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Roque Aparecido da Silva é entrevistado por Risomar Fasanaro O envio de tropas brasileiras ao Haiti vem provocando controvérsias. Muitas pessoas são contrárias à decisão do governo brasileiro. Nosso entrevistado, no entanto, é favorável à ida de uma força de paz àquele país e, nesta entrevista, justifica por quê. Roque Aparecido da Silva é sociólogo, com mestrado em Sociologia do Desenvolvimento pela Sorbonne, França. Foi um dos mais importantes líderes operários e estudantis nos conturbados anos sessenta, contra a ditadura. Participou da histórica greve dos Metalúrgicos de Osasco ocorrida em 1968, junto com José Campos Barreto, de quem era amigo-irmão e que morreu ao lado do capitão Lamarca.Foi preso em fevereiro de 1969 e, junto com outros militantes políticos, trocado pelo embaixador suiço, indo residir no Chile como exilado político. Durante o exílio de nove anos residiu em vários países: Chile, Suécia e França. Com a lei da Anistia, regressou ao Brasil em 1979 e, aqui, desenvolve um trabalho político dos mais sérios no PT, Partido dos Trabalhadores. Atualmente é Assessor da Secretaria de Relações Internacionais do Diretório Nacional do PT- Partido dos Trabalhadores.
1. Roque, muitas pessoas se colocam contrárias à ida de uma força de paz ao Haiti. O que o leva a discordar dessas pessoas e a apoiar a decisão do governo brasileiro? R-. Antes de tudo, para entendermos a importância e o papel da força de paz enviada ao Haiti, é necessário se compreender alguns aspectos fundamentais da realidade vivida pela população desse país nos últimos tempos, principalmente nos últimos anos e meses. O Haiti comemora neste ano de 2004 seus 200 anos de independência, tendo sido o primeiro país da América Latina a libertar os escravos. Nesses 200 anos o país passou por 32 golpes de Estado ou rebeliões populares, sendo que o momento atual é um dos mais complexos de toda a sua história. O ex-Presidente Jean Bertrand Aristide se destacou no cenário político do Haiti nos anos 80, período final da ditadura da família Douvalier - Os Papa Doc - que foi instaurada em 1957 e só teve fim em 1986. Nessa época Aristide era um padre salesiano que denunciava constantemente as arbitrariedades da ditadura e a miséria do povo, defendendo as liberdades democráticas. Em 1988, junto com outros militantes da causa democrática, entre eles Gérard Pierre-Charles - que posteriormente fundou a Organisation du Peuple en Lutte (OPL) - Aristide fundou o Movimento Lavalas, que o levou à Presidência da República em 1990. Este, entretanto, foi um governo que durou poucos meses. Em menos de um ano setores do Exército ligados à antiga ditadura dos Papa Doc, liderados pelo General Raoul Cedras, depuseram o Presidente Aristide. Em 1994, frente aos horrores cometidos pela ditadura militar, principalmente contra os movimentos sociais, houve uma intervenção militar internacional - 20.000 soldados americanos permaneceram no país por 2 anos - possibilitando a volta Jean Bertrand Aristide à Presidência do País. Diferentemente da primeira vez, este seu "segundo" governo assumiu uma postura extremamente autoritária. Foi na resistência a esse autoritarismo que surgiram novas organizações políticas progressistas, como a Organisation du Peuple en Lutte (OPL) e o Grupo dos 184, formado por empresários, sindicatos, estudantes, organizações religiosas, etc. Para enfrentar a oposição crescente, Aristide intensificou a repressão, contando com uma força policial quase pessoal - o chamado Exército Canibal - que perseguia os opositores ao governo, incendiando os escritórios dos partidos da oposição e invadindo as casas dos seus dirigentes. Nas eleições de 1996, como a Constituição não prevê reeleição, Aristide deixou a Presidência para seu braço direito, Sr. René Preval, retornando ao poder em 2001, graças às fraudes nas eleições legislativas de 2000, em que até um "apagão" foi provocado durante o processo de apuração dos votos, o que permitiu que Aristide tivesse ampla maioria no Congresso Nacional. Para se opor a essa realidade os grupos de oposição formaram a Plataforma Democrática, que frente ao fracasso das tentativas de negociação, decidiu boicotar as eleições presidenciais de novembro de 2000, nas quais Aristide foi eleito. A instabilidade política, entretanto, continuaria. Em dezembro de 2001 houve uma tentativa fracassada de golpe, liderada por Guy Philippe, então chefe da polícia e hoje chefe do maior grupo armado no país, formado por setores dissidentes do antigo Exército Canibal e das forças de