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Raymundo Silveira Até
ontem à noite eu não sabia o que significava a expressão “escritor
marginal” e graças (ou desgraças) a essa ignorância, propendia a
encará-la com uma certa reserva. Quanta falta faz um mínimo de informação,
Deus meu! Uma luz se fez na minha consciência depois que li um artigo
nesta bendita Internet e hoje acordei pensando assim: “Quando eu
crescer, e deixar de ser um escrevinhador, tudo o que quero ser nesta vida
é precisamente <i>um escritor
marginal”</i>. O homem que me tirou das trevas e iluminou a
minha consciência se chama Ezio Flavio Bazzo. O título do artigo escrito
por ele é “O Mito do Escritor Marginal” e se trata de uma Palestra feita na UnB - Universidade de Brasília - a convite dos
alunos de Psicologia. De
acordo com ele, a expressão é antiqüíssima. Retroage ao século XVIII.
Teria sido uma pecha que os editores daquela época assacavam, com propósitos
puramente econômicos, contra os autores que preferiam publicar, por conta
própria, as sua obras literárias ou científicas. E ainda hoje permanece
porque determinados escritores insistem, apesar das inconveniências, em
continuarem situados <i>à margem</i> da indústria
editorial convencional, sem nenhum estatuto, sem nenhuma lei, sem qualquer
entrave de natureza burocrática. Seriam espécies de escritores virtuais,
emergentes ou cibernéticos, destes que escrevem (ou escrevinham) na
Internet. Ou seja, de repente descobri que sou, não exatamente um
escritor, mas um escrevinhador marginal. Quanta honra! Mesmo o autor tendo
declarado peremptoriamente que esta gangue se encontra do outro lado da
cerca de arame farpado “pois tudo neste planeta beato conspira” para
que os escritores marginais sejam terminantemente jogados no lixo ou
cooptados pelo establishment cultural, repito: “Quanta honra!” Contudo,
como não sou de atirar palavras ao vento, irei tentar explicar o porquê
desta deferência. Em primeiro lugar porque sempre fui uma pessoa que
tentou ser livre. Que toda vida costumou dizer o que tem vontade
independentemente da vontade das outras pessoas. Um fulano qualquer que
nunca abdicou da sua liberdade
em troca de benesses de quaisquer espécies. Que toda vida possuiu
dignidade e independência para não se submeter aos poderosos, aos donos
das suas verdades e candidatos a donos das verdades alheias. A altivez
para entrar onde quiser e sair de onde quiser sem deixar para trás o
rastro vil da subserviência.
Em suma: uma alimária sem cabresto. Depois,
porque me vejo lutando (ou lutei e jamais consegui) a fim de estar
acompanhado de gente que admiro. Embora o autor faça restrições a
algumas dessas pessoas em virtude de haverem se comportado ambiguamente em
relação à marginalidade, porque teriam se deixado cooptar pelo sistema
- e neste ponto discordo dele, pois nesta jornada acidentada que é a
vida, nunca somos imutáveis –, foram considerados escritores marginais
nada menos do que os seguintes nomes: Rimbaud, Baudelaire, Balzac, Lima
Barreto,
Gregório de Matos, Leminski,
Jean Genet, Samuel Rawets, e Plínio
Marcos entre outros gênios da literatura. Para falar a verdade, confesso
que quando vi esta listagem achei que seria até muita pretensão da minha
parte querer ser (mesmo quando crescer) um escritor marginal. Daria-me por
muito feliz, satisfeito, realizado se fosse considerado pelo menos um
escrivão, um escrevente, um escriturário, um escriba ou até mesmo um
fariseu. Contanto que fosse marginal. 21/08/2004 |