Hoje
ele é um d
os poetas mais importantes da língua portuguesa, e este
foi o único motivo da minha hesitação em tomar a iniciativa de
reencontrá-lo. Não estou bem certo ainda se se trata de qualidade
ou defeito, mas como uma das principais características do meu
caráter não é exatamente esconder os meus sentimentos, gostaria de
deixar bem claro outra delas. Também não sei se isto se dá por
timidez, falsa modéstia, pudor, ou simples receio de ser mal
interpretado, mas costumo me afastar de amigos durante as suas
calmarias e me aproximar nas horas de borrasca. Tenho amigos e
parentes desembargadores, políticos de destaque, ricos ou
portadores de outros tipos de notoriedade ou projeção social a quem
nunca encontrei depois da sua escalada ou se o fiz foi apenas
casualmente. Por outro lado, prefiro me aproximar daqueles que eu
sei que estão sofrendo. Sou um leitor do “Jornal da Poesia”, editado
pelo meu amigo e colega de seminário Soares Feitosa, desde quando
comecei a navegar solitariamente na internet, em 1996, mas nunca
tomei a iniciativa sequer de telefoná-lo. Apesar da antiga amizade
temia que ele pudesse ter mudado – como sucede com a maioria das
pessoas que atinge a “sétima casa do xadrez da vida” - e pudesse
conjeturar: “Essa alma quer reza!” Pois aconteceu exatamente o
inverso. Foi ele quem me procurou e, num ato de extrema
generosidade, pôs-me o apelido de “poeta” e inseriu, com exagerado
destaque, o meu nome no prestigioso Jornal que ele edita e ainda
insistiu para que eu o visitasse. Estive em sua casa e foi aquilo
que todos podem imaginar acerca de dois amigos que não se vêem há
mais de 45 anos. Vejam bem que escrevi quarenta e cinco anos. Que
não nos víamos! Mas eu não quero nem posso falar do Soares Feitosa
de hoje. Não quero porque seria o mesmo que “chover no molhado”,
pois seu nome é conhecido de todos aqueles que estão minimamente
atualizados com o que se passa de mais nobre e refinado na poesia
moderna em língua portuguesa. Não posso porque careço de competência
para isto. Portanto, queria falar apenas do Francisco José Soares
Feitosa de 1957 quando ambos éramos internos no Seminário de Sobral.
No tempo em que vivíamos sob o mesmo teto; comíamos à mesma mesa;
estudávamos com os mesmos professores, dormíamos no mesmo
dormitório, enfim, morávamos juntos. Acho que ninguém suporta mais
ouvir ou ler comentários das peculiaridades desta minha memória de
computador. RAM e ROM. De ultima geração! Mas tenho de dizer que
quando penso no meu amigo, basta fechar os olhos para vê-lo
exatamente como ele era há nove lustros. Distingo a mesma face, o
mesmo talhe, o mesmo cabelo, a mesma expressão facial, as
mesmíssimas roupas que ele tinha em 1957. A minha memória é tão
fantástica que não deixa escapar sequer episódios fortuitos ligados
a ele dos quais ele mesmo confessa não lembrar. Pois é, faz
quarenta e cinco quaresmas, mas eu lembro de tudo como se tivera
acontecido nesta em que estamos agora. Despertávamos às cinco horas
em ponto, pelo som estridente de uma sineta seguida da voz de
barítono do nosso Prefeito de Disciplina: “Te deum laudamus Te
dominum confitemur”. E todos nós, respondíamos em coro quer
estivéssemos deitados, bocejando, levantados ou ainda dormindo: “Te
æternum Patrem omnis terra veneratur”. Sabíamos tudo de cor.
Não apenas o dito “Te Deum”, bem como todas as outras “astronômicas”
orações. Uma para cada atividade do dia. E da noite. Em latim!
