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Magia do palco ou apenas necessidade de criar ídolos? Esta matéria encontra-se publicada em diversos sites e revistas no Brasil e na Europa. Proibida qualquer reprodução total ou parcial sem autorização escrita da autora. O ator de tv ou cinema entra em cena e, sem que nada diga, é calorosamente aplaudido. Se sorrir ou acenar ou ainda jogar beijos, pode levar a platéia `a loucura com gritos de "lindo", "gostoso", etc. O cantor que, às vezes nem canta tão bem, começa a dançar e as garotas já se excitam. Se ele fizer passos sensuais e/ou rebolar um pouco, lá estão elas gritando histéricas. Se ele aproximar-se e tocar algumas delas, são capazes de cair em prantos. E, em meio a esta parafernália, quem vai perceber se o cara canta bem ou apenas "engana" como cantor ? Pessoas até comuns que aparecem um pouco na tv e, em seguida, despem-se para fotos em revistas especializadas, bastam para que as edições esgotem-se rapidamente. E o que dizer dos fãs que emocionam-se e chegam aos prantos em aeroportos a espera de seus "ídolos" ? Deixam, às vezes, de comprar algo que realmente necessitam para adquirir o recente lançamento ou o ingresso para um show, ocasião em que serão espremidos, destratados, acotovelados, inclusive correndo risco de vida em meio a uma multidão em transe. Mesmo assim, os fãs continuam espalhando aos quatro cantos que "amam" artistas com os quais não têm nenhuma intimidade, muito menos motivos para amar. E, se forem "abençoados" por algum concurso que lhes proporcione um dia ou ao menos um encontro com seus ídolos, desesperam-se, choram, chegam até a desmaiar... Mas, de onde vem tudo isso, esses sentimentos desenfreados? Já que, diariamente, avistamos pessoas belíssimas trabalhando em lojas, bancos, etc. e o máximo que acontece, é olharmos com admiração. Da mesma forma, quase sempre, conhecemos pessoas que cantam muito bem em bares, boates ou mesmo em casa sem nenhuma pretensão artística. Ou ainda, em discotecas, danceterias, sempre há pessoas que "tomam conta das pistas", realmente dão um verdadeiro show, e passam despercebidas ou, no máximo, despertam alguns olhares admirados. Se estas pessoas "comuns" estão fazendo a mesma coisa que os ídolos famosos fazem , talvez até melhor, porque não as aplaudimos, gritamos, choramos, nem pedimos seus autógrafos? Primeiro porque o palco já é projetado de tal forma que impõe distância. Seja qual for seu formato ( Italiano, Grego, etc. ), sempre é colocado com certa distância, num plano geralmente mais alto (ou ao menos destacado) que as cadeiras da platéia. Aí vêm os sons e luzes que emitem mensagens e, de certa forma, despertam fantasias. Em shows de dança/música, ainda há neblinas, explosões e toda a parafernália que acaba transformando o cantor/dançarino num verdadeiro espetáculo por si só. O cinema também, com sua tela gigante colocada à distância, transforma os atores em seres totalmente intocáveis. Tanto que, quando a tela se apaga e as luzes acendem-se, muitos frustram-se ao terem de volta a realidade de forma tão rápida. No teatro esta frustração geralmente é substituída por excessivos aplausos, de forma prolongada, o que obriga os atores a voltar à cena. É uma forma inconsciente de prolongar o momento, forçando os atores a continuarem visíveis, ao menos para agradecer os insistentes aplausos. Em alguns momentos, as palmas são dirigidas à presença dos atores, não ao texto ou produção, que por vezes , deixam a desejar. A tv, então, dispensa comentários, com sua fábrica de novelas e comerciais martelando o cérebro do público. E o bombardeio é tão poderoso que acaba fixando a idéia de que tudo o que aparece na telinha é perfeito, amável, desejável, soberano e deve ser imediatamente consumido. Mas, além disso, existe outro fator: a necessidade inconsciente que o ser humano tem de criar e sustentar ídolos. Até mesmo para melhor viver ou, ao menos, sobreviver. Quando criança, a necessidade de liberdade e autonomia, faz com que sonhemos com o dia em que estaremos livres das imposições de nossos pais e sociedade e transferimos nossos desejos a algum super herói do momento, ou talvez, numa transferência mais masoquista, à alguma mártir destes sofríveis contos de fadas que atravessam os tempos. No inicio da adolescência, ainda sonhando com a liberdade, mas também brigando com o corpo/mente em transformação, sonhamos com ídolos de carne e osso, mas que, protegidos pelo escudo da fama, nos sejam intocáveis e, portanto, não nos causem mal. Já que, nesta fase, estamos frágeis e qualquer mágoa pode nos desestruturar. Desta forma, podemos amar de forma plena, com uma entrega total sem corrermos o risco do abandono. Afinal, em nossa imaginação, nosso ídolo age e reage da