Raymundo Silveira
Nós E Os Dias Da Semana

Não perceberam como os dias da semana são uma réplica em miniatura da vida de todos nós? Eu também, até agora, ainda não! Mas, vejam só como isto é verdadeiro. As Segundas-feiras são o retrato da nossa primeira infância. Durante elas nos sentimos desamparados, sonolentos, inseguros. Nas Segundas, a consciência de que temos de trabalhar para nos manter, se torna um peso que julgamos nunca deveria existir. As pessoas se sentem mais imaturas e inseguras do que nos outros dias. Veja-se, por exemplo, como marcamos para as Segundas-feiras tudo aquilo que é chato, incomoda, é difícil de se tolerar. Isto ocorre porque tendemos a regredir para a infância quando nos vemos na obrigação de enfrentar a realidade. Sempre adiamos para as Segundas, começo de dietas; propósitos de mudança de hábitos insalubres, como parar de fumar e de beber; pagamentos de dívidas; lavagem e conserto de automóveis; lavagem e conserto de eletrodomésticos; lavagem e conserto do nosso próprio comportamento, em suma, todos aqueles compromissos chatos que, se pudéssemos, jamais cumpriríamos. As Terças-feiras correspondem àquele período que vai, mais ou menos dos nossos oito anos até a puberdade. É quando sentimos o renascer da esperança, muitas vezes tolhida pelas depressões das Segundas. Não é por acaso que o último dia de Carnaval cai numa Terça-feira, pois é, geralmente, naquele dia em que o nosso pendor recreativo mais transparece. Brincamos a valer como se estivéssemos naquela fase de transição entre a meninice e a adolescência. Já vi quarentões e até cinqüentões se comportando, nas Terças de Carnaval, de um modo tão ridículo que nos chama a atenção, pois nunca imaginávamos de que fossem capazes daquilo. Cobrem-se e cobrem os outros com maizena, talco, farinha de trigo; homens sisudos se vestem de mulheres; dançam, pulam, saracoteiam em plena praça pública. As Quartas-feiras são a própria adolescência. Neste dia, já estamos ansiosos para que chegue logo a Quinta e a Sexta, pois achamos que serão aqueles em que realizaremos muito daquilo que vínhamos planejando desde o início da semana. E como uma Quarta-feira demora a passar! Podem observar como parece o mais longo. Nele já nos sentimos bastante afastados da Segunda; ficamos satisfeitos por já nos encontrarmos no meio da semana, mas, ao mesmo tempo, ainda distantes da tão esperada independência que nos transmite a expectativa da Quinta e, sobretudo, da Sexta-feira. A Quinta-feira equivale àquela transição entre a adolescência e a juventude, ou seja, aquele período que, normalmente, vai dos dezoito aos vinte e poucos anos. Sentimos que já não somos mais crianças, mas, tampouco experimentamos a independência de um adulto. Este seria o melhor dia da semana se a nossa ansiedade nos deixasse vivenciá-lo em toda a sua plenitude. Contudo, não é isto o que acontece. Esperamos pela manhã seguinte, como uma criança espera pelo Natal; pelo 24 de Dezembro; pela chegada do papai Noel. “Oba, amanhã será Sexta-feira!” Já observaram como nas Quintas as pessoas já se despedem de nós com um efusivo “tenha um feliz final de semana”? É que, o “clima” já é, de fato, aquele mesmo. Já notaram como é nesta fase em que os rapazolas (e também as moçoilas) geralmente experimentam os primeiros drinques? Bem, pelo menos era assim, e ainda é naqueles que não cairão no abismo do alcoolismo, pois já tenho visto até crianças de dez ou doze anos embriagadas. Mas isto é outra história. Na Sexta-feira sucede a realização de todos os nossos sonhos. Embora seja um dia normal de trabalho, as pessoas respiram um ar de feriado. Corresponde à época da nossa realização profissional, o ano da formatura, a abertura da primeira conta bancária, a aquisição do primeiro automóvel, dos primeiros bens; das primeiras viagens; do casamento – e toda a sua expectativa de felicidade para sempre -; do nascimento do primeiro filho, em suma, parece que nada mais nos faltará para sermos felizes. O “Sábado” das pessoas varia um pouco de uma para outra, mas de um modo geral se inicia por volta dos 38 e finda em torno dos 50 ou 55 anos. Apesar de ter 24 horas como outro qualquer, poucos de nós nos apercebemos disto. Pelo contrário, parece um dia alado, pois voa como uma gaivota. (Para não roubar a atmosfera poética e não dizer que corta os ares como um Concorde). É um dia agradável, sim, pois ainda podemos, sem nenhum temor “comer a nossa feijoada”, embora, aqui acolá, ela seja indigesta. Se a Sexta-feira é o dia mais agradável da semana, o Sábado é o mais gratificante, pois é quando costumamos nos sentir (ou não) plenamente realizados. Nele, a nossa vida ainda proporciona muitas alegrias e alguma esperança, embora já comecemos a nos preocupar com a saúde, programar os regimes para a próxima Segunda, ficar acordados esperando a chegada dos filhos em casa, quando nós mesmos não nos vemos obrigados a acompanhá-los. Nem sempre para os lugares que nos apeteceriam freqüentar. Ah, o Domingo! Pela manhã ele ainda não é tão cruel. Dormimos um pouco mais, descansamos, portanto, mais do que normalmente. A expectativa de ir almoçar fora de casa, a alegria de ver os filhos realizando aquilo que também fizemos ou gostaríamos de ter feito, a presença deles e a dos netos ao redor da mesa. Mas as tardes de Domingo, como são cruéis, pois todas são tristes. Não adianta se iludir com o futebol, a televisão se torna mais chata do que já era; as pessoas, mais melancólicas. As homenagens que, porventura, tentam nos prestar não têm o menor sentido. Como dizia o meu conterrâneo poeta padre Antônio Tomaz se referindo à terceira idade – um eufemismo que inventaram para evitar a palavra velhice -, numa tarde dominical, “Os desenganos vão conosco à frente / E as esperanças vão ficando atrás!” Será que estou pensando assim apenas porque me encontro escrevendo isto, justo numa tarde de Domingo?

 
"MEDICUS QUANDOQUE SANAT, SAEPE LENIT ET SEMPER SOLATIUM EST"
 

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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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