repressão dos Papa Doc. Frente à disseminação de grupos armados, nostálgicos da Ditadura dos Papa Docs e dissidentes da própria polícia pessoal de Aristide, e ao crescimento dos movimentos populares, o caos vai tomando conta do país, aumentando os massacres de população civil. No dia 5 de dezembro de 2003 a Universidade do Estado do Haiti foi invadida e saqueada, seu Reitor teve as pernas quebradas com golpes de barra de ferro, dezenas de estudantes foram feridos a bala, a Biblioteca e os Arquivos da Universidade foram incendiados e destruídos. A Coordenação Nacional de Defesa dos Direitos das Mulheres (CONAP) denuncia inclusive inúmeros casos de violação contra mulheres, perpetradas pelas milícias do Governo, até mesmo em hospitais. Em fins de fevereiro de 2004, frente, por um lado à intensificação da ação das várias milícias armadas que teriam provocado a morte de várias centenas de pessoas e, por outro, à generalização das manifestações populares exigindo sua renúncia, Aristide terminou abandonando a Presidência, que foi assumida pelo Juiz Boniface Alexandre, quem solicitou à ONU o envio de uma Missão de Paz para ajudá-lo a estabelecer a ordem democrática. Imediatamente reúne-se o Conselho de Segurança da ONU, sob a presidência da República Popular da China, que decide por unanimidade enviar uma "Missão Internacional de Estabilização" ao Haiti. A resolução estabelece claramente que o papel dessa Missão Internacional é contribuir para a manutenção da paz e colaborar para a criação das condições para a realização de eleições livres e democráticas para eleger novas autoridades para o país. Em situação de emergência França, Canadá e EUA enviaram soldados, que estão sendo substituídos neste momento. As Nações Unidas solicitaram aos países da América Latina que compusessem a Missão Internacional, sob o comando do Brasil. É nessas condições que o Brasil decidiu enviar soldados brasileiros ao Haiti. 2. Você não acha que a ida das tropas brasileiras é uma interferência naquele país? R-Veja, a palavra INTERFERÊNCIA pode ter diferentes sentidos. Não tenho dúvidas que o envio da Missão Internacional representa uma interferência tanto na realidade atual como nos rumos futuros do país. É necessário ter claro, entretanto, que a Missão da ONU, dirigida pelo Brasil, só está no Haiti porque os haitianos solicitaram, contando com o apoio de todos os setores democráticos e de esquerda do país. Ainda agora no dia 11 de junho, as principais lideranças sociais do país, em um texto dirigido ao Comitê do Prêmio Nobel da Paz da Noruega indicando o nome do Companheiro Gérard Pierre-Charles, se referem à Missão da ONU como fundamental para acabar com o genocídio reinante no país e garantir a paz e a segurança da população. Frente à situação de genocídio e caos provocado pelos grupos armados, com o Estado praticamente destruído, não havia outra alternativa. Quando o Brasil aceita o convite da ONU para liderar a Missão Internacional, vemos a satisfação da própria esquerda haitiana, ao confiar que sob o Governo Lula os brasileiros irão contribuir efetivamente para o estabelecimento de uma democracia e uma paz duradoura. Nesse sentido, trata-se de uma interferência positiva, desejada pelos haitianos e que deverá trazer frutos positivos não só para a situação presente como para o futuro do país. 3. A posição do Brasil, no caso do Haiti não se assemelha a dos EUA no Iraque? R-Antes de tudo, quero deixar claro que o PT e o Governo Lula foram totalmente contra a invasão do Iraque pelos EUA. Claro, eu também fui e sou. Não tem nenhuma semelhança o caso do Haiti com o Iraque. Como disse, no Haiti houve uma solicitação por parte do país, em que as próprias forças democráticas, mesmo considerando ser uma situação vexatória, vêem como a melhor solução. 4. O que você acha que os brasileiros podem fazer pelos haitianos? R-Estamos contribuindo em diferentes aspectos: pondo fim ao genocídio e garantindo a paz e a vida das pessoas; apoiando as forças políticas e sociais e ajudando em sua reorganização, com vistas à realização de eleições democráticas para constituição de um poder político legítimo no país. Nesse sentido, o Companheiro Paulo Ferreira, Secretário Nacional de Assuntos Institucionais do PT esteve participando de um seminário em Porto Príncipe, no dia 24 de junho, promovido pelo Instituto Superior de Formação Política e Social (ISPOS), sobre o tema: “Os partidos políticos no Haiti: experiências, desafios e perspectivas”. O convite para este Seminário foi feito pelo Companheiro Gerard Peérre-Charles, Coordenador Geral do partido Organisation du Peuple en Lutte (OPL), integrante da Convergência Democrática, que é formada por partidos de esquerda e organizações da sociedade civil, que lutaram contra o autoritarismo do Presidente Aristide. Além disso, por suas lutas, Gerard é indicado por toda a sociedade civil do Haiti para o Prêmio Nobel da Paz. O Companheiro Paulo Ferreira abriu a Seminário falando sobre A formação e a construção de partidos políticos: a experiência do Brasil. 