Raimundo Silveira

White Lady  

 Quando a conheceu, ela tinha a máscara da inocência, de prometer pequenas leviandades. Mas seu feitiço o subjugou como doença incurável. E logo, faltava lugar para outro sentimento. Ansiava por aquela prostituta. Dona do seu destino. Luz, calor e conforto da sua alma. Divindade suprema da sua adoração. Única razão da sua existência. Pensava nela todos os dias durante as vinte e quatro horas. Ignorava que há muito tempo já havia ultrapassado a fronteira entre a paixão e a obsessão.

 A princípio, fizeram, juntos, viagens fantásticas, inesquecíveis. Ela era uma puta, sim, mas era também atraente, sedutora, quase insubstituível. Aliviava as suas angústias. Proporcionava auto-estima, confiança. Estando ao seu lado, nada temia. Tudo enfrentava com entusiasmo. Sentia-se o mais feliz dos homens.

 Mais tarde, tornou-se servo, subserviente. Tornou-se escravo. Sem ela, deixavam de fazer sentido as pequenas coisas do cotidiano indispensáveis a um mínimo de convivência. Evitava escovar os dentes, fazer a barba, tomar banho. Alimentar-se. Antes, comparecia sempre. Atendia a todos os seus anseios. Estava disposta a satisfazê-lo. Com o passar do tempo, foi se transformando. Passou a fazer pouco caso  daquele mórbido desejo. Tornou-se cada vez mais esquiva. Evitava-o nas horas em que ele mais precisava. Então, foi perdendo, a dignidade. O que lhe interessava era satisfazer a sua paixão. Não exigia reciprocidade. Submetia-se ao desprezo, à humilhação, aos caprichos. Contanto que ela comparecesse para confortar a sua ânsia.

 

 Para ele, a sucessão dos dias e das noites havia parado. Só esquecera em que período. Há muito tempo deixara de sentir sono. Era indiferente aos dias da semana e a datas especiais ou festivas: tanto fazia ser domingo, segunda-feira, Ano Novo, quarta-feira de cinzas, sábado gordo, noite de Natal. A notícia de ter ganhado o prêmio maior da loteria, ou  a cobrança de uma inesperada e vultosa dívida causariam o mesmo efeito: nada. Pouco importava um acidente grave com o irmão, antes tão querido. Da mesma forma, nem ligaria  se o pobre tivesse se livrado milagrosamente do vírus HIV. Estava pouco se lixando se lhe aparecessem com uma intimação judicial para responder a um processo por assassinato.  E daria de ombros ao  ser promovido, coisa  que, há uma década, almejava.

 Do mesmo modo, durante os primeiros encontros,  chamava-a  por telefone e era logo atendido. Uma rotina, como se fosse o café da manhã. Depois, avaliava o grau da amizade de uma pessoa pela generosidade com que a repartia, com ele. A vagabunda. Promíscua. Adorava ser usada por vários ao mesmo tempo. Então ele foi perdendo o respeito próprio, se acostumando àquela degradação. E já não tinha mais consciência do que fosse amor ou qualquer tipo de afeto para com as pessoas.

 Tentou se afastar, mas a  falta dela foi tamanha que não suportou. Tinha atingido o limiar da tolerância. Ou a teria ou sucumbiria. Nem que fosse pelo menos por alguns minutos. Era uma questão de vida ou morte.

 Negociou sem regatear o preço. Pagava qualquer coisa.  A poderosa. Nada valia mais do que o prazer que lhe proporcionava. Embora muito atrasada, ela chegou, pelas mãos de seu agenciador.  Comprou dez gramas. E foi feliz por mais algumas horas.

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"A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana. Sou feliz quando escrevo e penso que posso dar um pouco de felicidade aos leitores".
(Julio Cortázar)

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