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Raymundo Silveira Sem mais nem menos o tamanho do clitóris se desenvolvia. Crescia proporcionalmente às unhas. Antes não era assim. Quem primeiro percebeu foi o parceiro. “Teu grelo tá muito grande. Já percebeste?”. “Não. Não percebi nada. Deves estar exagerando”.“Toma um espelho: vê”. “Meu Deus! Não tinha percebido ainda...” “Vamos ao médico.” “Não! Não precisa... Vou sozinha”. “Precisa, sim. Quero estar a par dessa história. Nunca vi isso antes. Afinal, sou teu marido”. “A senhora não tem percebido outras alterações? Voz grossa, pêlos em excesso, sobretudo na face...?”. “Não, senhor”. “Menstrua todos os meses?” “Mais certo do que a chegada da conta da luz”. “Bem, obviamente é uma anormalidade. Falta descobrir a causa. Há várias hipóteses. A mais comum é de natureza indeterminada e a medicina ainda não chegou a uma conclusão... Mas outras doenças não podem ser descartadas. Variam desde um desequilíbrio de hormônios até... Tenho de ser honesto... Até um tumor. Somente depois de uma série de exames teremos o diagnóstico”. Negligenciaram a orientação profissional. Não voltaram. Iludiam-se: “com o tempo, cura”. Cerca de um trimestre depois, a anomalia era aberrante. E dificultava o coito. O clitóris era uma imensa “verruga”. Mais se assemelhava a um pênis vestigial. “Todos os exames estão normais. A conduta, em casos como este, é expectante. Temos de ter paciência e vigiar cuidadosamente. Volte de hoje a dois meses”. Não voltou. O órgão continuou a crescer, embora mais discretamente. Ainda assim, as relações sexuais se tornaram impraticáveis. Por motivos mecânicos e psicológicos. O esposo deixou de sentir desejo. Aquela enormidade lhe causava repulsa. Por sua vez, a esposa estava cada vez mais ansiosa. Parecia observar o pênis flácido do marido, como um jardineiro que vê murchar a mais bela flor. Sentindo-se impotente para impedir. “Amanhã voltaremos ao médico”. “Não! Não quero. Não vamos pagar mais nada só para ouvir conversa fiada”. E um conflito se instalou entre o casal. Depois de três meses, desde a última consulta, o crescimento se tornou moderado. Apesar disso, o tamanho podia ser comparado ao de um quiabo médio. Mesmo assim, o homem parecia mais tranqüilo. Só a esposa continuava cada vez mais aflita. Era dona do seu segredo. Até a última fase de crescimento estava muito feliz, mas dissimulava. A angústia era mera encenação. Agora, ao contrário, era pra valer. Estava quase desesperada. Tudo o que tinha acontecido fora promovido artificial e deliberadamente. Usava trações: atava pesos ao órgão e deixava durante horas. Suportando toda dor, em troca de algum alongamento. Comprava e lia aqueles folhetos, tão divulgados na Internet, destinado a homens, para incrementar a envergadura do pênis. E punha em prática. Obsessivamente. Quando o órgão parou de crescer, da aflição passou ao desespero. Começou a tomar hormônios masculinos. Parece que o tamanho do clitóris havia atingido o limite. Os hormônios tinham efeitos colaterais: Engrossavam a voz. Faziam aparecer pêlos, escuros e grossos, na face. A droga aumentava, não o tamanho do órgão pretendido, mas o do pomo de Adão. Foi, literalmente, arrastada ao médico. Repetidos os exames, estavam lá, no sangue. Doses cavalares de testosterona. Mais testes. Não dormia. Na véspera das tomografias e de outros exames por imagem, perdeu a razão. O esposo dormia. Levantou-se pé ante pé e se dirigiu ao banheiro. Apanhou o estojo de barbear e retirou de dentro uma navalha afiada. Amolou ainda mais. Dirigiu-se para a cama. O marido fingia dormir. Ainda assim, suportou que descesse o pijama e apanhasse o pênis pela raiz. Quando já partia para o ataque foi contida. Hoje reside num hospício. Mesmo sob vigilância quase contínua ainda apresenta inchações imensas no clitóris. Resultado dos pesos que usa para repuxar. E repete como um disco arranhado: “Terei meu pênis. Juro que terei. Do contrário, amputarei os de todos os homens... Será tudo ou nada” |