Poemas

Pedro Cardoso Machado

USAR E ABUSAR

Ah, se você soubesse!

Se você soubesse,

Das loucuras que passam em minha cabeça,

Das imagens proibidas e nuas que escondem o meu sorriso,

Das alucinações férteis e no cio, que em minha alma brotam,

Como brotam os trigais.

Ah, se você soubesse,

Que estes pensamentos chegam

Num açoite quase angelical

Me deixando demente

Me fazendo animal.

Ah, se você soubesse,

Dos abusos que ouso imaginar

Ou às vezes até pensar

Ou mesmo querer.

Não me chamaria de Vate

E sim, de louco e atrevido.

Mas o que é que eu posso fazer,

Se me ponho em pé, e em riste, só por querer?

Às vezes eu me esfrego

Eu me desfaço

Eu entro em gozo.

Mas, me cortam as suas palavras

Que trespassam os meus pensamentos

E me dizem mais ou menos assim:

__ Acorda!!!

Acorda diabo dos infernos!

Meus desejos não são seus

E pra você, nada de mim me resta.

Os meus sentimentos, até mesmos os mais aflitos

Já foram todos paridos e distribuídos,

Suas idéias, são todas doentias 

Envelhecidas e corcundas.

Ah, mas se você ao menos me ouvisse

Ou quem sabe visse minhas lágrimas cristalizadas

Nestes olhos que o corvo há de comer.

Talvez entenderia o meu desejo maior,

Que é usar e abusar da imaginação com você.

Ah, se você ousasse escutar-me

Ou quem sabe possuir-me

Mesmo que em desalinho,

A minha cama poderia vir a ser o ninho.

Ah, se você me permitisse vasculhar o seu corpo

Em cada canto, em cada encosto, como se eu fosse o outro.

Ou em cada detalhe,

Como se eu fosse o formão que corta e faz o entalhe.

Ah, eu seria com certeza o espelho, da Divina felicidade.

Ó prostituta dos meus desejos

Se me chama de Vate,

Então por que me mata?

Por que joga fora os meus pedaços?

Por que dá aos cães as minhas vísceras?

Por favor... entregue-me a mais torpe das mulheres

A mais desgraçada que encontrar

A mais usada e abusada que vier a ter notícias

E ainda assim, os meus pensamentos, mesmo que em frangalhos,

Serão para sempre seus.

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