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Raymundo Silveira
Contos
Preguiçosos
Que Férias!
Um Quem convidou uma Qual
para passarem um mês juntos num Aonde durante um Quando. Certo, mas
me avisa alguns dias antes, OK? Tais férias têm de ser programadas
com algum prazo para evitarmos tantos poréns. Tudo bem, Qual, mas
não esqueça que férias serão tão insípidas quanto mais planejadas.
Ademais, alguém poderia saber e querer ir também. Isso é tão
aborrecido... Todos sabem disso e... Tá bom, Quem, mas se algum
Qualquer desconfiar e encher muito querendo ir junto, não dê nenhuma
chance. Claro, Qual, cada um é dono do próprio nariz e tem direito a
alguma privacidade. É, mas você sabe que a sua irmã Quede é uma
chata: passa o tempo perguntando onde fica o Aonde como se existisse
outro lugar pra ficar senão lá. Pra todo Aonde que a gente vai ela
quer ir, só pra ficar enchendo. Pior é aquele teu primo Cadê;
aquilo, sim, é mais chato do que venta de chimpanzé... Bom, Quem, se
é pra gente passar o tempo discutindo, melhor nenhumas férias do que
alguma... Não, Qual. Pode ficar tranqüila: iremos só nós dois. Nem o
meu melhor amigo Quanto, que jamais ficou muito tempo longe de mim,
irá conosco. Pode ser, Quem. Mas cuidado com aquele teu amigo: ele é
chantagista. Melhor ir logo perguntando o que ele vai querer em
troca...
Bloqueado Bloco
O
bloco só ia sair na Quarta-feira de Cinzas porque, sendo de metal,
não se encontrava quem quisesse brocar o bloco durante o carnaval.
Então, um dentista pobre deu um jeitinho e o manteve no lugar depois
de quatro horas de trabalho, em pleno Sábado Gordo.
Governador-Danação
Proto-agonizava uma peça enquanto pregava outra. Nunca economizou.
Nem sequer poupava sono. Dormia tudo de uma só vez como se o mundo
fosse acabar sem a manhã ser. Mas tinha um coração tão grande que
sentia pena do próprio demônio por ter o dele também imenso devido a
uma greve do grave coração cardíaco. Mal de Chagas ou Bem de
Cicatrizes? Não importava. Nem exportava. No primeiro caso, porque a
tarifa subiu demais. No outro, porque o imposto governador, na sua
dolorosa governação, decidiu arbitrariamente por uma taxa muito
menor. Não era um governo da nação, mas um governador-danação.
Abandonava tudo e saía pra cassar mandatos na África. Seu último
safári resultou inútil. Soprava um vento solar tão intenso, que as
balas se desviavam dos alvos e eram abocanhadas por negros famintos.
Enquanto o mandachuva se divertia, seus acessórios assessores
mandavam e desmandavam na nação do governador-danação.
Antes de Tudo, Corajoso
Por
ser tão forte, o sertanejo é antes de tudo um corajoso professor de
obediência, que segue obedecendo a ordem (vá, lente!), mas às vezes
olha pra trás, pra reparar e pára, exasperado, para esperar o
companheiro progresso, cujo caminhar é lento, como o de um doente ao
relento, sem dó do ente que vai em frente enfrentando a dureza da
natureza desafeta, afetada por um clima que se amiga com a inimiga
secura - que jamais se cura - para fazer o sertão ser tão desamigo.
Pois É!
Saibam
aquelas tais que ando com saudades tantas dos aquilos que elas e eu
cometemos em conjunto, em desconjunto com aqueles que não nos
queriam juntos. Hei, você aí! Lembra daquele aquilo? Qual aquilo?
Aquele cujo, de que você tanto gostava e pedia pra repetir quando os
ninguéns estavam distantes principalmente aquele quem. Que quem? Não
diga que não lembra por que senão sou capaz de dizer tudo: os comos,
os quantos, os quandos, os porquês e os aondes. Não se preocupe,
sabe muito bem que só diria se você insistisse nos pois sim, pois
não? Não. Não me cansei. É que naquele tempo eu só vivia praquilo.
Pequeno Discurso Moralista
Certas
pessoas “muito certas” nunca acertam: querem tudo para si e nada
para todos. Se cada um lutasse em prol do bem-comum, todos teriam
tudo e tudo seria de todos. Alguém, por certo, contestaria: como dar
tudo pra todos se nada tem pra ninguém? Muitos pensam assim; poucos
se empenham em desmentir tal mentira. Embora existam alguns um tanto
preocupados e outros tantos, interessados em ajudar. Cada qual tem o
direito de pensar como quiser, mas também tem o dever de ser
bastante tolerante para acatar as idéias de muitos, mesmo não sendo
as da maioria. Quem quer que seja, pode e deve lutar para validar a
máxima: um por todos e todos por um. Tudo o mais é desculpa para se
afastar de todos e ir ao encontro de tudo o quanto vai de encontro a
isso. Ninguém tem o direito de cuidar apenas dos próprios interesses
e se afastar dos de outrem.
www.raymundosilveira.net
"A
literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma
felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..."
(Julio Cortázar |