|
|
|
Raymundo Silveira - Muito caro, Herr Johannes. Prefiro publicar sob formato eletrônico. Será quase de graça. E lido na Terra inteira. Caríssima impressão nesses seus... seus... - Tipos móveis. - Isso. Nesses seus tipos móveis. E o meu livro só seria lido na Morgúncia... No máximo, na Alemanha. Se acaso encontrasse um distribuidor muito eficiente. Deixou a fábrica “Das Werk der Buchei”, carregando os originais, sem sequer se despedir. Digitara pessoalmente as setecentas e tantas laudas no Word do próprio micro. Um Pentium 4, com memória ram de 512 megabytes e HD de 80 GB. Sabia que estava tudo lá. Arquivado e disponível. Em casa, dessobraçou a pilha e afogueou aos poucos na lareira. Era um romance cujo enredo principal era a história de um médico bem-sucedido, que só atendia os pacientes, embriagado e deitado num leito de hospital. Ciente do sucesso, não mediu esforços. A ficção realista estava no apogeu. A literatura romântica, ultrapassada. Havia um consenso: a arte que não imita a vida não é arte. É mero artifício perpetrado por sonhadores. O amor, enquanto tema de romances, era considerado subliteratura. Na prática, cultivá-lo era ser escravo das emoções. Um esteta não se furtaria de viver uns poucos dias de paixão intensa, período onde se concentram os desejos e as delícias. Ultrapassar este limite seria derivar para os ciúmes, a dependência, o sofrimento. Para um artista, as tragédias do amor são prazerosas quando observadas, mas burlescas e tormentosas enquanto experimentadas. Já o fantástico e a ficção científica, não podiam sequer ser considerados subliteratura, e sim, vulgaridades características de crianças e de adultos simplórios. Não era raro Herr Gutenberg, o editor-proprietário da empresa Werk der Buchei, bancar a edição de uma obra. O livro do senhor Euclides da Cunha (Os Sertões) e uma Bíblia Sagrada tinham sido recentemente editados. Todavia, o romance acima aludido foi examinado por peritos, os quais apontaram defeitos incontornáveis. Os maiores diziam respeito a inverossimilhanças e episódios incompatíveis com a realidade. Improvável, por exemplo, a circunstância onde um cliente tinha de esperar apenas sete dias para ser atendido por um médico hospitalizado por embriaguez contumaz. Na verdade, o prazo de espera não costumava ser inferior a seis meses. Um semestre também foi o prazo estipulado pelo primeiro webmaster contactado para a publicação do e-book. Quando expirou, recebeu uma mensagem: nada podia ser feito - adoecera. Enviou e-mails a outros nove. Todos rejeitaram por diversos motivos. Voltou a procurar Herr Gutenberg. Depois de muita negociação chegaram a um acordo. A obra seria editada em papel reciclado, por trezentos ducados. Combinado. Depois deste próximo feriado prolongado de 15 de Novembro, trarei pessoalmente os originais impressos. Herr Johannes não tinha nem usava computadores. Não sabia sequer o que era um disquete. Muito menos um CD-ROM. Tentou imprimir. Vários arquivos nomeados com o título do livro. Só que em cada ícone clicado surgia um anúncio: “Para abrir o arquivo, o Windows precisa saber com que programa ele foi criado. O Windows pode se conectar à Internet automaticamente, ou você pode selecioná-lo em uma lista no computador. O que deseja fazer?” Havia duas opções: “Use o serviço da Web para encontrar o programa apropriado. Ou: selecione o programa em uma lista”. Escolheu a primeira e obteve: “This file in your language is not yet available”. Como não conhecia uma só palavra, clicou na segunda opção. Abriu um menu com oito itens. Clicou em cada um. Todos exibiam instruções ininteligíveis. Não teve alternativa senão digitar tudo novamente valendo-se da memória. A memória dele mesmo, não a do computador. Telefonou para Herr Johannes e obteve um prazo de cento e vinte dias. Quatro meses ininterruptos de rememoração, recriação e redigitação. Só parava um pouco para dormir e cumprir necessidades fisiológicas. Tomava as refeições enquanto escrevia. Herr Gutenberg morreu a três de Fevereiro. Na miséria e sem deixar sucessores. O escritor nem tomou conhecimento, tão envolvido estava na tarefa. Em meados de Março faltavam apenas cerca de mil e quinhentas palavras para serem digitadas, quando deletou acidentalmente todo o romance. Só então, soube do falecimento do editor.
Nunca se deixara abater. Kardecista fanático,
enfrentava tudo com resignação fatalista. A cada fracasso seguia-se um
recomeço. Almejava um dia alcançar a perfeição absoluta: ver a obra
editada. Desta vez, contudo, foi demais. Errância do Céu. Infanda dita.
Sentiu a Fé estremecer. Os trovões da tristura troaram e um relâmpago de
desgosto fendeu-lhe, de leste a oeste, a Esperança. Uma avalanche de
decepções desabou sobre o silêncio rijo do entusiasmo, produzindo um eco
de ferro que penetrou fundo na carne tenra da sua alma.
No caminho de casa, um oceano de contratempos. Engarrafamentos de
veículos. Paciência de Jó até para suportar a preguiça dos sinais
luminosos. Para complicar, o céu começou a chorar. Os limpadores de
pára-brisa mourejavam num afã inútil. Nada superava a imensidade do pranto
das nuvens. Uma enchente de melancolia ameaçava inundar-lhe o terreno
pantanoso do esforço. Pela primeira vez cogitou de desistir.
Nadou, então, para a margem segura do
voluntarismo. E, afinal, o estoicismo garantiu a vitória do entusiasmo na
batalha contra a tibieza. Salvou-o um anjo da guarda cibernético:
um técnico em informática. Os arquivos que não conseguira abrir voltaram a
se tornar acessíveis. A primeira providência foi salvar tudo em CD-ROM. Ray Silveira "A
literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores". |