Contos

Vânia Moreira Diniz

Traumas

Quando a vi pela primeira vez, admirei sua beleza suave, seu perfil perfeito, o corpo bem torneado e a figura elegante. Mas o que chamou minha atenção em especial foi a suavidade extrema que exalava de seu tipo realmente encantador.

E quando a observei conversando e depois no longo tempo em que convivemos pude verificar que sua cultura era bem acima da média.

Fernanda era por assim dizer e aparentemente uma mulher perfeita. E na verdade nunca deixei de pensar assim. E nem poderia porque qualquer um que a conhecesse iria chegar à mesma conclusão.

Convivia desde muito criança com seu marido que era advogado e íntimo amigo de minha família. Na ocasião solteiro viera a se casar logo depois com Fernanda.

Quando ele a trouxe para apresentá-la todos ficaram realmente e positivamente impressionados. Logo depois estavam casados.

Muitas vezes em meus devaneios ficava pensando como Dr Geraldo deveria sentir-se feliz tendo a seu lado essa companheira especial. E eu imaginava que viviam um sonho de amor.

De fato eu não errara numa coisa: Ambos eram apaixonados e demonstravam isso no modo carinhoso com que sempre se tratavam.

Acontece que Dr. Geraldo era dessas personalidades cujo ego não se contentava com a dedicação de apenas uma pessoa, mas necessitava de que toda uma corte o fizesse em se tratando do sexo oposto.

Muito mais tarde vim a compreender que isso não era proveniente de fantasias ou de desejos contraditórios, mas sim de um sentimento de carência e infelicidade proveniente de sua infância pobre e infeliz. Conseguira estudar, subir na escala social e cultural mas não dominar o seu próprio eu. Era necessária uma terapia, mas ele não acreditava nisso.

Existem muitas espécies de reações num trauma infantil e a dele, constatada por nossa convivência contínua, fora surpreendentemente imatura.

Considerava-o como um tio muito querido e a par disso ele era um homem realmente atraente e dedicado às suas amizades. Nutria por mim um carinho particular e jamais deixei de gostar daquela figura simpática que conhecera durante toda a minha vida.

Entretanto a aproximação com Fernanda resultou numa intimidade franca entre nós e como ela não podia ter filhos, admirava a convivência com crianças e adolescentes.  Mas à medida que eu crescia a nossa amizade também crescia.

Ouvia comentários de meus próprios pais sobre atitudes incoerentes do Dr. Geraldo, inclusive quanto à sua patente e visível infidelidade conjugal e muitas vezes tarde ouvia os telefonemas de Fernanda, perguntando ou se queixando do marido.

Ele era assistente de meu pai no escritório de advocacia e sempre soube de suas admoestações pelo fato do advogado abandonar o trabalho e sumir do panorama geral constantemente. Era coisa tão corriqueira depois do casamento dele que até as crianças percebiam ou ouviam.

Fernanda embora linda e sumamente cheia de predicados

possuía uma saúde delicada. Tivera problemas sérios de amidalites e a seqüela maior e complicada fora muito cedo um reumatismo infeccioso e as crises por vezes eram dolorosas.

Naquele dia minha mãe pediu-me que eu ficasse uma tarde de folga do colégio no apartamento de Fernanda, pois ela estava mal e pedira a minha companhia.

Fui com o maior prazer, pois adorava a sua companhia e fiquei surpreendida ao chegar e vê-la deitada na cama, o rosto molhado de lágrimas, soluçando.

Perguntei-lhe se estava com alguma dor. Respondeu-me que não.

- A dor que sinto não é física.

- Eu sei, Fernanda, mas procure se acalmar.

- Não, você não sabe, filha. Como poderia?

- Sei, sim. Não sou tão boba assim.

- Verdade?

- Claro, eu vejo as coisas. Não quero que você sofra.

Ela abraçou-me sem dizer nada e notei que não queria conversar sobre sua vida com alguém tão jovem. Procurei distraí-la de alguma maneira, porém nunca esqueci sua expressão angustiada.

Desse momento em diante comecei a prestar mais atenção. Pude perceber suas noites solitárias e as humilhações pela qual a moça passava.

