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Raymundo Silveira A versatilidade das palavras é um fenômeno incrível. Elas são capazes de identificar um homem frívolo e revelar uma inteligência superior; denunciar um tipo vulgar e indicar um caráter excepcional; distinguir um idiota de um gênio. Estas afirmações são aparentemente óbvias. Mas vejam isto. 1 - “Cão, cão. Gosto de um bom cão / Nas quatro patas um ser / De ouro e puro prazer / Maior que um rato / Mais fiel que um gato! / Cão! Cão! Cão!”; 2 - “Falo com a autoridade do fracasso – Ernest com a autoridade do sucesso. Jamais poderíamos nos sentar diante um do outro à mesa novamente. (...) Sou um perfeito neurótico, subproduto de uma idéia, farrapo de um sonho”. 3 - “Para que uma inteligência seja realmente adulta deve ter a capacidade de manter na cabeça duas idéias contraditórias simultaneamente”. 4 – “Continue – ela murmurou. – Oh, por favor, continue. Não me importa se eu não gostar. (...) Ela estava assombrada consigo mesma. Nunca tinha imaginado que pudesse falar dessa maneira. Estava invocando coisas que tinha lido, visto, sonhado através de uma década de horas de convento. De repente, percebeu também que esse era um de seus maiores papéis e atirou-se nele mais apaixonadamente”. Custa crer, mas as palavras citadas no parágrafo anterior foram todas criadas, pronunciadas ou escritas por uma mesma pessoa. Mais do que isso, por um mesmo autor, cuja obra é hoje considerada imortal. Está-se referindo ao romancista estadunidense Francis Scott Fitzgerald. No item 1 ele declamou aqueles versos ridículos numa requintada festa oferecida por um magnata de Hollywood. As palavras citadas em 2 foram pronunciadas quando ele se encontrava no fundo do poço e comparava o seu suposto e auto-atribuído fracasso com a obra do seu amigo e êmulo Ernest Hemingway. No item 3 ele faz uma reflexão sobre a natureza da inteligência humana. Afinal, as frases escritas no item 4 fazem parte de um dos melhores trechos do seu romance mais genial: Suave É A Noite. Para quem escreve este texto, as palavras são mais importantes para se avaliar um homem (ou uma mulher) do que quase todos os seus outros atributos. Só um destes me parece mais importante do que elas a fim de que se conheça alguém com um pouco mais de profundidade – os seus atos. Sucede que estes nem sempre são suscetíveis de avaliação a menos que se conviva com a pessoa, pois a capacidade de dissimulação de muitas delas e o desconhecimento dos seus hábitos mais íntimos tornam imperceptível a sua verdadeira face. Como explicar, então, aquelas discrepâncias gritantes entre as palavras de Fitzgerald citadas no segundo parágrafo? A meu ver, nenhuma delas se presta para avaliar o grau do seu gênio. Não me refiro à sua personalidade porque somente alguém muito capacitado no estudo dos distúrbios do comportamento humano seria, talvez, capaz disso. Refiro-me exclusivamente, portanto, à sua genialidade como escritor. No primeiro caso, porque ele se encontrava completamente embriagado. No segundo porque estava no fundo do poço, destruído pelo álcool, abalado pela loucura da mulher e acossado pelos credores. No terceiro, porque me parece uma frase feita que qualquer imbecil, pensando um pouco, também seria capaz de criar. Por fim, o item número 4 trata apenas de um pequeno trecho da sua vastíssima produção literária. Então, a única maneira de conhecer o escritor Francis Scott Fitzgerald seria lendo o conjunto da sua obra. Há pessoas que afirmam ser qualquer escritor um confessor público de si mesmo. Não acredito nisto a menos que ele escreva uma obra autobiográfica. Para mim, este tipo de autor é um insignificante copista, pois um ficcionista digno deste nome é um criador, ou seja, um artista; nunca um reprodutor dos seus êxitos, dos seus fracassos, enfim, da sua própria vida. Evidentemente, não se está a obscurecer o mérito do intelectual que escreve sobre si mesmo, desde que o faça declaradamente e deixe expresso que a sua obra se trata de memórias, crônicas, ensaios, ou de quaisquer outros gêneros literários que não incluam contos, novelas, romances, bem como nenhum outro tipo de ficção. 30/05/2004
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