Raymundo Silveira

"O Quê?"

Despertares ansiosos. Sonhos vários. Armas de fogo que jamais disparam. Sentimento sem sentir. Incompletude. Desejos de tudo. Anseios de cada um. Vontade de ir para algum lugar sem aonde, em qualquer dia sem tarde, sem noite e sem manhã. De esperar pela sombra atrasada e conversar com ela sem ter de responder. De abusar palavras sem precisar falar ou escrever. De renascer para não ser. Não ser um eu, não ser um ele, não ser um it, e ser tudo isso a um só tempo. Mas nada acontece. Nem espontaneamente, nem por acaso. Salvo uma assembléia de ninguéns, num ambiente sem substrato, tentando reivindicar anódinos porquês, sem ter a quem. Ou teorias ouvidas em conferências de sem vidas, assistidas por espectros de sem mortes para serem aplicadas em legiões de sem coisa alguma. Enquanto esquálidos alaridos explodem pulverizados, pulverulentos, pavorosos dos estômagos de multidões de ventríloquos em polvorosa. Pletora de coragem onde todos são covardes porque ninguém ensinou a usá-la. Tais quais máquinas de fazer tempo sem tempo para fazê-lo, pois os donos ainda não tiveram tempo de aprender a ler para decifrar as instruções. Viático sem sacerdote e sem enfermo. Instantes mortiços sem presente e sem passado, cujo futuro inglório é duvidoso. Tédio. Dos best-sellers onde tudo ocorre e nada acontece. De insípidas filosofias inservíveis, pois não saciam a sede de saber. Do poema comovente que não comove mais, de tanto que já foi lido. Da obra de arte que já não emociona, porque não interage. Das tardes de domingo que são o cada dia de todas as horas e o cada hora de todos os dias. Dos esperares eternos por coisas nunca advindas. E se estivessem prestes a chegar, vestígios de esperança nada mais significariam, pois quem esperava não existe mais. Haverá apenas desejos de tudo, satisfeitos de nada. Sempre a arma de fogo que não detona. Frases incompletas sem etceteras. Dinheiro incapaz de comprar o que se quer e se precisa. Salões de beleza enfeando. Dietas de fome engordando. Paixões de adolescentes e namoros de anciãos. Libido de tarados e cópulas de eunucos. Satiríases e ninfomanias em organismos sem orgasmos. Sobrarão apenas as sarjetas do destino aonde todos, um dia, se espojarão. Desespero. Astronautas vivos perdidos entre galáxias. Explosões de anãs brancas gerando super velhas. Buracos negros engolindo luzes, trevas, pensamentos...

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