5. O dinheiro gasto nessa missão não seria melhor aplicado aqui no Brasil com Educação, Saúde e projetos sociais? R-A questão da melhor aplicação de um dinheiro depende do ponto de vista e das perspectivas de cada um. É claro que as carências sociais que temos no Brasil são grandes. Entretanto, creio que não podemos deixar de nos preocupar com a situação de genocídio em que vivia o povo haitiano, que era uma situação muitíssimo mais grave que a que vive qualquer comunidade de brasileiros. Não creio que qualquer pessoa que conhecesse a situação vivida pelo povo haitiano e tenha um mínimo de sentimento humano possa se colocar contra a ajuda que o Governo Brasileiro está prestando. Inclusive devemos ter claro que no mundo atual não existem soluções exclusivamente nacionais para os problemas de um país, seja ele qual for. A visão ampla, humanitária e solidária com que o Governo Brasileiro está agindo no Haiti seguramente despertará a compreensão e solidariedade de outros povos para com o Brasil, o que ajudará a resolver também os nossos graves problemas sociais. Entendo que são poucas as pessoas no Brasil que têm um conhecimento claro da realidade haitiana e também é uma minoria da população que tem uma compreensão do atual mundo globalizado e a interdependência existente entre os países. Quem não tem essas compreensões pode crer que o Brasil poderia se isolar e não participar da solução de problemas globais. Entretanto quem, como eu, acredita que as soluções dos problemas sociais que temos no Brasil exigirão a solução de alguns problemas globais, como são as reformas na ONU e nos organismos financeiros internacionais, considera fundamental uma participação mais ampla do Brasil nos problemas mundiais. Com essa ajuda ao povo haitiano o Brasil estará adquirindo muito mais legitimidade para interferir nos outros problemas globais, que poderá trazer benefícios econômicos muito maiores que os gastos que teremos no Haiti. 6. O governo brasileiro elaborou um projeto que atenda às carências daquele povo de forma abrangente, ou seja: atenda às áreas de saúde, educação, moradia, ou se restringe apenas a manter a segurança e a combater os focos de guerrilha? Em caso afirmativo, você poderia explicar de que maneira isso se concretizará? R-Primeiro, o Governo Brasileiro tem claro que a sua ação no Haiti a construir as bases para constituir um governo democrático e legítimo, sem interferir em sua autonomia enquanto nação. Nesse sentido jamais se poderia pensar em levar daqui de fora um projeto para resolver os problemas do Haiti. Nem mesmo temos condições de saber exatamente qual é a gravidade de cada problema e quais são as principais prioridades do país. Como diz o Companheiro Paulo Ferreira, que esteve lá, o país vive uma situação muito grave de desagregação social, sendo necessário reconstruir seu Estado. Segundo Paulo Ferreira, 80% dos domicílios do país não tem energia elétrica nem água encanada. Enfim, em todos os setores os problemas são muito mais graves do que o que qualquer de nós aqui poderia imaginar. Tampouco o Governo Brasileiro dispõe de recursos para financiar os projetos sociais urgentes do Haiti. Entendo então que o nosso papel no Haiti não é levar projetos para resolver os problemas, mas apoiar os atores sociais e políticos na elaboração de tais projetos e na busca de financiamento internacional para sua implementação. Nesse processo, por mais diferente que seja a nossa realidade, podemos contribuir também com a apresentação de nossas experiências, como fez o Companheiro Paulo Ferreira no seminário em que participou lá. 7.Você gostaria de acrescentar alguma informação sobre esse assunto que eu não perguntei? R- Gostaria de agradecer
a oportunidade de poder expressar meus conhecimentos e minhas visões
sobre a realidade do Haiti, que inclusive por força do meu trabalho, sou
obrigado a estar acompanhando. Espero ter contribuído para esclarecer
algumas dúvidas de alguns leitores e coloco-me a disposição para, na
medida do possível, esclarecer as dúvidas que ainda restarem. Meu e,mail
é roquedasilva@uol.com.br. Muito
obrigada pela entrevista. |