Scyla Bertoja

A Profanação do Templo

 Era quase verão. Eu me encontrava no bairro Alto Teresópolis, providenciando  inscrição num curso do Uniritter. Fiz isso rapidamente e já me preparava para deixar as instalações das faculdades, quando meus olhos foram chamados a apreciar a maravilhosa tarde de sol. O brilho do rio, para quem o observasse de um patamar  mais alto – o bairro fica sobre uma extensa elevação – oferecia a visão do maior espelho que eu jamais vira. Azul de aço. Dois barcos com velas brancas como lenços, acenavam para o privilegiado  espectador. Previ o óbvio. Mais tarde aconteceria um belíssimo pôr de sol.  Não havia tempo a perder. Pelo celular, chamei  meu único amigo disponível naquele horário em dia de semana, para dividir comigo a dádiva do Criador. Ele veio depressa e dali partimos em direção a Ipanema – bairro e praia do  Guaíba. A vista que se descortinava pelo caminho, a liberdade incomum de podermos desfrutar dos horários em que outros trabalhavam, nossa sede de beleza, conspiravam positivamente. Já na avenida que margeia o rio, tomamos o cuidado de diminuir ao máximo a velocidade para podermos absorver visualmente  as cores da imensa massa de água sob o grande sol em chamas descendo célere para o iminente mergulho. Era um espetáculo dos mais belos. Chegando à praia, paramos, deixamos o carro, e seguimos a pé pela calçada. Muita gente já lá estava com a mesma finalidade. Moradores do bairro, suas crianças e seus cães. Decidimos entrar em algum bar para maior conforto. E foi aí que o segundo e milagre aconteceu. Era um local diferente de todos os que conhecíamos. Quando colocamos nossos pés na escada de pedras que dá acesso ao jardim, não menos que os acordes iniciais e majestosos de Carmina Burana nos receberam. Olhamos um para o outro sem acreditar, mas já com uma espécie de rendição à magia que nos circundava naquele lugar. Estávamos adentrando o território sagrado dos POBRES CAVALEIROS DE CRISTO. Logo na entrada, após subirmos a escada de pedras, vimos, entre as grandes árvores, a figura imponente de um Cavaleiro Templário, com sua cruz de malta, vermelha, sobre o peito da armadura, negra como toda a sua indumentária de guerreiro cristão.  Espada como extensão do braço, sugerindo a sagração de mais  um membro. Da capa a fralda esvoaçava discretamente à brisa do entardecer. Escultura em tamanho natural. Lembrou-me uma cena de Ivanhoé. Mas é melhor não divagar. A Ordem dos Templários foi fundada por Hugh de Payens e mais oito cavaleiros cristãos, no ano 1.118, com o objetivo de proteger os peregrinos que iam até a Terra Santa. Era uma causa monástica e militar, com voto de pobreza e castidade. Por isso a autodenominação POBRES CAVALEIROS DE CRISTO. E porque se alojavam no local exato onde fora antigamente o Templo do Rei Salomão – Mesquita de Al-Aqsa, adotaram também o nome de TEMPLÁRIOS. Tinham a missão de livrar a Terra Santa das mãos dos infiéis (Muçulmanos e Judeus), regenerar pecadores e  reconduzí-los à vida cristã. Na verdade, precisavam desses homens que recrutavam pelos caminhos, porque a Ordem tinha, no início, poucos seguidores, e as forças contra as quais precisavam se bater eram numerosas em soldados, e de grande eficiência nos combates.

Mas não encontramos apenas os Cavaleiros Templários no recinto do bar, que utiliza esse nome, TEMPLÁRIO. A decoração é rica em elementos esotéricos, misturados à leveza colorida das lanternas marroquinas que pendem sobre as mesas na parte interna do primeiro salão. O teto é revestido por uma espécie de grandes tapetes quadrados, com estamparia de padrão árabe, presos somente pelas quatro pontas. O pavimento é todo recoberto, obedecendo ao mesmo estilo. Há um recanto com almofadas de seda, grandes e coloridas. Durante o verão, na primeira sala, mais arejada. No inverno, ao lado da lareira,  servindo  aos que ali acomodam-se para fumar o narghilé, ( hookah, shisha, water pipe, hubble, bolha). Uma tradição de Turquia e Marrocos, que, na verdade, é utilizada diariamente por mais de 100 milhões de homens e mulheres na Ásia, Europa e África, em casa ou em bares. “”The sacred narghile” é um aparelho para fumar, considerado um costume mediterrâneo. No jardim, velas sobre as mesas  conferem uma atmosfera de cerimônia religiosa, ao mesmo tempo mundano-romântica para os que estão nesse clima. Deslumbrados com a decoração exótica e sincrética do local, embalados pela música que passeia pelo árabe, flamenco, latino-americano, jazz, fomos assistindo ao grande espetáculo do sol mergulhando nas águas do Guaíba, deixando como resultado as aquarelas sobre o espelho. Muito rapidamente as luzinhas no horizonte foram se acendendo, uma a uma, até formar o colar de brilhantes que delineia o contorno da  grande baía. E as silhuetas dos caminhantes, dos ciclistas, dos maratonistas da orla  foram sendo tingidas de negro, contra um fundo pincelado à esmo em rosa, azul, lilás, e novamente azul, até ao escurecer. E ali nos deixamos ficar, sem palavras, sem pensamentos, vazios de tudo o que não fosse a Obra da Natureza. O perfume inebriante do melhor incenso exalava do interior do local, trazendo-nos o êxtase sublime que induzia por momentos à constatação de que não mais éramos humanos a carregar estes corpos que impedem a percepção da verdadeira essência. Faltava apenas levitar. Mas isso já era querer demais. Em determinado momento, quando soprou o vento do lado do rio, já mergulhado em escuridão total, fomos nos abrigar em uma sala interna, e acabamos descobrindo mais uma faceta desse local  incomparável. O proprietário mantém uma permanente exposição fotográfica que retrata suas  viagens a Santiago de Compostela. Ele fez O Caminho por três vezes. É um peregrino. E as fotos são lindas. Além disso, há os vídeos, que são muito completos, mostrando aos interessados  todas as nuances das zonas visitadas – cidades e campos – e que podem servir de orientação a todos quantos desejam um dia fazer essa peregrinação.

Para o jantar, um cardápio de variados tipos de panquecas, salgadas e doces. Pastéis

deliciosos, feitos na hora. E, claro, o chope gelado, a cerveja, os refrigerantes, porque ninguém é de ferro.

O TEMPLÁRIO é tudo isso, e muito mais. Lugar que me cativou, que nunca mais deixei de freqüentar e que recomendo a qualquer pessoa que queira ter uma experiência diferenciada em termos de ambiente mágico, no pedaço mais bonito de Porto Alegre, a orla do Guaíba. Ali, com um grupo de amigas, arremato, com um fecho de encantamento, todos os meus domingos. E às vezes apareço durante a semana também, com ou sem pôr de sol. Afinal, nem sempre se consegue tudo.

 (Tel. 32466653, aberto à tarde e à noite, menos segundas-feiras- c/estacionamento)

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