forma como estipulamos e jamais nos trairá ou abandonará, já que nós estamos no comando da relação. Na passagem da adolescência para a juventude, o normal é que comecemos a construir uma relação mais verdadeira, então começamos a flertar, "ficar", namorar e, ai vêm as primeiras decepções. A namorada não tem o corpo tão perfeito como o da top model do momento, o namorado tem mau hálito, o marido ronca, a mulher tem TPM, o dinheiro está sempre curto, os bebês acordam a noite, querem colo e leite toda hora, até o cachorro pode de repente aparecer estressado. Em meio a tudo isso, resta voltar ao sonho, onde o romance corre de forma perfeita e prazerosa. Então, seguimos nossas vidas consumindo revistas de fofocas televisivas ou fotos sensuais, vivendo as cenas das novelas como se fizessem parte de nossas vidas, acotovelando-nos em shows, espetáculos de teatro/dança, etc... E a vida real? Esta pode esperar ou até acontecer em paralelo, desde que não atrapalhe a nossa novela ou filme... Cientes disso e, com uma enorme necessidade de exibição, artistas de várias áreas mostram-se e deixam clara sua intenção de sedução, como aquele cantor que declarou que rebola mesmo é para ver as fãs gritando histéricas por causa dele... ou da "famosa" que refere-se aos fãs como "seu povo", tratando-os como súditos. Insensibilidade aliada ao desejo de posse, sucesso, ascensão profissional e material levam a maioria dos artistas a usar este seu domínio para seduzir seu público para, quase sempre em seguida, reclamar do assédio, da falta de liberdade/privacidade... À grande realidade é que tanto público quanto artistas seguem inconscientes deste jogo estabelecido em função da fama. A relação intocável estabelecida entre os dois parece ultrapassar o tempo, mudam os ídolos e o público, mas a relação continua na mesma. Provavelmente nunca mude. O que pode ser feito diante disso? Como sempre, encontrar o meio termo para ambas as partes. O artista tendo consciência de que seu sucesso depende além de suas habilidades, de um conjunto de fatores como propaganda, ambiente propício, empatia com seu público, trabalho em grupo, entre outros. E, acima de tudo, o artista deve ter consciência de que é um ser humano como qualquer outro, também adoece, tem sentimentos, virtudes, defeitos e, às vezes, um tremendo mau hálito e, por isso, deve colocar-se como alguém que, apesar de artista, é humano e, se outros humanos o estão admirando, trata-los como iguais não como seres inferiores ou manipuláveis. Até porque, os fãs são o único motivo pelo qual o famoso é "famoso". Se ninguém o enxergasse, ele seria um a mais na multidão. O público também precisa aprender a controlar suas frustrações, aprender a admirar um artista sem jogar-se cegamente em seus braços, até porque, na maioria das vezes, esta atitude termina frustrando, pois são os braços de algum segurança que agarram o fã e o empurram para bem longe da "alteza" que desfila diante dos súditos. A vida real pode ser maravilhosa e dispensar qualquer devaneio, basta aceitar que todos nós temos defeitos, mas também temos virtudes. Se aprendermos a conviver com nossas limitações e respeitarmos a de nossos parceiros, filhos, cachorros, etc. certamente descobriremos uma vida muito excitante que dispensará o devaneio, aquela correria para assistir a "nossa novela" , aquela economia boba para ir ao show de alguém que provavelmente já ganhou tanto dinheiro às custas dos fãs, que sequer os enxerga. Então poderemos entender que aquele grupo de teatro que se apresenta no nosso bairro pode ter uma peça e produção com uma grande mensagem e, certamente, mais carinho por seu público. Aquele amigo que canta em boate e cansa de convidar-nos a assisti-lo, talvez nada fique a dever aos grandes nomes e, pode ser que seja ele a chorar de emoção ao perceber que seus amigos resolveram finalmente prestigia-lo em seu trabalho. A grande verdade é que a Arte pode fluir em qualquer lugar onde haja um verdadeiro artista, enquanto que um estúdio é só uma fábrica de sonhos, um palco é só um grande tablado cheio de tapadeiras e uma tela de cinema é só um painel onde projetam-se filmes. Quando todos entenderem isso, certamente os "reinados" terminarão, o público comprará só o que realmente necessitar, não o que lhe impuseram adquirir para aproximar-se de seu ídolo. Os ídolos, por sua vez, terão consciência de que são profissionais e, como em qualquer outra profissão, estão sujeitos a sucessos e fracassos. E, finalmente, todos viverão felizes para sempre, só que desta vez, para sempre mesmo, na vida real... Para obter informações sobre Arte, diversas técnicas de Terapias, distúrbios diversos, e outros assuntos interessantes visite o site http://planeta.terra.com.br/educacao/portaldofuturo: |