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Raymundo Silveira História de Uma Coisa "É. Parece que estou mudando de modo de escrever. Mas acontece que
só escrevo o que quero. Não sou um profissional – e preciso falar
dessa nordestina, se não sufoco.” (Clarice Lispector: A Hora da
Estrela, pg 31) O
que é ser gente? Dizem que sou gente porque sou mulher. Mas eu penso
diferente: Acho que não sou gente justo por ser mulher. Dizem também que
a minha história é coisa do passado. Que hoje não acontece mais.
Talvez. Não sei, nem é meu propósito julgar. Embora
não exista mais como indivíduo, ainda estou viva. Não sou um fantasma.
Sou real. Porque deixei
sementes. Quem viveu algum dia e deixou sementes, é eterno. Nada do que
fui desapareceu por completo. Nem física nem espiritualmente. A prova
disto é que já morri e estou aqui. Contando a minha vida. E repito: Não
sou um fantasma. Imaginem
alguém que jamais nadou e, de repente, caiu numa piscina muito funda. E
sobreviveu sem nenhuma ajuda. Foi assim que me senti quando casei, aos
dezesseis anos. No final da primeira década do século vinte. Tive dois
filhos e duas meninas. A mais nova tinha um ano e meio quando uma pústula
chamada Iago tentou me seduzir. Como resisti, escreveu-me uma carta anônima
e entregou ao meu marido. Não. Não entregou. Se tivesse entregado teria
sido a minha segunda salvação. Pôs debaixo da porta da nossa casa.
Desta vez não escapei do afogamento. Minha cabeça foi comprimida contra
o fundo da piscina. Até a morte. Antes
tivesse sido assim. O tormento teria durado apenas alguns minutos. Durou
para além do meu esquecimento. Não é comum uma pessoa ser expulsa da própria
casa. Sem nada. Nem sequer alimento. Por isso iniciei esse relato
afirmando que não sou gente. Não
estou dizendo que toda mulher é não gente. Afirmei que eu não sou. E
posso provar. Tão claramente como os rios de lágrimas que derramei até
que não sobrasse uma gota pra refrescar minha amargura. Pensando melhor,
a comparação não se aplica, porque as lágrimas que chorei foram de
sangue. Digamos, então, apenas, que posso provar. Ouço dizer que ainda
hoje mulheres são expulsas de suas casas. Mas nunca que tivessem os
filhos arrancados dos seus braços na hora da partida. Isto sucede com cães.
Cães sem donos. Logo, ninguém pode sustentar que sou gente. Na verdade, sequer tive um fim. Pois nem eu mesma sei como ele foi. Não é comum se ouvir falar de pessoas cujo fim se desconhece. Isso é mais fácil acontecer com coisas. Coisas sem valor. Como tudo isso sucedeu comigo por não ter nascido homem, não exagerei nem um pouco quando declarei, no princípio dessa história, que não sou gente porque sou mulher. http://www.raymundosilveira.net/ "A
literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz
quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos
leitores". |