Raymundo Silveira

Vitrine

Ventas não inventadas sopravam ventos turvos embaçando tudo. Sobretudo a transparência da vidraça. Ainda assim eu via. Mas ninguém me via. Ou via e fingia que não via. Certamente se tratava daqueles vidros que só permitem ver o outro lado, do outro lado. Portanto, eu via. Mas quem estava fora não via nem ouvia. Então, por que havia aquelas ventas encostadas na vidraça? Não sei como fui parar ali. Vinha caminhando pela calçada e parei para olhar umas cuecas expostas numa vitrine. Era e não era. Continuei a caminhar. E nada me impedia de chegar até as cuecas. Pensei se tratar de uma exposição ao ar livre. Mas estou certo de que havia um anteparo de vidro. Além de transparente era também permeável. Não me impediu a passagem. Apanhei algumas cuecas, examinei durante alguns minutos e pus de volta no lugar. Ao me retirar, havia uma parede envidraçada. Portanto já estava lá quando entrei. Entrei? Como se entra através de uma vidraça? Não sei... Não entrei. Ou entrei? Não! Não penetrei. Como um raio de luz também passa e atravessa, também passei ou atravessei. Sem me cortar. Cortázar tem um conto curioso: “Progresso e Retrocesso”. Onde teriam inventado um vidro que deixava entrar moscas, mas não permitia sair. Entretanto, um conto é um conto. E aquilo não era um conto. Conto como conto porque não vejo outra maneira de contar. O que estava acontecendo era real. Mais real do que um rei ou uma moeda. Ademais, eu não sou mosca. Poderia simplesmente quebrar o vidro e sair. Quanto a isto não tive a menor preocupação. Só me angustiava aquela multidão de caras coladas à vidraça. Não havia dúvida que estavam todos interessados em saber o que se passava no interior da vitrine. De repente, uma intuição me assustou. Foi quando percebi também que a permeabilidade era unilateral e exclusivamente minha. Só a mim foi franqueada, pois não permitia a passagem das pessoas com os rostos colados do lado de fora. Nem me deixava sair. Os rostos que olhavam através do vidro tinham contornos disformes e todos usavam máscaras. Algumas cabeças tomavam o formato de formas em forma de ampulhetas. Outros apresentavam bochechas alongadas que tornavam as caras mais compridas no sentido horizontal. Quase todos esmurravam a vidraça. Tinha certeza que a intenção não era me atacar, pois nenhuma daquelas mascaradas caras me encarava. Não me viam. Logo, o objeto da fúria não era eu, e sim, alguma outra coisa dentro da vitrine. Ao mesmo tempo, ficava em dúvida, pois não havia nada além de mim e das cuecas. Meu problema era resultado de um dilema. Aquelas pessoas veriam? Se vissem, o que viam? Nada havia, portanto não deviam ver. Procurei um instrumento pesado para quebrar o vidro e sair. Também não havia. Então, me distanciei alguns metros para tomar impulso e me atirar contra a vidraça. Mesmo correndo o risco de me cortar. Corri e joguei todo o peso do corpo. Fui me estatelar no meio da via. Nada havia que me impedisse passar. Todavia, ninguém me via.  Nem havia viva alma com o rosto colado à vitrine. Que, por sua vez, estava intacta. As cuecas se encontravam no mesmo lugar.

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