|
|
|
Raymundo Silveira O Promotor Tinha mania de
limpeza. Lavava as mãos a cada quinze minutos se estivesse distante de um
banheiro. A cada cinco, se estivesse próximo. Banhava-se duas, três e até
mesmo quatro vezes ao dia. Era promotor de justiça numa pequena cidade do
interior e insistia em acumular com esta função, a de policial. Não
resistia ao prazer de exercer atribuições estranhas ao seu
cargo. Freqüentemente era
encontrado em casas de jogos, em boates, em qualquer atividade
supostamente contravencional. Fiscalizava também pessoalmente
a eventual presença de menores nesses locais. Tinha, portanto, duas
obsessões compulsivas: a do poder
e a de asseio. Certa noite, próximo da hora aprazada para um
banquete em sua homenagem, voltou da porta alegando ao anfitrião um
contratempo inadiável. É que esquecera de mudar a quarta cueca do dia.
Que esperassem, enquanto ia trocá-la. Logo mais retornaria. Era, contudo, um
homem jovem, solteiro, afável e envolvente. Essas qualidades pareciam
mascarar os sintomas neuróticos.
Ele era não apenas respeitado, mas também alvo do assédio das
moças do lugar. Praticamente todas o queriam e ele, por sua vez, queria a
todas. Até que um dia desejou possuir uma mulher casada. Era a esposa do
tabelião. Mulher jovem e muito bonita. Tinha
uns lábios carnudos, sensuais, que ela tornava ainda
mais desejáveis, aplicando uma leve camada de batom arroxeado. Isso fazia
lembrar a existência de outros lábios tanto ou mais desejáveis do que
aqueles. O promotor não
era de recusar qualquer mulher que o assediasse. Desde que não estivesse
envolvido algum componente emocional na relação. Tratava-se
puramente de amor físico levado às últimas conseqüências. Essa
circunstância o favorecia a possuir diferentes mulheres, quando bem
quisesse e entendesse. Mas a esposa do tabelião o fascinara. Se tinha
algum interesse pelo promotor, não deixava transparecer nem um pouco.
Contudo, não o evitava, nem se esquivava totalmente às suas investidas.
Ao ser cumprimentada, correspondia com cordialidade, exibindo um leve
sorriso matreiro e um tanto insinuante. Porém, o
representante do Ministério Público fazia com ela o que as outras
mulheres faziam com ele: assediava cada vez mais. Certo dia abordou-a
ostensivamente: “Olá. Quando pretende viajar para Fortaleza?” “Na
sexta-feira da semana que vem”. “Irá sozinha?” “Sim, por que
pergunta isso?” “Poderíamos nos encontrar?” “Quem sabe...” E
esboçou aquele sorriso matreiro, tão dela. Na noite do sábado
seguinte ele a apanhou com o seu automóvel na praça da Escola Normal.
Dirigiu rumo a Messejana em cujo trajeto se encontrava um motel de alto
luxo. Uma vez instalados confortavelmente, beijaram-se com ardor. Tirou
delicadamente a roupa da mulher. Ele só de cuecas: alvas impecáveis.
Sua ereção era enorme. Sentiu vontade de urinar, ou era
apenas desculpa pra lavar as mãos mais uma vez. Pediu que se deitasse um
pouco na imensa cama redonda e aguardasse enquanto ia ao banheiro. Antes
mesmo de se aliviar, constatou que faltava água...
Sentiu, então, murchar bruscamente o seu “poder”
até ser reduzido a um apêndice ridículo e inútil. http://www.raymundosilveira.net/ |