Raymundo Silveira

Alta pressão

 Morava sozinho. Preferia assim. Sentia-se livre. Aos sábados lavava a égua: Enchia a cara de vodka e aceitava com um certo mau humor a interferência da amante, que conhecia muito bem o seu limite de tolerância ao álcool. A moça era abstêmia e fazia o possível para controlar a sua bebida. Mas ele queria poder aproveitar tudo o que o que não tivera com aquela criatura exigente e gelada, que tinha sido a mãe dos seus filhos. Em síntese: queria ter prazer e ser livre ao mesmo tempo.

  Acordou, sentindo uma ligeira sensação de formigamento no braço esquerdo, mas não se preocupou muito. Passou o dia bebendo, e se divertindo com a namorada.  No dia seguinte, mais bebedeira... Tinha sido advertido várias vezes pelo cardiologista sobre a pressão  alta. Mas com ele essas coisas de doença não aconteciam. Ainda não precisava de medicamentos, desde que modificasse o estilo de vida. Álcool, fumo, e gorduras, nem pensar. Sal, com moderação. Pouco levava a sério essas recomendações. “Sou uma pessoa madura, conheço os meus limites”, dizia.  Carinhosa, uma deusa do amor, a dócil companheira cercava-o de cuidados, embora fosse um tanto possessiva e ciumenta.. Fazia tudo para agradá-lo. Concordava com tudo que tinha vontade de fazer, todas as fantasias sexuais eram permitidas, contanto que o deixassem satisfeito. Mas ele tinha verdadeiro pavor a ter de assumir novos compromissos. Morar juntos, nem pensar...

 Naquela noite, fizeram amor repetidas vezes e voltou a sentir a sensação de formigamento. Não deu importância. Então, ela perguntou, com um desejo mal disfarçado de ficar, se queria que dormisse ali. “Não comece a tomar posse”, respondeu. “Nada de pegação no meu pé. Você já devia saber que detesto isso!” Ela não insistiu, mas uma mágoa incontida fez seu rosto perder completamente a expressão. Ressentida demais foi embora, deixando-o mergulhado num sono sem cortesia.

 A madrugada o surpreendeu sentindo-se muito mal. O formigamento aumentara.  Agora havia também uma dormência muito forte como se tivesse passado a noite inteira comprimindo o braço. Uma dor de cabeça terrível se instalou de repente. A visão o aturdia: Cada objeto, que ele sabia ser único, era par.  Sentiu vontade de urinar e de vomitar. A muito custo entrou no banheiro. Percebeu que boa parte havia escapado, molhando o pijama, sem que houvesse notado. Olhou-se no espelho e teve um sobressalto: a boca estava completamente torta. Quase se arrastando, voltou a se deitar. A dormência agora era completa. Não conseguia mover a parte afetada um milímetro sequer.  

  Procurou raciocinar, embora sentisse um embotamento crescente da consciência. Precisava pedir socorro. Tentou se levantar e alcançar o interfone, chamar o guarda do prédio. Mas não conseguiu. Continuava enxergando os objetos todos em duplicata. A dor de cabeça aumentou a níveis insuportáveis. E vomitava: vômitos que transbordavam pelos cantos da boca e desciam pelo pescoço encharcando o travesseiro.  A muito custo, conseguiu alcançar o telefone à direita da cama, porém o fone caiu fora do gancho e balançava inatingível. Então precisou parar tudo. Respirar estava se tornando cada vez mais difícil.

 Permaneceu quase duas horas completamente imóvel. Curiosamente, o embotamento da consciência  pareceu melhorar, o que,  em vez de representar um alívio, aumentou o seu tormento, por perceber com mais clareza o que ocorria. Por outro lado,   acontecimentos remotos da sua existência, insistiam em se projetar no cérebro avariado, misturando-se aos mais recentes. Isto só concorria para aumentar o desespero. Recapitulou cada fase do fim de seu casamento. Desde o dia em que soube, que a estátua de gelo, indiferente, com quem se deitava, todas as noites, dava a outro o que lhe negava.  Lembrou-se do processo de divórcio, da audiência de conciliação, da sentença definitiva. Deixar a confortável casa, fruto do seu trabalho. Pagar uma pensão exorbitante. Abrir mão de tudo pelos filhos. E ainda  assim perder a companhia deles,  que passariam com ele  apenas finais  de semana alternados. Ali sentira o verdadeiro significado da palavra “NÃO”. Memória sofrida demais.

 Naquele instante nada mais importava, a não ser sobreviver. Com um esforço inaudito, alcançou o fio do fone e puxou-o para junto de si. Mas não tinha condições de alcançar o teclado, que se localizava acima da sua última possibilidade de se esticar. O lado esquerdo do corpo continuava tão imóvel como uma pedra e há muito tempo parecia não lhe pertencer mais. A maldita consciência de tudo o quanto se passava era agora o seu maior tormento.  Sensação de inutilidade total. Nem chorar conseguia. A frustração era indescritível. Depois de muito tentar conseguiu resvalar na tecla de repetição e a esperança renasceu. Lembrou-se de que a última ligação havia sido para a amante. A única pessoa capaz de ajudá-lo, afinal. Uma sensação de alívio o envolveu. Boa menina,  talvez merecesse uma chance, era tão carinhosa...

 "Este telefone está temporariamente desligado ou fora da área". Revoltado contra a impessoalidade do sistema de gravações,  gritava, mas os gritos resultavam em grunhidos guturais quase inaudíveis. A dor de cabeça agora era insuportável. Estava perdendo totalmente a visão. À custa de um empenho sobre-humano repetiu a operação. O ruído característico se fez ouvir. Desta vez a ligação parecia que ia se completar. E então o socorro viria. Sua fiel e confiável namorada o salvaria. Não devia tê-la tratado daquele jeito, coitada... Finalmente o celular dela estava chamando.  E tocou e tocou e tocou... 

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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".

(Julio Cortázar)

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