Raimundo Silveira 

E mim para ele ilegível é

Ontem li, pela primeira vez, um texto de Guimarães Rosa. Foi o maior autor em língua portuguesa que conheci até então. Aliás, tenho dúvidas se aquilo é mesmo a minha língua materna. A linguagem, com certeza, não é. O conto se chama “Famigerado”. Confesso que não entendi praticamente nada. Não! Não ingeri álcool. E penso que também não estou louco, pois sei que hoje é terça-feira, Setembro, 28 de 2004. Sei também onde moro, o que estou fazendo e o que pretendo fazer. Conheço uma grande escritora que odeia repetições. Lamento contrariá-la. Ontem li um conto de Guimarães Rosa, não entendi quase nada e, ainda assim, o considero o maior escritor em língua portuguesa.

 Então não é mais Machado de Assis? Nunca foi. Machado é genial, mas está a léguas de distância do Rosa. O bruxo do Cosme Velho continua, portanto, um dos maiores. Contudo, foi ele mesmo quem endossou o pioneirismo do autor de “Grande Sertão: Veredas”, pouco antes deste nascer, quando afirmou em “Linha reta e linha curva”: “Não imagina como aborreço as cópias. Fazer o que muita gente faz, que mérito há nisso? Não nasci para esses trabalhos de imitação”. Infelizmente, nasceu, sim meu caro Machado. Apesar da sua genialidade, você não passa de um imitador dos romancistas europeus. Se a palavra imitação é muito “hard”, digamos que sofreu influências. Em ambos os períodos da sua carreira literária.

 Há inúmeros exemplos. Dois, porém se destacam: o irlandês Jonathan Swift e o inglês Lawrence Sterne. De ambos, herdou a opção pelo sarcasmo que é uma marca registrada da sua concepção do mundo e da literatura. A propensão para a ironia, um certo distanciamento e uma relativa neutralidade face à condição humana e ao absurdo da existência, resultaram desta herança. Não há demérito algum. Pelo contrário: encarar com bom humor o vazio existencial é preferível à inútil revolta ou à autopiedade como se vê, por exemplo, em Augusto dos Anjos. Machado diz, em tom de brincadeira, muita coisa terrível que o poeta alagoano diria mais tarde quase em desespero. Não há nenhuma novidade. Ele mesmo confessa que costumava “molhar a pena da galhofa na tinta da amargura”.

 Com Rosa não aconteceu nada disto. Não foi imitador, nem influenciado por “seu ninguém”. Diria mais: nunca foram sequer capazes de imitá-lo. Trata-se, portanto, de um inventor. Um artista que tirou do nada uma nova maneira de escrever. Uma Literatura original, inédita. Sem precursores nem sucessores. Pelo menos até agora. Para quem garatuja este texto, é nisto que consiste a verdadeira genialidade. Embora confesse candidamente: Ontem li pela primeira vez na vida um texto de João Guimarães Rosa. E mim para ele ilegível é.

 

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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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