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Raymundo Silveira
Fazia quase um
ano que eu não via o “Ti Melo”; ontem ele foi ao meu consultório cuidar
da ferida braba que deu, lá nele, e como não tem plano de saúde vai, às
vezes, se socorrer do ex-colega, médico. Mas ele nunca pede; espera que
eu adivinhe. Sim o “Ti Melo” foi meu colega da entrega de telegramas do
antigo Departamento de Correios e Telégrafos. Todas as vezes que o vejo
me dá um friúme no corpo e os cabelos ficam todos arrepiados. Não! Não é
de medo que ele venha me pedir dinheiro; ele nunca pede nada. É de
emoção mesmo. O nome dele não é este; chama-se Mário Melo. Timelo foi um
apelido que outro colega pôs nele a fim de insultá-lo brincando. Como é
que se insulta brincando, meu Deus? Podem crer, os meus colegas do
correio se insultavam uns aos outros, brincando. Só que eu nunca
vi o Mário Melo brincando ou insultando alguém.
Desde que voltei para esta Fortaleza – depois de vinte anos clinicando, operando e partejando numa cidade do interior – não via o “Ti Melo”, mas assim que ele entrou pela primeira vez no meu consultório parecia que eu o tinha visto no dia anterior. Levava aquele emprego tão a sério como se fora a chefia de gabinete do Governador; quiçá do Presidente da República. Era diferente dos outros companheiros; diferente no bom sentido. Durante os nove anos em que trabalhamos juntos nunca tive conhecimento de um deslize do “Ti Melo”. Jamais faltou ao trabalho; trajava o seu uniforme cáqui com o orgulho de um general ou brigadeiro; só deixava de entregar um telegrama quando isto era absolutamente impossível; nem cachorro Pit Bull o impedia de cumprir sua obrigação; nunca o vi rindo, raramente, sorria, mas também jamais exibia uma carranca; seu semblante era (e ainda é) sereno. Ele era um exemplo de cidadão no estrito sentido que esta palavra comporta, embora nunca tenha sabido disso. Sua cidadania era espontânea e natural como o ato de respirar. Quando conheci o “Ti Melo”, em 1962, ele deveria ter cerca trinta e cinco anos. Então, se o meu cálculo estiver correto, ele hoje andará se aproximando da casa dos oitenta. Seguramente, tem mais de setenta, mas ninguém lhe dá isso. Mais ou menos no final daquela década, o tal Departamento dos Correios e Telégrafos foi transformado em empresa de economia mista e todos os seus funcionários postos em disponibilidade. Antes, eram regidos pelo regime estatutário do funcionário público. O salário do “Ti Melo” era um pouco superior ao meu e devia girar em torno dos trezentos a quatrocentos dólares de 2004. Além do mais, ele, a mulher e os filhos também gozavam do benefício de uma razoável assistência médica, nos moldes equivalentes aos beneficiários dos planos de saúde atuais. Por isso ele se ufanava da função que exercia, mesmo sendo casado e única fonte de renda da família. Com a tal disponibilidade, o salário do “Ti Melo” ficou praticamente sem reajuste e a inflação o corroeu. Hoje ele recebe uma aposentadoria de trezentos e cinqüenta reais o que equivale a mais ou menos cem dólares; perdeu também o direito à assistência médica gratuita; gratuita, não, porque ele nunca deixou de contribuir para isto. Digamos, simplesmente, que ele e a família perderam o benefício de uma assistência médica condigna. Minha secretária tem ordens expressas para mandá-lo entrar o mais brevemente possível. Nunca esperou, para falar comigo, mais do que meia hora. E conversamos bastante. Raramente ele se queixa da ferida braba que deu lá nele, coitado. Que digo? Coitado, não! Coitado sou eu que me queixo até quando sinto uma ligeira enxaqueca. O “Ti Melo” não se queixa. Nem de ferida braba - como eu havia dito inadequadamente -, nem de falta de dinheiro, nem de nada. Parece sentir pudor de me pedir ajuda profissional. Só depois de conversarmos relembrando o passado – durante muito ou pouco tempo, dependendo da quantidade de cientes lá fora esperando – é que ele baixa um pouco a cabeça e a voz, suspende a perna da calça e pergunta: “Você num tem aí uma pomadinha preu botar em riba desta ferida, não? Ela veve querendo fechar, mas depois torna a rebentar.” Às vezes eu tenho a pomadinha; outras vezes, não. Mas ele nunca saiu do meu consultório sem ela.
“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é
passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.”
(Clarice Lispector: Água Viva) |