Contos

Vânia Moreira Diniz

Amarga Revelação

Flávia e Elaine eram irmãs, mas não se pareciam. Fisicamente Flávia era clara e os cabelos negros e longos eram um contraste bonito para os enormes olhos verdes. Elaine tinha a pele morena como jambo e os olhos negros mantinham uma expressão desconfiada. A primeira era suave e meiga enquanto a irmã profundamente orgulhosa, não inspirava muita simpatia ao primeiro encontro.

Moravam com o pai, Dr. Augusto e a avó, Dna Amélia. Os pais separaram-se logo após o nascimento de Elaine. Restara do antigo e breve relacionamento  muitas mágoas acumuladas e não esquecidas. Dr. Augusto era um médico muito famoso

Elaine mantinha sempre uma atitude superior. Para ela era primordial esse aspecto social e financeiro.E nisso também as duas diferiam profundamente. Na verdade para lhe fazer justiça a criação que tivera muito contribuíra para esse tipo de comportamento. Era a preferida da avó e da empregada que as criara e que lhe faziam todas as vontades.

Muitas vezes no correr desses acontecimentos a moça iria desagradar muita gente e seu maior trauma foi quando apaixonado por uma rapaz Flávia começou a namorá-lo, porque na verdade nem sabia que a irmã estava interessada. Seu modo sarcástico de se dirigir às pessoas , a pronta resposta agressiva sempre presente, a falta de meiguice e o desprezo com que sempre tratava as pessoas mais humildes granjeavam a antipatia geral. Tinha um grupo, é certo, que aparentemente eram seus amigos, porém mesmo esses,

em certos momentos a criticavam com dureza.

Flávia estava sempre por perto defendendo a irmã porque realmente a amava. Era um relacionamento complicado pela própria diferença de índole. Estavam sempre juntas apesar de tudo e quando se formaram Elaine comunicou ao pai que iria morar sozinha. Embora sua mãe saísse sempre com Flávia, pouco tinha contacto com ela. Tinha a impressão que Dna Roberta gostava muito mais da irmã. E correspondia a essa espécie de antipatia antinatural com desdém.

Elaine tinha muito ciúme e inveja da irmã e muitas vezes as pessoas pensavam que ela tinha problemas psíquicos realmente graves. Não parecia uma pessoa normal e o discernimento era nulo. Jamais pensava que algo poderia atingi-la e por vezes o orgulho desmedido transformava essa moça em alguém completamente fora da realidade. Relatava fantasias que considerava verdadeiras mas que na verdade só podiam sair de sua cabeça.

A vaidade era tão grande que não admitia que ninguém estivesse acima e quando Antônia, a babá que lhe criara chamava atenção para esse detalhe que a preocupava, respondia-lhe com grosseria. Estava tão acostumada a agir dessa forma que não notava mais esse detalhe assim como não percebia a forma esquisita que as pessoas a olhavam.

Seu pensamento fixo era Rogério, o rapaz que a irmã namorava e passou a hostilizar Flávia de uma maneira evidente. Não se importava que  estivesse alguém próximo, tudo que queria era presenciar a expressão entristecida da moça e sua vontade de decepcionar as pessoas  tornava-se mórbida.

Não tinha controle sobre o temperamento explosivo e se habituara a fazer cenas absurdas. No dia que saiu de casa seu pai pediu-lhe que ela evitasse agir com outras pessoas daquela maneira

-Quero evitar-lhe sofrimento, minha filha. Procure controlar-se porque os amigos não são obrigadas a tolerá-la dessa forma

-Será que tenho culpa?  Todos aqui parecem admirar Flávia, mas sou eu que dou mais alegrias  a todos.

-Não é verdade. As duas são tratadas iguais, tenho consciência disso. Tem certeza que quer sair de casa?

-Sim, papai, quero viver a minha vida. E de forma diferente.

2ª PARTE

Flávia acabou o namoro e Rogério depois de algum tempo começou a namorar Elaine. O rapaz, médico formado recentemente, era ambicioso. Via um futuro promissor na ligação com a moça. Gostara muito de Flávia, mas já que não dera certo cedeu por interesse à insistência da irmã.

Casaram-se em pouco tempo e começou o inferno na vida do casal. As brigas eram muitas e constantes, e logo a jovem estava grávida. Revoltada, culpava o marido pela gravidez indesejada e começou a sair com outras pessoas, desejou jamais ter casado. Sua índole contraditória era exasperante e quase incontrolavelmente Rogério muitas vezes se descontrolava. Nunca conseguira esquecer Flávia e rememorava a sua meiguice seguidamente.

