Raymundo Silveira
Insônia

"Tú y tu desnudo sueño. No lo sabes.
Duermes. No. No lo sabes. Yo en desvelo
y tú, inocente, duermes bajo el cielo.”


(Gerardo Diego: Insomnio
)



Não durmo. Nunca dormi. Ou, pelo menos, não me lembro de ter dormido. Às vezes, gotas de cochilos caem sobre mim, e é graças a elas que ainda estou vivo. Não dormir é como escutar, todo tempo, o estrondo silencioso do tempo. Ou ser o sobrevivente único de um mundo que há muito não existe mais.  Tolero o incêndio do dia, mas abomino o rescaldo da noite. Não apenas abomino, como também sinto pânico quando se aproxima.

 

O dia queima depressa, então a angústia de existir dói, mas é efêmera. A noite cozinha lentamente, pois nela está concentrada toda a tragédia da condição humana. Por este motivo foi feita pra se dormir, pois, do contrário, poucos suportariam viver sob o influxo perpétuo de tamanho infortúnio. Sou, portanto, uma das raras pessoas condenadas a arrostar este horroroso ror de trevas escaldantes. Para mim, o dia é o pouco de vida que ainda resta. A noite, a face exposta do passado. Embora também não seja a morte, pois nesta não existe mais o suplício do não dormir. Assim sendo, a noite nem é vida nem é morte: é um hiato diabólico entre uma e outra.

 

Os cochilos são minutos que passo na ante-sala da realidade e pelos quais pago, com pesadelos em pêlo, caríssimos estipêndios. Todos os dias, antes de ser dia, me levanto e saio para caminhar. Impossível permanecer no leito com a companheira, escutando o ressoar do seu sono como um fole a aquecer o ferrete em brasa para me marcar ao amanhecer, como se eu fora um bovino. Ou como se estivesse há vários dias sem me alimentar, devido à falta de comida, e visse alguém se banqueteando e depois atirando fora os restos, sem que eu pudesse apanhar um pouco.

 

Pensando melhor, preferia sentir fome e não ter o que comer, a não sentir sono tendo um leito de príncipe para me deitar. A fome dói no corpo. A insônia tortura o espírito e a mente. Com o passar dos dias, a fome tende a se atenuar, mesmo sem a ingestão de alimento algum. A insônia, ao contrário, se agrava cada vez mais, conquanto combatida à custa de estupefacientes.


Caminho sozinho, às vezes antes do nascer de um Sol nascendo morto. Enquanto isso, um turbilhão de imagens assola-me a imaginação. Faço um esforço inaudito para afastá-las, mas é inútil. São lembranças obsessivas de fatos pontuais, aparentemente banais, sucedidos num passado remoto, que para outras pessoas nada significariam. Para mim são crimes perpetrados recentemente, e a humanidade inteira me olha estendendo, na minha direção, o dedo em riste.

 

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"Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta."
(Julio Cortázar)
 

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