envolvidas por lonas especiais a fim de não se exporem às intempéries. Às margens do lago, uma densa e ampla concentração de árvores frondosas, cujas copas se fundem e se confundem, fornece a impressão de uma floresta virgem, embora em miniatura. Canteiros de flores lindíssimas se distribuem por toda a superfície relvada e são - pelo menos para mim -, as pedras preciosas cujo gracioso engaste, dão a esta maravilha do mundo o epíteto de "Jóia da França".

 
"Nenhum julgamento sumário resultará anódino. Ou o réu é culpado, e receberá o castigo merecido; ou é inocente, e obterá o status das vítimas da injustiça."
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