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Raymundo Silveira
Enterrado
Vivo
Uma procissão de pessoas entrou
no quarto em estranha agitação. Eram minhas tias, um tio e dois primos
Todos falavam ao mesmo tempo. No semblante de cada um, pude perceber
imediatamente que algo muito grave estava acontecendo ou por acontecer. As
fisionomias eram patibulares. Aquilo me contaminou como fogo ateado em
paiol ensopado de querosene. Uma angústia terrível começou a se
insinuar. Não podia articular uma palavra; indagar o motivo daquele
estranho comportamento. Tentava falar com algum deles e não conseguia
sequer esboçar o menor movimento. Pensei: Estou tendo um pesadelo. Não
estava. Tinha certeza de que não estava porque era capaz de reconhecer o
ambiente e as pessoas. Sabia precisamente quem eu era. Lembrava-me dos
compromissos do dia. Enfim, dispunha de dados objetivos para distinguir o
sono da vigília.
O meu tio e um dos primos me retiraram da rede onde passei a noite,
suspendendo o meu corpo pelos pés, pela cabeça e pelos ombros e o
puseram sobre a cama. A seguir, retiraram o meu pijama, vestiram-me com um
dos ternos mais antigos e me calçaram os sapatos. Alguém começou a
rezar um rosário. Eu tentava desesperadamente virar a cabeça para saber
quem era e pedir que parasse com aquilo, mas não conseguia. O pavor começou
a se instalar quando todas as demais pessoas ao redor da cama respondiam a
segunda parte das orações com ar pesaroso. Ouvi o soluço do choro de
alguém por trás da minha cabeça. As tentativas malogradas de falar, ou
pelo menos chamar a atenção de alguém com um leve movimento foram os
fatores decisivos para desencadear o pânico.
Permaneci neste estado durante cerca de duas horas. Depois, entraram
quatro homens trajados de preto, puseram-me sobre uma maca e
transportaram-na para a sala de visitas da minha casa onde havia – ou
parecia que ia haver – um velório. No centro da sala, um caixão preto
apoiado sobre pedestais de ferro. Por trás do lugar que devia ser a
cabeceira, uma essa de porte médio servia de pano de fundo para o
esquife. Seis enormes castiçais se distribuíam ao seu redor. As velas
estavam acesas e o cheiro emanado pela sua combustão se misturava ao de
incenso. Puseram-me dentro do caixão. Depois que o rosário terminou,
passaram a entoar uma litania cuja invocação constava apenas de preces
pelos que já haviam partido deste mundo.
Todo sofrimento, por mais pungente que seja, é limitado. Chega-se a um
ponto em que a dor é incompatível com a vida. O mesmo sucede com o pânico.
Deve existir algum mecanismo de equilíbrio, cuja instabilidade não pode
ser ultrapassada sob pena de o organismo não resistir. É o que devia
estar acontecendo comigo. Aquele desespero que já durava mais de quatro
horas passou a uma espécie de fase crônica. Surgiu, então um desejo
imenso de chorar. Uma sensação intensa de autopiedade me invadia por
todos os poros. Pensei: “Se conseguir, será a minha salvação”. E,
de fato, eu chorava. Sentia tudo o que experimenta uma pessoa em prantos,
porém nenhum soluço, nenhuma lágrima, nenhuma crispação de algum músculo
da face se manifestava externamente.
Ao amanhecer,
veio o padre, de batina
preta, com um longo roquete branco e uma estola roxa pendurada pelo
pescoço. Nas mãos um enorme livro preto. Junto
com ele o sacristão, que
carregava um crucifixo e um conjunto de metal contendo água benta.
Inicialmente, o sacerdote aspergiu, traçando três cruzes imaginárias
sobre o meu corpo. A seguir, começou a ler em voz grave, solene e
compungida algumas palavras, que, em síntese, se referiam à
consolação através da fé. Representava
uma espécie de "ministro" que pretendia trazer o conforto a
todos os meus parentes e amigos. Depois teceu
uma homilia na qual comparou
a ressurreição de Lázaro à
de todos os mortos quando chegasse a consumação dos séculos e
aconteceria o Juízo Final. Algumas pessoas choravam. Outras pareciam
aborrecidas com aquele palavrório inútil e não viam a hora de terminar
aquilo.
No final daquela parte da cerimônia
religiosa o celebrante pronunciou as palavras que me trouxeram de volta,
multiplicado ao infinito, um pânico jamais experimentado: “Agora,
segundo o costume cristão, podem levar o corpo para ser sepultado”. Um
empregado da funerária fechou o caixão. Fui, então, conduzido ao que
supus ser a traseira de um veículo. Não! Aquilo não podia estar
acontecendo! Depois de uns trinta minutos de percurso voltaram a retirar o
esquife. Eu nada enxergava, mas pressentia. Puseram o féretro sobre o chão.
A voz reconhecida e persistente do sacerdote recitou um trecho em latim:
“De profundis clamavi ad
te Domine...”
Então fui alevantado por alguma coisa que rangia como um guindaste e,
a seguir, lentamente senti-me afundar até tocar o solo num
nível bem abaixo do anterior. “Não
pode ser”, eu gritava em silencio. O desespero vencendo qualquer
outra emoção. Ouvi então o som apavorante de terra sendo jogada sobre o
caixão e, por fim, já muito distante, o irreversível ruído de colheres
de pedreiros. Alguma coisa, algum socorro, alguém... Nada!
Aos poucos os rumores foram ficando mais distantes até desaparecerem por
completo. A falta de ar que já havia sido desencadeada pelo pânico e
pelas próprias condições fisiológicas do organismo encontrava-se agora
em vias de se transformar em completa asfixia. Rezava e pedia a Deus que
abreviasse aquele tormento através de uma morte rápida. Foi exatamente
neste instante que ouvi ruídos de pás removendo, rapidamente, a terra...
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"A literatura é uma das possibilidades da
felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco
de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)
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