|
|
|
A
Multiculturalidade no Brasil Proibida qualquer reprodução total ou parcial
sem autorização escrita da autora, salvo os canais de divulgação aos
quais colabora continuamente e a publicação a que destina-se a pedido Antes de discorrer sobre a multiculturalidade, é preciso entender o que vem a ser cultura: Os padrões de comportamento, crenças em geral, manifestações artísticas e intelectuais, transmitidas coletivamente, caracterizam a cultura de uma determinada sociedade. A esses fatores aliam-se crenças populares ( chás de ervas, fases da lua para plantio, etc. ), artes folclóricas influenciando na linguagem e literatura (exemplos: literatura de cordel, sotaques, etc. ), no teatro ( com representações públicas diversas, casamentos em festas juninas, etc. ), na música ( cantigas de ninar ou de roda, etc. ), nas plásticas ( artesanatos típicos ), na dança ( típica em cada região do planeta ), crenças religiosas ( catolicismo, budismo, espiritismo, etc. ), nestas crenças também são considerados os mitos e lendas ( saci-pererê, lobisomem, papai Noel, etc. ) e as superstições, benzeções, conceitos e preconceitos. Além disso, a alimentação ( comidas típicas ), técnicas relacionadas aos ofícios ( tapeçarias, cuidados com roça, com gado, etc. ), trajes de cada região, modo de construção de moradias, forma de mobilia-las e até a forma de relacionar-se com a comunidade ( vizinhos, parentes, etc. ). Tudo isso faz parte da cultura de um povo. Considerados estes fatores como folclóricos por diversos autores, na verdade nada mais são do que a culturalidade de uma sociedade. A multiculturalidade surge a partir do momento em que diversas culturas unem-se e mesclam-se mantendo sua originalidade ou, com o passar do tempo, enlaçando-se e transformando-se de tal forma a criar subculturas ou outras culturas, sendo que estas distanciam-se de sua originalidade e ganham um novo e independente conceito dentro de cultura. O Brasil é, sem dúvida, um dos mais, senão o mais multicultural país do planeta, pois suas terras abrigam pessoas de todos os cantos do mundo e, diante de tanta mistura de raças e conceitos, nascem diariamente novos rituais, conceitos, além da própria raça que mescla-se cada dia mais. Sendo assim, é possível encontrar-se pessoas com traços orientais ou negros e olhos claros, pessoas de pele bem clara e cabelos crespos ou mesmo encarapinhados, cabelos estes próprios da raça negra, ou até pessoas com feições indígenas e cabelos louros e/ou olhos claros. Da mesma forma, esta mescla proporciona os mais variados tipos de crenças e rituais. Se por um lado este é um fator facilitador desta pesquisa, dada a variedade de opções, esta mesma variedade torna-se um empecilho, pois parece praticamente impossível registrar todas as culturas de todas as pessoas habitantes do país. Sendo assim, o que poderá ser lido daqui em diante será um pequeno resumo de uma cultura múltipla por si só, sem pretensão alguma quanto a registros históricos ou geográficos. E cuja única função é esclarecer melhor as diversas culturas que povoam o país, numa mescla única e riquíssima. Estima-se que tenham chegado no último século e hoje habitem o Brasil cerca de cinco milhões de imigrantes estrangeiros, principalmente europeus, sendo que a grande maioria entrou no país no último século. A composição é de um milhão e setecentos mil portugueses, seguidos por um milhão e seiscentos mil italianos, setecentos mil espanhóis, duzentos e cinqüenta mil alemães, duzentos e trinta mil japoneses e outros povos em números menores, como franceses, americanos, etc. que não foram computados. Atenção: Estes dados referem-se apenas a quantidade de imigrantes deste último século pesquisado. Não se tem a soma exata do total de imigrantes estrangeiros. Com tanta miscigenação , obviamente o Brasil passa a ter uma grande mistura cultural e para entender um pouco melhor seus resultados, é preciso conhecer e analisar um pouco de suas influências, mostradas a seguir:Franceses: No século XVI, estiveram e estabeleceram-se no Rio de Janeiro e em Pernambuco e, no século seguinte ( XVII ), no Maranhão. Daí, até os dias de hoje, nestas regiões, costuma-se carregar os erres "rr" e a fala "aberta", no que se refere às vogais "e" e "o", própria da influência do idioma francês, Esta influência também pode ser verificada em cantigas infantis até hoje entoadas como "Onde está a margarida" e "Lá na Ponte de Vinhaça". A cozinha francesa também tem uma certa influência, apesar de seu preço geralmente alto a impedir de ser popularizada, como o caso do caviar, do escargot ou fondues. O idioma até os dias de hoje acompanha a língua brasileira com termos como: "sutiã", "abajur", etc. Espanhóis: Embora a administração do Brasil pertencesse aos portugueses, os espanhóis tiveram a tutela do país conquistado durante mais de meio século ( 1580 a 1640 ). Com isso, sua influência foi forte, principalmente ao sul do país, onde até hoje se observa trajes típicos em algumas regiões. Também sua dança típica, o "flamenco", até hoje é estudada e apresentada não só por descendentes, mas por pessoas de várias raças que encantam-se com os movimentos vigorosos e sensuais da dança. Sua cozinha pode ser encontrada em restaurantes típicos e, às vezes, "misturada" a pratos de outras nações (cozinha italiana, portuguesa, etc) em churrascarias e até em restaurantes "por quilo". Árabes: Os costumes chegaram ao Brasil de forma indireta, através da cultura luso-espanhola, herdeira do legado islâmico e diretamente pela influência dos escravos islâmicos trazidos da África para o Brasil. Conta-se que sua influência age até hoje com o uso de cachimbo em rituais de umbanda e candomblé e durante o período colonial com a reclusão da mulher, em lendas como a moura torta, etc. Particularmente, é viável citar a dança do ventre, que apesar da grande controvérsia quanto à sua origem ( versões de que surgiu na Índia, divulgada pelos ciganos ao ocidente, ou nascida no Antigo Egito ou ainda surgida no Império Romano e de lá espalhada pelo mundo árabe ), a verdade é que a "Raqs Sharqui" ( dança do oriente ), nomeada na França como "danse du ventre" e abrasileirada como "dança do ventre", tornou-se mundialmente conhecida através da cultura árabe. E, sem dúvida, merece destaque nesta pesquisa. Ingleses e Holandeses: Durante as invasões no período colonial, houve grande influência destas culturas, sendo que os ingleses transferiram alguns termos como "bond", a princípio designando título de dívida pública para depois referir-se a veículo de tração animal e, posteriormente, elétrica, que até hoje conhecemos como "bonde". Os holandeses trouxeram o futebol, hoje o mais popular dos esportes no Brasil, também influenciaram na literatura de cordel, em elementos de confeitaria e laticínios. Alemães: Por ocasião do casamento de D. Leopoldina e D. Pedro, os alemães vieram e instalaram-se, formando a primeira colônia germânica na região fluminense, hoje cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. A partir de 1824 vieram em grande quantidade, fixando residência no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, As cidades de Blumenau e Gramado conservam grande parte dos costumes trazidos da época. Os costumes mais conhecidos e divulgados são a árvore de natal, bandas de músicas, consumo de cervejas, incluindo festas da cerveja, etc. Sua cozinha não é muito divulgada, além dos famosos churrascos e do chimarrão ( mate cevado sem açúcar ) Italianos: Vieram em substituição à mão de obra escrava, que desaparecia devido às leis de abolição da escravatura. Desembarcaram principalmente em São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul e alguns ao sul de Minas Gerais. É uma das maiores influências na cultura brasileira. Festas de igreja, presépios e ceias fartas de natal, procissões, etc. A cozinha influenciou e continua influenciando a culinária brasileira com massas diversas e pizzas que, abrasileiradas, podem ser encontradas em sabores que variam desde a tradicional mussarela até a brigadeiro ou Romeu e Julieta ( queijo e goiabada ). Os italianos encontram-se em praticamente todas as partes do país. Em São Paulo, povoam os bairros da Mooca, Brás e do Bexiga. Suas manifestações festeiras são várias, sendo as mais conhecidas: "Nossa Senhora de Achiropita" e "São Vito" , festas públicas, geralmente regadas de música e comida típicas e de vinho. Sendo que a festa de Achiropita nasceu da forte religiosidade dos italianos ( calabreses ) que aqui chegavam e da comunidade negra que já estava na região. Hoje, além dos já citados, a festa reúne povos de várias origens, especialmente nordestinos, argentinos, chilenos, chineses e outros povos que habitam o bairro Bixiga, onde ocorre a festança, sempre em agosto, todos os anos. Sírios e Japoneses: Recentemente trouxeram contribuições, sendo que os sírios implantaram o quibe, a sfiha, tabule, iogurte, etc, tendo mais influência na culinária. E os japoneses, influenciaram de forma mais generalizada: nas religiões e seitas como Messiânica, Seicho-no-ie, etc., na agricultura, com técnicas de cultura de flores e frutos, na cozinha com pratos como suchi, sachimi, tempurá, etc. Além de trazerem as artes marciais, amplamente divulgadas e praticadas pelos brasileiros, os orientais de forma geral ensinaram ao brasileiro uma nova forma de cultuar seus Deuses