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Raymundo Silveira Estou só.
Absoluto isolamento até de mim mesmo. Como se uma bomba de nêutrons
tivesse arrasado tudo o que era vivo e apenas eu sobrevivera. A
sensação de desamparo ampara o terror. Somente as coisas inanimadas
ficaram intactas. Sou um fantasma vagando angustiado pelos
corredores e salões da galeria. Um silêncio de tudo e uma quietude
de nada se unem para me impregnar de uma opressão de infinito. Não
há dúvida: encontro-me à beira da loucura. Para me defender do
pânico, sigo caminhando instintivamente pelas dependências do Museu,
enquanto examino algumas telas. Quem sabe, a arte será um refúgio.
Assim como foi a única réstia de esperança para determinados homens,
tão desesperados quanto me encontro agora. Paro diante da tela:
"Cadeira de Braços de Paul Gauguin". O assento contém livros, uma
garrafa de vinho e uma vela acesa. A dependência neurótica do
pintor, em relação ao outro, é evidente. O quadro reflete um
sofrimento atroz. Os objetos imploram para que não os deixem
sozinhos. Isto só aumenta a minha angústia. Há várias modalidades de
solidão. Em cada uma se vislumbra algum tipo de saída. Esta que
estou sentindo é implacável. Pois não há o menor vestígio de
esperança. Outro óleo sobre tela: "Avenida de Álamos no Outono". Ao
fundo, minúsculo abrigo: uma guarita. Um cubículo afastado de
qualquer obra de humana origem. Os álamos enormes e o
amarelo-avermelhado da folhagem outonal sugerem um incêndio de
vastas proporções. Um espectro, com o qual me identifico, atravessa
a alameda de fogo indiferente a tudo. "Quatro Camponeses à Mesa".
Essa tela serviu de estudo introdutório para "Os Comedores de
Batata". As cores são deprimentes, apesar da predominância do verde.
Lembra menos o frescor das plantas do que nojentos líquidos
exsudativos de corpos em decomposição. O semblante das figuras é
sombrio e não denota o menor indício de apetite. A iluminação é
escassa. A penumbra se esparrama sobre o ambiente. Os comensais
parecem participar de um velório. "Navios No Cais de Antuérpia".
Nuvens escuras se concentram e ameaçam desabar a qualquer instante.
Duas esquálidas imagens humanas indiferentes a tudo, junto com o
esmaecido das cores e a desolação da paisagem, refletem profunda
melancolia. "Caveira Com Um Cigarro Aceso". O limiar de tolerância
ao estresse já está próximo de ser ultrapassado. Todavia, aquele
crânio descarnado, longe de exacerbar a minha aflição, restitui um
pouco de conforto, pois afinal deparei com algo familiar.
Paradoxalmente, os restos da morte nunca me assustaram. Estou diante
do "Auto-retrato Com Chapéu de Palha". O artista estava com trinta e
quatro anos. Mas viu-se a si próprio como a um ancião, cuja
fisionomia se encontrava vincada pelos traços da amargura. Não
associo a amarelidão da tela a nada agradável: nem ao sol, nem ao
ouro, nem ao luar. Mas a osso velho de sepultura, gema de ovo podre
ou simplesmente à palha ressequida do chapéu. Ademais, o próprio
retrato se torna insignificante e o confundo com o fundo do desenho
que parece salpicado de lama. A tensão é enorme. Não suporto mais e
derramo copiosas lágrimas de desespero. Deixo o edifício do Museu
pelo portão que dá para a Paulus Potterstraat. Do outro lado da rua
um bar completamente abandonado. Minhas mãos trêmulas apanham uma
garrafa de absinto e enchem um copo enorme até as bordas. Entorno
tudo de uma só vez... "A
literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores". |