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White
Lady Quando
a conheceu, ela tinha a máscara da inocência, de prometer pequenas
leviandades. Mas seu feitiço o subjugou como doença incurável. E logo,
faltava lugar para outro sentimento. Ansiava por aquela prostituta. Dona
do seu destino. Luz, calor e conforto da sua alma. Divindade suprema da
sua adoração. Única razão da sua existência. Pensava nela todos os
dias durante as vinte e quatro horas. Ignorava que há muito tempo já
havia ultrapassado a fronteira entre a paixão e a obsessão. A
princípio, fizeram, juntos, viagens fantásticas, inesquecíveis. Ela era
uma puta, sim, mas era também atraente, sedutora, quase insubstituível.
Aliviava as suas angústias. Proporcionava auto-estima, confiança.
Estando ao seu lado, nada temia. Tudo enfrentava com entusiasmo. Sentia-se
o mais feliz dos homens. Mais
tarde, tornou-se servo, subserviente. Tornou-se escravo. Sem ela, deixavam
de fazer sentido as pequenas coisas do cotidiano indispensáveis a um mínimo
de convivência. Evitava escovar os dentes, fazer a barba, tomar banho.
Alimentar-se. Antes, comparecia sempre. Atendia a todos os seus anseios.
Estava disposta a satisfazê-lo. Com o passar do tempo, foi se
transformando. Passou a fazer pouco caso daquele mórbido
desejo. Tornou-se cada vez mais esquiva. Evitava-o nas horas em que ele
mais precisava. Então, foi perdendo, a dignidade. O que lhe
interessava era satisfazer a sua paixão. Não exigia reciprocidade.
Submetia-se ao desprezo, à humilhação, aos caprichos. Contanto que ela
comparecesse para confortar a sua ânsia. Para
ele, a sucessão dos dias e das noites havia parado. Só esquecera em
que período. Há muito tempo deixara de sentir sono. Era indiferente aos
dias da semana e a datas especiais ou festivas: tanto fazia ser domingo,
segunda-feira, Ano Novo, quarta-feira de cinzas, sábado gordo, noite de
Natal. A notícia de ter ganhado o prêmio maior da loteria, ou a
cobrança de uma inesperada e vultosa dívida causariam o mesmo efeito:
nada. Pouco importava um acidente grave com o irmão, antes tão
querido. Da mesma forma, nem ligaria se o pobre tivesse se
livrado milagrosamente do vírus HIV. Estava pouco se lixando
se lhe aparecessem com uma intimação judicial para responder a
um processo por assassinato. E daria de ombros ao ser
promovido, coisa que, há uma década, almejava. Do
mesmo modo, durante os primeiros encontros, chamava-a por
telefone e era logo atendido. Uma rotina, como se fosse o café da manhã.
Depois, avaliava o grau da amizade de uma pessoa pela generosidade com que
a repartia, com ele. A vagabunda. Promíscua. Adorava ser usada por vários
ao mesmo tempo. Então ele foi perdendo o respeito próprio, se
acostumando àquela degradação. E já não tinha mais consciência
do que fosse amor ou qualquer tipo de afeto para com as pessoas. Tentou
se afastar, mas a falta dela foi tamanha que não suportou. Tinha
atingido o limiar da tolerância. Ou a teria ou sucumbiria. Nem que fosse
pelo menos por alguns minutos. Era uma questão de vida ou morte. Negociou
sem regatear o preço. Pagava qualquer coisa. A poderosa. Nada valia
mais do que o prazer que lhe proporcionava. Embora muito atrasada, ela
chegou, pelas mãos de seu agenciador. Comprou dez gramas. E
foi feliz por mais algumas horas. http://www.raymundosilveira.net/ |