e também seus mortos. Esta comunidade pode ser encontrada em várias partes do país, mas São Paulo ( capital e algumas cidades do interior ) parece concentrar a maioria, tendo inclusive um bairro todo decorado com motivos orientais. O bairro da Liberdade, próximo ao centro da cidade assemelha-se a uma pequena cidade japonesa, com letreiros, iluminação típica e diversos serviços dirigidos por orientais. Norte-americanos: Com vasta influência na música e comportamento, principalmente dos mais jovens, a cultura americana também é notada na alimentação com ênfase em sanduíches como cachorro-quentes e hamburgueres e da bebida coca-cola. Apesar do Brasil produzir um dos melhores refrigerantes que se tem notícia, o guaraná, extraído de uma fruta amazônica e, simplesmente, delicioso, a influência da coca-cola ainda é notada entre a juventude. As roupas de tecido "jeans", também de influência americana é amplamente usado em todas as camadas sociais. Conta-se que, ao firmarem bases americanas, os soldados começaram a fazer festas fechadas ( somente para os componentes do pelotão ). Mas estas festas tornaram-se muito monótonas. E tiveram idéia de fazer uma festa "for all", ou seja, para todos. As festas ficaram cada vez mais animadas e a mistura com a cultura brasileira foi adaptando os passos de dança até que surgiu o que hoje conhecemos por "forró". O jeito brasileiro de dizer "for all". Hoje, muitos pensam ser uma dança de raízes brasileiras, quando, na verdade, é uma mistura de todos para todos, ou "from all, for all". Portugueses: Sendo os primeiros a povoar o país, realmente tiveram grande influência em todos os costumes da época. Mas hoje em dia, pouco se conservou de sua cultura em todo o país. Na região sul, enquanto os italianos ocupavam os morros, cultivando uvas para vinho e os alemães também preferiam os morros para plantio de soja, trigo, arroz e fumo, os portugueses preferiram fixar residência nos campos, dedicando-se à pecuária. Desta forma, o sul do país ganhou aos poucos fama por seus churrascos e vinho. E, de certa forma, esta é uma das poucas características dos portugueses que ainda é cultivada, a pecuária que gera das melhores carnes que podem ser apreciadas em churrascarias típicas espalhadas por todo o país. Algumas churrascarias, para manter a tradição só contratam pessoas vindas do sul e recebem os clientes vestidos com trajes típicos, próprios da indumentária gaúcha. Isso, aliás, é bem folclórico, visto que, em visita aos estados do sul, dificilmente encontra-se alguém vestido com os referidos trajes. Estes são, na verdade, um folclore dentro do folclore e apenas servem para atrair o público. As festas populares geralmente acontecem em lugares isolados e não são comuns a todo o país. Uma das festas é a do "Divino Espírito Santo", que ocorre especialmente em Porto Alegre e em partes dos estados de Santa Catarina e São Paulo. De origem portuguesa, especialmente açoriana, os festejos em honra do Divino Paráclito conservaram-se por muito tempo no Rio de janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais até final do século passado. Segundo Saul Martins e Domingos Diniz, a "Folia do Divino", foi instituída pela Rainha D. Isabel, esposa de Dom Dinis, quando da construção da Igreja do Espírito Santo em Alencar ( Portugal ), propagando-se por várias cidades; como também colônias, chegando ao Brasil no século XVI, com o nome de "Império do Divino". O objetivo dessa folia era a arrecadação de esmolas para a organização de festas do Espírito Santo e constituía-se de um grupo de homens que saíam de casa em casa, levando a bandeira do Divino, acompanhada de instrumentos, cantos e danças, recolhendo as esmolas. Uma vez no Brasil, a folia foi-se mesclando e modificando e atualmente são registradas manifestações em algumas regiões de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, entre as quais destacam-se: "Folia do Divino São Bartolomeu" e "Folia do Divino de Diamantina". Acredita-se que a "Folia do Divino de São Bartolomeu", exista há dois séculos, mas não se tem certeza de como começou. Provavelmente mais uma das variações de sua origem em Portugal, já que os objetivos e manifestações são idênticos, com exceção da dança abolida. Nesta manifestação, os foliões somente cantam e tocam instrumentos para pedir e agradecer as esmolas. Em outras manifestações espalhadas pelo país, é possível assistir a um verdadeiro espetáculo teatral musicado, onde se canta, dança e teatraliza em busca de esmolas. Desta forma, fica difícil saber qual a região ainda mantém a tradição e qual se distanciou em muito do original do Divino Espírito Santo. Um abraço e até a próxima oportunidade: |