
Ensaios
Vânia Moreira Diniz
Solidariedade – Lição
de Vida
Acho
que o mundo carece de solidariedade. Estamos individualistas a um ponto tão
extremo que não vemos nem que o outro está sofrendo quanto mais se devemos
ajudá-lo.Muitas e muitas vezes falamos teoricamente da solidariedade, do amor e
confraternizamos muitas datas tradicionais. E vemos pessoas precisando da nossa
ajuda sem que isso implique num gesto que poderia por vezes salvar até uma
vida.
Esse
tema me faz lembrar uma jovem que conheci na minha adolescência. Sua carga era
demasiado pesada, mas a via sempre com um sorriso nos lábios.
Conhecia-a
através de uma amiga comum e sua simpatia me conquistou. Era muito bonita e os
olhos negros cujos cílios espessos e longos chamavam a atenção e davam um
toque original à sua fisionomia, estavam sempre brilhantes e alegres.
Mariana
me fez lembrar com o sorriso bonito que todos apreciavam um raio de sol a
brilhar e aquecer qualquer ambiente que entrava. Aprendi muito de desprendimento
e certeza de felicidade no contacto ameno que mantinha com a moça. Era mais
velha que eu cinco anos mas passávamos
horas conversando e vi o quanto a amizade
de alguém é capaz de fazer. Contou-me uma história triste com simplicidade
incomum, jamais dando a impressão de estar mortificada ou infeliz. Isso não
quer dizer que não sofrera. Sua passagem pela vida não estava sendo muito
suave. Nada suave.
Perdera
os pais há 18 meses atrás num desastre de carro e na ocasião pensara que ia
enlouquecer. Sua vida confortável, seus hábitos tranqüilos e a certeza de uma
segurança fruto de uma situação
financeira estável faziam com que
ela jamais tivesse pensado em dificuldades.
Mas quando os pais se foram a garota ficara sozinha excetuando a presença de
uma velha tia e as reservas dos pais não eram grandes. Levavam uma vida
faustosa e gastavam quase tudo o que recebiam. Aparentemente parecia que se
tratava de uma família tradicionalmente rica, mas a verdade é que o conforto
era produto do trabalho exitoso dos pais. Ficara-lhe a casa em que moravam que
era realmente confortável.
Mariana
ficou completamente sozinha e enquanto regularizava sua vida, sua tia foi morar
com ela. A diferença do ambiente animado e prazeroso em que vivia contrastava
com a vida que lhe seria imposta agora. Antes disso ela ficara muito mal e
tivera que ser hospitalizada porque emagrecera demais e não conseguia comer
nada. Os amigos lhe deram apoio, mas não na proporção que poderia tirá-la do
enorme fosso em que se escondera. Perdera a noção de tudo que a cercava e
muitas vezes numa espécie de
defesa contra o sofrimento esquecia que seus pais tinham morrido e acordava sem
saber porque aquela velha senhora, amarga e
sempre mal humorada estava em sua casa.
Deixara
de freqüentar o colégio e todos pareciam tê-la esquecido. Um dia em que se
encontrava deitada, no pior estado de depressão possível recebeu a visita da mãe
de uma ex-colega de sua classe e que não sabia o que lhe tinha acontecido.
Sua
vida mudou. Com severidade alertou-a
que Mariana não podia continuar assim e embora descrente ela ouviu aquela
mulher que fora a única realmente que lhe falara profundamente e com verdadeiro
interesse. Nada havia de superficial no que ela dizia e Mariana sentiu que alguém
lhe estendia a mão com carinho e profundidade. Levou-a para passar uns dias com
a família e a jovem entendeu como Dona Marta era uma pessoa iluminada. E
extremamente bondosa.
Pode
entender como aquela senhora era querida pelas pessoas que lhe rodeavam e
comprovou que amor é o dar e receber. Recomeçou
a estudar enquanto sua protetora organizava sua vida. E daí em diante apesar do
sentimento de perda que não morre ela foi compreendendo
o quanto tinha sido importante para ela aquele gesto de solidariedade.
Alugou sua casa, começou a trabalhar e prosseguia os estudos enquanto morava
com a família que lhe havia adotado por assim dizer. Adotado não legalmente,
mas pelos gestos humanos que
enriqueceram sua vida em todos os sentidos.
Dona
Marta era psicóloga e assistente social e tinha uma visão otimista da vida que
aos poucos e com muita dificuldade foi passando à sua pupila. E quando conheci
Mariana ela deixava transparecer na
fisionomia o conforto de uma segurança interior profunda e a esperança que o
mundo lhe daria ainda outras lições
de reconfortante bondade e desprendimento e imensa solidariedade. Sofria ainda
é claro, mas sua vida apesar disso era plena.
Conhecer
aquela jovem e poder usufruir horas de uma conversação sadia e profícua foi
uma das boas experiências de minha adolescência.
Vânia Moreira Diniz
21-01-2001