Raymundo Silveira

Essa Essa É Do Eça


          Em todas as ocasiões que estive em Lisboa, aproveitei para gouvarinhar. Quem já leu "Os Maias" sabe muito bem o que estou a dizer. A verdade é que, enquanto estou naquela cidade, o pobre homem de Póvoa do Varzim, não me sai da cabeça. Se vou ao Chiado, o fantasma do padre Amaro não pára de me obsedar, juntamente com o colega ao lado a repetir: "Amaro, seu maganão!" Se estou no Rossio, o consultório ocioso do Dr. Carlos Eduardo, fica com suas portas entreabertas e, lá de fora, posso observar o neto de Afonso da Maia conversando miolo de moringa com o seu amiguirmão João da Ega. Não sei bem por que, mas situo o "Ramalhete" no Restelo. Lá dentro, Afonso da Maia se queda a embalar-se numa cadeira de balanço, tendo à mão um alfarrábio. Sempre vou a Sintra. Lá, demais de reiterar visitas ao castelo da Pena, ao Palácio Real, às ruínas do Castelo dos Mouros e à Regaleira, sou freqüentador assíduo de uma das propriedades dos Maias - aquela mesma onde Carlos Eduardo e a irmã, Maria Eduarda, incestavam, escandalizando o avô. Ali mesmo, vejo o Vilaça, de óculos pra perto, a fazer intermináveis cálculos. Em qualquer taberna onde entro é muito raro deixar de encontrar o Euzebiozinho (das Silveiras), cercado de meretrizes espanholas. De volta a Lisboa, se entro numa livraria qualquer, avisto o Alencar. Vou ao Museu da Fundação Calouste Goulbenkian e, com quem deparo logo na entrada? Nada menos do que com o Conselheiro Acácio a arengar sobre a importância dos descobrimentos, a sofisticação da cultura lusitana e a magnificência dos monumentos portugueses. Sigo para o lado de Arroios e deparo com prima Luisa me observando pelos cantos dos olhos, temendo que eu seja o Ernestinho Ledesma, primo do seu marido Jorge, e possa estar a espioná-la. Na avenida da Liberdade esbarro a todo instante com dezenas de Sebastiões, Juliões, Marianas, Julianas, Donas Felicidades, Tias Vitórias, além de Basílios e Reinaldos. Nas missas dominicais, entrevejo a Titi de "A Relíquia", a rezar compenetradamente com o sobrinho Raposão. Quando estive em Leiria - em Agosto de 1984 -, vi a São Joaneira a carregar pelo braço a filha Amélia com um ventre enorme, a denunciar-lhe adiantada gestação! Enfim, todas as vezes que estou em Portugal - e lá já estive em seis ocasiões -, os personagens de Eça de Queiroz são as primeiras motivações das minhas fantasias. Certa vez tive mesmo uma alucinação com o próprio romancista. Tratava-se do seu funeral. Na cerimônia de corpo presente, juro ter visto uma faixa roxa, estendida no catafalco, onde se podia ler esta frase escrita com letras douradas: "ESSA ESSA É DO EÇA!"

22-03-2006www.raymundosilveira.net

"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores. E quando digo felicidade, não estou me referindo a uma felicidade beata: felicidade pode ser exaltação, amor, cólera..." 
(Julio Cortázar

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