Só não tínhamos de rezar antes de ir usar o aparelho sanitário, mas
se chegou a cogitar disto. E ai daquele novato que não decorasse
tudo até sessenta dias após a data da chegada. Havia um aluno
veterano inspetor, espécie de bedel, encarregado de conferir se já
sabíamos até o momento de respirar no intervalo correto. Ainda tenho
de cor todas as orações: Da “Salve Regina Mater Misericordiae.”
até o “Miserere”. Com inúmeras outras de permeio e ainda “mais
anos luz “ de duração. O responso mais curtinho era o “Pater
noster qui es in coellum”. Cantado! Com melodia, harmonia, ritmo e
tudo. E ai daquele que não aprendesse. Excetuando ir à “privada”,
ficaria privado de tudo! À longa oração do despertar seguia-se a
prática de exercícios físicos, toalete, banho e às seis horas já
estávamos todos em fileira indiana, de braços cruzados – sim, era
proibido descruzar os braços, quem sabe cairíamos na tentação de
cometer algum pecado com mãos – vestidos de cuecas, calças
comprimidas, camisa de pano grosso, colarinho de plástico, batina,
uma faixa azul – parecida com aquelas de lutadores de judô – atada
na cintura, roquete, murça; calçados com meias longas, ligas,
sapatos e tendo a cabeça coberta com um barrete. Excetuando os
roquetes e as cuecas, tudo era de tecido preto ou escuro. Passávamos
boa parte do dia vestidos assim. Num lugar cuja temperatura máxima,
à sombra, já chegou a atingir quarenta graus centígrados. Depois
seguíamos para a capela a fim de assistir à missa. E ai daquele que
não comungasse. “Fulano não comungou, o que teria ele andado a
fazer?” À longa missa – cantada com cânticos gregorianos, se fosse
um Domingo -, seguia-se o café da manhã que o Feitosa me disse agora
“ser uma delícia”, mas que eu abominava. Tratava-se de uma papa de
massa de milho com café e um pedaço de pão (sem manteiga). Não sei
que modalidade de papilas gustativas especiais ele tinha para se
deliciar com tão frugais vitualhas. Meia hora depois tinham início
as nossas aulas. E olhem que ainda estamos às oito da manhã! Pois o
Soares Feitosa do ano 2003 disse na minha cara que tem saudades de
tudo isto! Continuo de olhos semicerrados e estou vendo tudo. A
sotaina do Feitosa era diferente da de todos os outros colegas:
curta na frente e comprida demais nas costas. Ademais ele só usava
sandálias e nunca deixava de portar um livro que ele só punha
debaixo do sovaco quando era absolutamente impossível continuar a
ler. Um dos nossos professores implicava com ele – não era por
causa do traje mas ele fingia ser –, e chamava a batina do meu
amigo de “fraque”. Até que seria um elogio elegante se a palavra
“fraque” fosse dita normalmente. Mas o desdém, a ironia, o
sarcasmo, o ar de deboche que ele fazia questão de exibir ao
pronunciá-la eram tão marcantes que eu, que não conhecia um
fraque, fiquei assustado quando me disseram que na solenidade de
posse do Presidente Jânio Quadros, aquela seria a indumentária
exigida. Naquela época eu não entendia o motivo de, além daquele,
outros dois ou três professores nutrirem uma certa antipatia pelo
meu amigo. Pudera, nós tínhamos apenas treze anos e toda a
inocência deste mundo. Agora eu não tenho dúvidas: eles abominavam a
inteligência privilegiada – diria quase beirando a genialidade – do
meu colega. Ele era uma espécie de “Mozart” das ciências e da
escrita, e o mestre que tentava humilhá-lo, a versão correspondente
de “Antonio Sallieri”. O Feitosa questionava tudo; não aceitava a
lei do “Magister dixit” nem a pau. Exigia explicações, provocava
discussões e, não raras vezes, os seus argumentos eram muito mais
consistentes. Obviamente, aquilo incomodava. Os mestres se sentiam
no mínimo constrangidos diante daquele “petulante” menino de
Monsenhor Tabosa que ousava desafiá-los. Ainda teria muito o que
dizer; não apenas sobre o Feitosa mas também sobre mim mesmo e
sobre todos os outros colegas. Cito sem pensar muito: o Cícero, o
Brisamor, o Sitônio, o Walmir, Veras, Zé Célio, Arlindo, Zé Gentil,
Zé Leal, Flamarion, a curriola de Crateús, que sozinha encheria uma
página. Mas tudo tem limite. Inclusive a tolerância dos leitores e a
minha saudade. Sim, Feitosa, eu também sinto, apesar de tudo
02-04-2006