Raymundo Silveira

Como Não Pagar CPMF

 
Sete meses antes de o Color tomar posse (e a poupança do povo) tive uma premonição e deu-me na telha comprar um bilhete de primeira classe em importante companhia aérea inglesa e abalar para a Europa a fim de investir, mais uma vez, meu capital em capitais. Foi exatamente o que fiz. Creio haver sido a melhor aplicação financeira que já realizei, pois até hoje ainda me rende vultosos juros, "royalties", dividendos, correção monetária e tudo mais que se possa obter em lucros numa operação desta espécie, além de haver escapado do confisco. Apesar disto, só costumo tomar conhecimento das oscilações nas bolsas de valores das capitais européias quando não estou por lá, conquanto tenha investido ali - nas capitais, não nas bolsas - todo o meu capital. Nunca paguei um único centavo de iptu pelos castelos do Vale do Loire ou do Reno. Jamais me cobraram imposto de renda ou sobre grandes fortunas pelas jóias do coroa britânica, de Napoleão III ou da casa imperial da Áustria, embora eu as tenha admirado quase tanto quanto os seus verdadeiros proprietários. Se algum dia quitei alguma parcela de ipva pelas centenas de horas viajadas nos metrôs de Paris, de Londres, de Estocolmo, de Oslo, de Copenhague ou de Madri? Sinceramente, não consigo lembrar. Laudêmios e deságios por catedrais góticas como Notre Dame de Paris, de Chartres, de Milão, de Colônia ou de Reims? Cpmf quando paguei as despesas referentes a incontáveis jantares no "Caviar Kaspian", no "Chez Clément", no "Alsace à Paris", no "Maxim’s"? Não, jamais me cobraram. Taxas de condomínio nos museus Britânico, do Louvre, do Prado, na Tate Gallery, na National Gallery de Londres e da Escócia ou na Galleria degli Ufizzi? Não sei do que se trata, conquanto haja passado tantas horas lá dentro, a ponto de, se acaso alguém algum dia decidir reativar a dívida, já não ter como calculá-la. Concordo ser também verdadeiro nunca haver recebido quaisquer quantias referentes ao aluguel do Escorial; dos Palácios da Pena, de Schönbrunn, de Versalhes; dos Mosteiros dos Jerônimos, da Batalha e de Acobaça, nem do Alcázar de Sevilha. Nem também a mais insignificante importância pela produção agrícola dos Alpes, das pradarias da Escócia ou dos vinhedos do vale do rio Ródano. Mas, em compensação, não é menos verdade jamais haver perdido uma única noite de sono preocupado com a invasão do Hyde Park ou com a desapropriação - a preço de banana - do Bois de Boulogne, para fins de reforma agrária. É assim que costumo responder aos meus eventuais interlocutores quando me indagam o motivo de gastar tanto dinheiro com viagens à Europa, quando seria mais sensato investir em imóveis e no mercado financeiro a fim de prover o meu futuro. Este raciocínio não é de agora; pelo contrário, remonta à minha mais tenra idade. Desde que me entendo por gente sinto, até nos próprios ossos, um desejo incontido de andar, viajar, sair por aí; para qualquer lugar. Uma herança, quem sabe, dos meus antepassados nômades. A Europa virou fixação quase obsessiva depois da minha primeira viagem àquela terra de sonhos. Não receio estar exagerando ao assegurar haver sido os dias mais agradáveis da minha existência. Tudo era encantamento. Até mesmo os percalços comuns a todos os viandantes eram relevados com inusitado bom humor. A cada passo uma revelação. A cada momento, um misto de surpresa e reencontro. As minhas lições do segundo grau pareciam estar todas sendo repassadas ao vivo, em cores e em matéria. Era a própria História tangível ! Lugares, objetos, edificações e até ruínas, dos quais ouvira falar apenas remotamente, pareciam saltar diante dos meus olhos perplexos e "falarem": "por que te demoraste tanto?" Em Lisboa, foram três inesquecíveis dias onde os instantes desagradáveis aconteciam apenas quando era chegada a hora de voltar ao hotel a fim de dormir. Quanto mais o tempo passa, uma espécie de anti-amnésia retrógrada projeta-me nas retinas cenas cada vez mais nítidas. O Castelo de São Jorge, a Alfama, a Mouraria, a Torre de Belém, o Museu dos Coches, o Restelo, o Parque Eduardo VII, a Avenida da Liberdade e a Baixa Pombalina vão fluindo no túnel do tempo das minhas lembranças, despertando essa estranha mistura de sentimentos envolvendo ternura e nostalgia, restituindo-me no presente, o passado feliz, ao desfilar através das asas da imaginação, pelas ruas da "minha" querida Cidade. Saudade! Depois partimos pela estrada de Sintra, tantas vezes palmilhada com Eça de Queiroz, graças à leitura de "Os Maias", "A Capital", "O Mistério da Estrada de Sintra". No Palácio da Pena a grata surpresa de encontrar pela primeira vez reunidos numa mesma obra, dois dos meus estilos arquitetônicos prediletos: o mourisco e o gótico manuelino. No Paço Real, mais emoções. Do alto de suas torres, mais de dez séculos teriam me contemplado, se Napoleão Bonaparte houvesse permitido. Este palácio, construído na época da ocupação moura, foi cenário de momentos inesquecíveis da história lusitana Vi, revi, revivi os azulejos, o teto dourado com passarinhos portando no bico a sentença “por bem”onde o Rei intentou salvaguardar a paz conjugal, ao sossegar o coração ciumento da Rainha. Depois fomos almoçar a uma taberna que mais parecia uma adega medieval, com seus vinhos coloridos, seus embutidos e presuntos, seu aroma delicioso de comida portuguesa, com certeza. Foi lá que vi o Euzebiozinho (de "Os Maias"), na forma de um português cujo físico em tudo fazia lembrar o personagem do Eça. Antes de retornar a Lisboa passamos por Queluz, onde sucedeu princípio e fim do nosso primeiro imperador. O quarto onde ele nasceu e morreu preserva a mesma decoração. Vimos também vários objetos antigos pinturas chinesas, magníficos tapetes portugueses oriundos do Alentejo, cristais e mármores italianos, porcelanas austríacas e azulejos holandeses. À noite, em Lisboa, a "Severa" - voz saudosa - o "Vira", o caldinho e o vinho verde. O "Fado". Parecia-me ouvir a voz da Leopoldina, companheira devassa e alcoviteira da Luisa de "O Primo Basílio", a cantar, já ébria, para despertar cada vez mais a paixão adúltera da amiga: "O rapaz que ontem veio/ Era moreno e faceiro./ Vinha das nuvens do céu/ Das ondas do mar sem fim. / E por mais que eu não queira/ Está sempre ao pé de mim". "O amor é uma doença/ que costuma dar no ar/ Quando menos se espera/ A gente apanha/ A febre de amar."

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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..." 
(Julio Cortázar

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