Raymundo Silveira

Afinal, O Que É Mesmo Um Escritor?

            Devo avisar que este texto conterá muito mais indagações do que afirmações. Começando logo pelo título. É, no mínimo, curioso: não existe, praticamente, nenhuma dificuldade em se reconhecer qualquer profissional. Eu sei que sou médico, que o meu vizinho é engenheiro, que meu irmão é professor, que tenho um primo advogado e outro geólogo, que o Boris Casoy é âncora (e olhem que esta palavra sempre esteve associada a embarcações), que o Vicentinho é operário, que o Roberto Pompeu de Toledo é jornalista, que o Duda Mendonça é marqueteiro (outro neologismo cujo significado custei a entender), que o mecânico do meu automóvel é mecânico, que o Lalau é lalau.
          Próximo da minha casa há uma favela. Mora lá um pintor primitivista, cujas telas têm pouco valor estético e nenhum comercial. Pois bem, só atende pela graça de Mané Pintor. Conheci também um João Músico, um Joaquim Escultor e até um Chico Poeta. Mas nunca ouvi falar de um fulano de tal Escritor. Por quê?
          A palavra escritor tem conotações quase esotéricas. Dizer que um indivíduo é escritor, geralmente se faz através de uma oração para cujo objeto é uma honra; uma ousadia para o sujeito e, às vezes, motivo para aplausos, inveja ou ironia por parte dos "complementos". Às vezes, quando uma pessoa pretende elogiar ou agredir outra, metida a escrever, diz que esta "é ou não escritora". Como se isto fosse uma alta distinção ou uma desonra. Por quê?
          Quando se trata de um Balzac, de um Dostoievski, de um Flaubert, de um Eça de Queiroz, de um Machado de Assis ou de um Guimarães Rosa, fica fácil. Porém, à medida que se desce na escala "zoológica", a questão vai se tornando cada vez mais complexa. Até que se chega a um ponto onde se torna praticamente impossível saber quem é e quem não é. Por quê?
          Diz o "Aurélio": "Autor de composições literárias ou científicas". Entre 1979 e 1992 publiquei mais de meia centena de textos em revistas e livros médicos. Não ganhei nem gastei um centavo. Posso, então, ser chamado de escritor, por causa disto? Certamente, não. Então os dicionários não ajudam a esclarecer se alguém é ou não é.
          Vejamos alguns critérios objetivos que poderiam servir de parâmetros para rotular uma pessoa de escritora: Viver à custa dessa atividade, vender muitos exemplares, mandar imprimir livros de papel e tinta, pertencer a alguma academia, ganhar prêmios.
          Consideremos o volume de vendas. Sabemos que Euclides da Cunha e Sidney Sheldon são (foi) ótimos escritores. Entretanto, o último vende milhões de livros no mundo inteiro, enquanto que "Os Sertões", pouquíssima gente, aqui mesmo no Brasil, com segundo grau completo, com curso superior e até com pós-graduação, sequer o conhece. Será o romancista norte-americano milhões de vezes melhor do que o "obscuro e incompetente" Euclides? Chegaria mesmo a indagar: segundo esse tipo de aferição, teria sido mesmo o Cunha um escritor?
          Vejamos outros casos. O João Ubaldo Ribeiro é ou não é? Pelo critério Academia, é sim. Por outro lado, como não sobrevive dessa atividade – como ele próprio tem declarado reiteradamente em várias entrevistas -, não é. Não obstante, existem ou existiram acadêmicos, que nunca escreveram nada. No máximo, apuseram a assinatura em textos, escritos por terceiros, contendo leis arbitrárias.
          Se mandasse imprimir um ou dois exemplares das minhas escrevinhações, encaderná-las em couro, gravar meu nome a ouro nas lombadas, somente para ter em casa e apenas para eu mesmo manusear, ler e consultar, poderia ser chamado de escritor? O Carlos Heitor Cony escreve livros de papel e tinta, mas também o faz na Internet. Quando exerce a primeira atividade ele é, porém, quando espalha caracteres em bytes deixa de ser?
          No ano de 2001 submeti um dos meus contos a um concurso promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. Enviei os originais e depois fui convidado para a divulgação dos trabalhos premiados. Como estava fazendo um parto, não pude comparecer. Portanto, ignorava os resultados. Há mais ou menos dois meses – logo, cerca de três anos depois - recebi um telefonema da assessora do atual Secretário me convidando para participar de um coquetel. Meu conto merecera menção honrosa. Tratava-se do lançamento de uma Antologia. Receberia também um certificado. Então, pergunto: Depois que atendi esse telefonema passei a ser um escritor? Se a resposta for afirmativa, antes era o quê?
          Entremos agora numa seara muito mais complicada: a dos critérios subjetivos. Analisemos a crítica. Antes, cabe mais uma perguntinha: quem critica os críticos? Agora, gostaria que os leitores fizessem um pequeno teste. Façam de conta que estão se submetendo a uma prova de Literatura com questões de múltipla escolha: Quesito: – Leia atentamente o período em itálico - "Esse pequeno representante do pensamento retórico e velho no Brasil é hoje o mais pernicioso enganador, que vai pervertendo a mocidade (...) O autor de Brás Cubas, bolorento pastel literário, assaz o conhecemos por suas obras, e ele está julgado>."
          Considere as afirmações acima e assinale a alternativa correta. Quem escreveu isto foi:
               a) Diogo Mainardi
               b) Tárik de Sousa
               c) Ivan Lessa
               d) Bruno Tolentino
               e) Nenhuma das respostas.
          Ponto para quem assinalou a alternativa "e". Quem chamou Machado de Assis de "pequeno representante do pensamento retórico e velho no Brasil" e de "bolorento pastel literário" foi ninguém menos do que Sílvio Romero – um dos maiores críticos literários que já viram brilhar o Cruzeiro do Sul. Segundo ele, Machado era muito pior do que um "não escritor": era um lixo. Algum leitor deste texto já ouviu falar em Sílvio Romero?
          Então, meus amigos, o que é mesmo um escritor?

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  "A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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