Raymundo Silveira

Frutos Furtados Não Frutificam

Quem não conhece bem o terreno, nunca saberá: frutos furtados não frutificam. Embora os furtadores sejam os próprios frutos. É lei universal criada por constituintes de gesso, mas promulgada por reconstituintes de mármore. Havia, num pomar, uma macieira jovem, sete gatinhos e uma figueira velha. O que têm a ver gatos com macieiras e figueiras, jovens ou velhas? Aparentemente, nada. Inaparentemente, também nada. Por que para toda história tem de haver necessariamente uma explicação? gatos, macieiras e figueiras nada têm em comum uns com os outros - exceto algumas circunstâncias fortuitas como, por exemplo, viverem -, mas existiam num pomar, e pronto. Inecessário qualquer esclarecimento. Todavia, há certos aspectos da linguagem que necessitam sim, de um fundamento. Se essa narrativa começou afirmando: frutos furtados não frutificam, e depois declarou haver num pomar uma macieira jovem, sete gatinhos e uma figueira velha, embora esses três elementos nada tenham a ver uns com os outros, têm necessariamente de ter com frutos furtados não frutificarem. Sob pena de surgir uma incoerência, e aí estaríamos diante de uma linguagem sem nexo. E isso é próprio de alienados. Embora, os alienados detenham a sua própria linguagem com o seu nexo específico. Portanto, como num sonho aparentemente sem nexo de um indivíduo sadio, há um fundamento real, na linguagem aparentemente sem fundamento dos alienados, há um nexo virtual. Presumindo – e tão somente presumindo - que os leitores e, sobretudo, o autor deste texto não sejam alienados, a coerência dele será a da primeira espécie. Tal não impede um equívoco da presunção aludida. Neste caso, a lógica do texto vigorará na segunda condição. Voltando ao episódio da macieira, dos gatos e da figueira (o qual nem episódio ainda é, pois nada aconteceu, mas como vai acontecer agora, já se pode considerar como tal), sabe-se que gatos não costumam furtar nem maçãs, nem figos. Normalmente, seria esperado que frutificasse a macieira e definhasse a figueira. Idosa a segunda e jovem a primeira, seria coerente supor existirem, no pomar, mais maçãs do que figos enquanto o tempo escoasse. Sucedeu o contrário: os sete gatos furtaram e comeram as maçãs, deixando intactos os figos. Então, as sementes dos figos da figueira-mãe geraram jovens figueiras que frutificaram. Por sua vez, a macieira feneceu. Uma absurdidade, segundo os padrões de coerência de indivíduos sadios. Trata-se de um caso típico de lógica do absurdo. Uma coerência própria de alienados. Existe, porém, um obstáculo. É mais compatível com a realidade, a lógica dos loucos ou a dos sãos? A realidade, no caso, foi a assertiva: frutos furtados não frutificam. Visto sob esse prisma o problema é simples: aconteceu uma mera casualidade, logo não conta, declara um indivíduo sadio. No entanto, algum alienado poderia objetar: aconteceu uma casualidade ou está a acontecer um casuísmo? Estaria-se, agora, diante de um impasse. Nem se cogita de discutir se sucedeu ou está a suceder casualidade (como quer o são), ou casuísmo (como insiste o alienado), e sim de decidir se seria possível um argumentar contra o outro. Em outras palavras: existe coerência quando a lógica de um indivíduo normal se confronta com a lógica de um alienado? Obviamente, o impasse só poderia ser dirimido por alguém neutro, isto é, que não fosse são, nem alienado. Existiria esse sujeito? Não é somente isso. Ficou no ar uma indagação: É mais compatível com a realidade, a lógica dos loucos ou a dos sãos? Da qual resulta uma segunda: o que é realidade? A tendência simplista é responder: ora, tudo o quanto é real. Há quem conteste tal afirmativa. Realidade é apenas um ícone do Real. Pois é tão somente aquilo que os nossos sentidos nos revelam. Deste modo, nem somos capazes de saber com absoluta exatidão se o real existe, de fato, pois a sua representação (a realidade), depende dos nossos sentidos. Trata-se, portanto, de uma subjetividade. Aqui cabe mais uma vez a pergunta: o que tudo isto tem a ver com pomares, frutos furtados, macieiras, gatos e figueiras? Absolutamente nada. Por que para toda história tem de haver necessariamente uma explicação? Basta saber: frutos furtados não frutificam. Um leitor responderá: ora, neste caso específico tratou-se de mera casualidade. Mas aí a questão se complica outra vez. Quem diz isso é um leitor são, com a sua lógica de sanidade, ou um leitor alienado, com a sua coerência de insano? Presumindo serem sãos os leitores (e, por conseguinte, afirmem tratar-se de casualidade), e o autor é alienado (e jure estar sendo vítima de casuísmo), quem dirimirá a questão? Obviamente alguém neutro, isto é, que não seja são, nem alienado. Existirá esse sujeito?

 

15/04/2006

http://www.raymundosilveira.net/

"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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