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Raymundo Silveira FGTS - Fundo de Garantia por Ter (muita) Sorte O Banco abre às dez da manhã. Na fila de aposentados, que começa a se formar às quatro, um velho, desses sem idade. Roupa de tecido ordinário. Sandálias havaianas. Chapéu de palha. Os poucos dentes precisando ser extraídos. Barba de quatro dias.
E ficam todos ali, com o chuvisco que começa e tudo. A maioria nem se mexe, com medo de perder o lugar. O velho fica encharcado. Cansaço estampado no semblante. Lá pelas nove horas, o sol esquenta. Seca as roupas e a resignação daquele povo.
O calor nordestino aquece até caixas de isopor. É fila pra receber resíduo, de FGTS, liberado, pela justiça, depois de quinze anos. Ao meio dia em ponto chega a vez do coitado. A moça do caixa pede Carteira Profissional e documento de identidade. Consulta o computador e estremece. “Aguarde um pouco. Preciso falar com o gerente”.
Volta com um sorriso de ternura. “Sabia que vai receber muito dinheiro?” O velhinho olha pra trás. "Estou falando com o senhor mesmo”. “Eu?” “Isso mesmo. Pode conferir aqui: Seu saldo é de dois milhões, setecentos e vinte e um mil e quarenta e dois centavos”. Uma meia alegria desconfiada, desdentada. Cara de quem não quer acreditar. “Não há dúvida. O saldo foi checado cinco vezes. É isso mesmo”. O pobre do velho bambeou as pernas. Correram a socorrer porque ele agora era cliente dos importantes. Puseram sentado na mesa do gerente e deram água gelada e prosa.
Então, ele contou que naquele dia ainda não tinha tomado café. Planejava almoçar um PF no Mercado São Sebastião, ali próximo. Ainda estava em dúvida. Um prato de cuscuz com leite sairia mais em conta. Pelo jeito, tudo havia mudado. Podia se dar o luxo de comer um pedacinho de carne com arroz, feijão e farinha de mandioca, embora ainda não tivesse uma idéia precisa do que significava aquele valor. Nunca tinha visto um milhão. A bem da verdade, jamais ouvira esta palavra ser pronunciada. Só quando era criança e o pai colhera de um roçado que plantara, uma espiga de milho gigante. Disto ele se lembrava muito bem.
Agora sabia de cor apenas os valores das contas que teria de pagar naquele dia. Devia setenta ao Zé Maria da bodega, cinqüenta ao açougueiro que lhe vendia fiado os ossos da sopa de cada semana, quarenta na farmácia do compadre Chiquinho que lhe vendera remédios pra tosse receitados por ele mesmo. Dava um total de cento e sessenta. Pela quantia que pensava receber, iam sobrar vinte para os netos irem de ônibus pra escola. Então, o que eram dois milhões e num sei o quéqui tem mais lá...?
“O senhor tem idéia do que pode comprar com este dinheiro?” “Não senhora...” “O que sempre teve vontade de possuir?” “Só uma casinha de taipa pra morar e num pagar aluguel, duas cabras leiteiras e umas galinhazinhas pra deitar e eu beber os ovos mornos. O doutor disse que é bom pra...” “Esqueça tudo isto. Com este montante pode comprar cinqüenta automóveis de luxo zero quilômetro. Ou dois apartamentos de quatrocentos metros quadrados na Aldeota. Ou...”
Automóveis, Aldeota... Olhos arregalados de quem nada entendia. “Pretende investir?" "Investir? Como assim? Não sou boi brabo, não, dona!" "Mas o que quer fazer com toda essa quantia?" "Vou levar comigo, ora!" Todos se entreolharam incrédulos. “Meu amigo, como fará para levar este dinheiro?” “Ora, no meu bolso”. Riram muito. “Senhor, a quantidade de notas de cem não caberia nos seus bolsos mesmo que estivesse vestido de batina de frade gordo. Se quer mesmo levar em espécie, tem de ser em dois ou mais sacos plásticos do tamanho daqueles de pôr lixo. Além disto, é muito perigoso. Vamos mandar dois guardas armados acompanhá-lo até aonde for preciso”.
Os maços já estavam devidamente contados. Puseram em várias sacolas de papel forte. Mas, quando, arqueado pelo peso, o novo rico ia saindo pela porta principal, uma estridente campainha disparou o alarme. E ele, como por milagre, evaporou no ar.
A moça do caixa estendeu o braço, travou o despertador e abriu os olhos para a sua rotina. Estava mesmo precisando tirar férias. Até dormindo vivia as ocorrências do Banco. E dessa vez exagerara. Imagine um velhinho aposentado recebendo aquele dinheirão, se nem a um sonho como o dela ele tinha direito. http://www.raymundosilveira.net/ "A
literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores". |