Dr Geraldo apesar disso tudo tinha um ciúme enorme da mulher e a vida para os dois era difícil. Ele, tão traumatizado, cheio de problemas que a vida impusera querendo suprir e esquecer, conquistando todas as mulheres que passavam por perto, mas certamente sem querer abdicar da mulher que realmente amava.

Muitas vezes percebi meu pai conversando e como amigo admoestando-o seriamente sobre a possibilidade dele estragar sua vida. Respondia-lhe brincando, com certa displicência tão atraente na figura deveras cativante.

O tempo passava e nada mudava evidentemente. Apenas percebia-se com certeza absoluta a vida desesperada que levavam e a luta de Fernanda para não jogar tudo para o alto e ir embora.

Anos depois

Alguns anos haviam se passado. O belo casal vivia uma história   fictícia embora todos notassem que Fernanda ao contrário do marido já não era tão apaixonada.

Nas horas que estavam juntos Dr. Geraldo era extrema-mente carinhoso e gentil com a mulher. Mas logo brigavam por motivos óbvios. Uma tarde Fernanda chamou-me para lanchar e em meio a um grande bate-papo contou-me que iria trabalhar numa empresa particular cujo salário era razoável e eu fiquei feliz por ela. Indaguei apenas como Dr Geraldo se portara e ela evasivamente disse-me que ele não estava satisfeito.

- Sabe, disse-me ela, estou dando meu grito de independência. Você é muito nova, mas já pode compreender. Há momentos que não se pode adiar.

- Eu entendo e desejo que você se dê bem e que Dr. Geraldo compreenda.

- Não vai compreender, Vânia. Mas isso já não importa muito. É agora ou nunca. É o meu momento.

- Você já não gosta dele?

- Gostar eu gosto. Graças a Deus não estou mais apaixonada. Deveria?

- Não sei. Teria gostado de vê-los felizes

Ela olhou-me com carinho, pegou minha mão entre as dela e iniciou um outro assunto dando a entender que aquele terminara.

Conclusão

Fernanda já estava trabalhando havia seis meses quando pude perceber que o Dr Geraldo andava angustiado e não saía da minha casa conversando com meus pais e até agredindo em palavras Fernanda, fato que não se concretizava porque meus pais e todos a defendiam.

Ele nem esperava para jogar sua mágoa quando estivesse sozinho com os amigos. Mesmo na frente dos jovens destilava a raiva que sentia. E todos compreendemos a crise enorme do casal crescendo e se desenvolvendo progressivamente.

Não andavam mais juntos e Fernanda já não fazia nenhuma questão de sua presença. Muito pelo contrário. Tinha um grupo de amigos com quem saía muitas vezes. E só freqüentava a minha casa quando sabia que ele não estava. Ia sozinha e nada comentava do marido.

Dr. Geraldo chegou um dia muito revoltado. O ódio estava estampado em seu rosto e ele nem parecia aquela figura sedutora que todos nós estávamos acostumados a conviver.

- Ela tem alguém. Tenho certeza disso – ele quase gritava e meu pai pedia calma.

Todos nós estávamos tristes com o sofrimento de ambos. Mas compreendia   que não era tão inesperada assim aquela crise entre os dois.

E três dias depois Fernanda nos comunicou que tinha pedido a separação  legal.

Meus pais tudo fizeram para demovê-la dessa atitude. Ela alegou que não   poderia mais viver com ele.

Foi tudo muito doloroso e logo em seguida Fernanda foi viver com alguém por quem se apaixonara e que pelo que entendi estava completamente doido por ela.

Ambos tinham suas razões e procuramos dar apoio aos dois, porém o mais  triste era ver o  estado deplorável do advogado.

A separação correu dolorosa e o Dr Geraldo já não era o mesmo. Não se  cuidava e vivia barbado, infeliz, magoado e transbordante de rancor.

Um dia o encontrei completamente bêbado na rua. Todos nós tentamos apoiá-lo, mas ele nem mais sequer queria saber de suas conquistas. Tarde demais.  Dolorosamente tarde.

Estive várias vezes conversando com Fernanda e ela relatou-me o sofrimento intenso que tivera durante todos aqueles anos e a luta para salvar um  relacionamento que havia iniciado tão bonito mas que traumas de uma infância infeliz  havia deteriorado.

Ele nunca mais voltou a ser a mesma pessoa e abandonou a profissão e os amigos.

Lamentavelmente.

Vânia Moreira Diniz

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