
Ensaios
Vânia Moreira Diniz
GEMIDO DE ALERTA
Fonte: Quando eu era ainda pequena, muito pequena e morava em minha cidade no Rio de Janeiro, saindo com meu pai, perguntei-lhe vendo uma mulher grávida, porque algumas mulheres ficavam assim. Respondeu-me então sobre o amor que devia existir para que isso acontecesse e as manifestações desse sentimento. Nada omitiu, mas também não deu explicações que eu não pedira.
A lei Brasileira assegura o direito do nascituro desde sua concepção até a morte.
No momento da concepção, o espermatozóide encontrando o óvulo fecunda-o, transformando-o no embrião que depois será um feto.
Pensando nisso pergunto-me como podemos dispor dessa criatura a nosso modo. Dizem que a mulher tem livre arbítrio e pode decidir se será mãe ou não.
Ela poderá ter livre arbítrio para quase tudo menos para dispor de vidas, inclusive a dela mesma. Esse livre arbítrio deve ser usado na exata hora em que poderá conceber um filho, evitando-o.
E no caso de acidente, hoje existe a pílula do dia seguinte que, claro, não deve ser usado indiscriminadamente inclusive para preservar a saúde da mãe. Mas deve haver informação para as pessoas que não conseguiram obtê-la apesar de ter sido falada em meios de comunicação algumas vezes.
Mas quem tem acesso aos meios de comunicação? E tendo, a linguagem será acessível ou há o perigo da generalização?
Será que a mãe tem esse livre arbítrio mesmo depois de existir um ser humano dentro dela? Um ser humano feito em suas entranhas e que não chegou lá sozinho ou por espontânea vontade?
Realmente é uma questão polêmica levando-se em conta até que existem muitos e variados meios de evitar essa concepção. E todos ou muitos alardeiam a dificuldade para uma jovem fazer um aborto decente. Mas o aborto seria realmente decente?
Porque para mim matar um embrião em vida que cresce, desenvolve-se e será o homem ou a mulher de amanhã não é bem ter livre arbítrio. Será que estou errada?
Discute-se muito qual o momento que surge a vida. Acho que isso é irrelevante já que qualquer prática abortiva é condenável.
A par disso sensibilizo-me com problemas dessa gente tão nova, começando a vida e se defrontando com o problema da maternidade indesejada. É a existência de uma jovem que está ali apenas começando, com muitas esperanças e que certamente um filho mudará diametralmente seu caminho promissor.
Mas também me indago porque essa gente moça e tão bem informada , muito mais do que há 15 ou 20 anos atrás não tem o cuidado necessário e relativamente simples de evitar essa maternidade que não pode ou não quer concretizar?
A culpa mais evidente nesse momento crucial que estamos vivendo talvez seja dos exploradores de crianças e adolescentes e aí sim o direito permite o aborto.
Mas antes disso temos que mudar esse país a partir da pobreza extrema, falta de recursos, de emprego e conseqüentemente a miséria e a fome que fazem meninas saudáveis e esperançosas como todas da mesma idade, ingressar em um caminho doloroso entregando seu corpinho e sua vida a qualquer pessoa inconsciente, covarde e mau formada.
O aborto é uma teia de circunstâncias e de fatos traumatizantes, dolorosos e terríveis em sua essência para que se possa em um momento de discussões polêmicas e flutuantes chegar-se a alguma solução realmente positiva.
Antes de qualquer coisa terá que se humanizar o país, poder conceder uma vida digna a toda essa imensa nação. Perceber que não existem somente São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e outros estados grandes e atingidos pela civilização.
Mas o próprio interior de muitos desses mesmos estados e o nordeste brasileiro que carecem de cuidados, atendimento, socorro, bondade.
Enquanto os abortos clandestinos se fazem sacrificando não só a vida da criança nascitura, mas também de jovenzinhas muitas vezes indefesas, impotentes num mundo em que a lei ainda parece ser a do mais forte; no momento que adolescentes sacrificam suas vidas em prol da satisfação mórbida e doentia de pessoas que deveriam estar em estabelecimentos de tratamento mental intensivos, precisamos fazer alguma coisa.
Um grito, um gemido de profundo alerta.