A criança nasceu depois de alguns meses e durante esse tempo as agressões eram inevitáveis.Tudo que ela queria era recuperar-se logo e voltar a vida normal sem entraves ou aborrecimentos. Um sábado em que se preparava para sair, Rogério pediu para conversar com mais calma:

-Elaine, não dá mais. Por que não nos separamos?

-Bem que gostaria, mas não queria dar esse gostinho à Flávia. É isso que você quer?

-Ela nem deve lembrar que eu existo. Elaine, o seu orgulho e essa inveja estão acabando com você. Reflita um pouquinho. Tente imaginar que nem tudo gira ao seu redor.

Elaine nada respondeu tamanha a raiva se apossava dela. Detestava-o. E ruminando a mágoa que se acumulava bateu a porta saindo sem ao menos dizer aonde ia. Quando voltou já era tarde e o marido não estava em casa.

A vida de ambos continuou com uma série de atritos e o rapaz não compreendia o que se passava com aquela mulher. Tivera tudo na vida contando amor e carinho. Teria sido a falta da mãe? Não precisaria de um tratamento? No fundo, por vezes tinha pena da mulher. Andava tão fora do mundo que se julgava essencial para todos que convivia e estragava a afeição que cada um nutria por ela. E novamente pensava o que poderia se passar naquela mente tão vazia e egoísta.

Foi num dia comum, de trabalho normal que recebera um telefonema do sogro pedindo que fosse à sua casa. Estranhara a ligação e o chamado, mesmo porque a essa hora costumava estar no consultório. Apressado saiu sem compreender o que se passara.

CONCLUSÃO

Quando chegou a casa do médico viu o quanto estava ansioso. Pediu que ele se sentasse porque o assunto era sério. E então depois de uns instantes que seu olhar parecia estar vagueando voltou à realidade

-Rogério, tenho uma coisa grave para confiar-lhe. Elaine esteve aqui. Ouviu uma parte da conversa com minha mãe.

-Não estou compreendendo.

-Vai compreender. Inadvertidamente estávamos conversando sobre Elaine. Não tomamos os devidos cuidados e só quando ouvimos o seu grito imaginei que ela tinha ouvido. Não quis me escutar. Saiu. Se eu fosse atrás era pior.

-Não estou conseguindo entender.

-Rogério, Elaine é minha filha, porém não com a mãe de Flávia.

O rapaz levantou-se pálido de susto

-Sente-se, por favor. Há muita sujeira envolvendo o seu nascimento no que se refere ao registro de nascimento. Tive um caso com uma jovem empregada, infelizmente. Reconheço que além de tudo fui imprevidente. Eu já estava vivendo muito mal com Roberta. A moça ficou grávida, incapaz de cuidar da filha, mesmo com minha ajuda financeira. Trouxe-a para casa, ela abriu mão da menina, nem chegou a registrá-la. Roberta descobriu tudo. Já não vivíamos juntos. Sentiu-me desesperado quis arrumar sua vida. Por isso vive em condições financeiras mais satisfatórias que a minha.

-O senhor pagou para que deixasse registrar Elaine com o nome da sua mulher?

-Sim, eu me penitencio. Por isso e também por remorsos fechávamos os olhos a tudo que Elaine fazia. Acabei estragando-a e ficando cada vez mais com um sentimento de culpa martirizante. Não sei qual o mais infeliz nesta casa. Elaine ouviu quando eu conversava com minha mãe exatamente sobre isso. Não sei se compreendeu de quem é filha. Acho que não. Procure-a, Rogério, preciso falar com ela, vê-la e enquanto isso tentar no meu desespero contar a Flávia a verdade. Que ela é apenas meia-irmã de Elaine. Tarde demais, mesmo assim quero agora só a verdade.

Rogério levantou-se desorientado, sem saber o que fazer, mas alguma coisa lhe avisava que sabia onde encontrá-la. Rapidamente dirigiu com cuidado pelo excesso de emoção em que estava e encaminhou-se para sua casa.

Elaine estava deitada na cama enquanto a filha Edna, a seu lado dormia. Os olhos estavam fechados embora não estivesse dormindo e as lágrimas rolavam indisciplinadamente. Pela primeira vez na vida parecia não serem lágrimas de capricho. O rosto estava magoado e infeliz.

Levantando-se fixou o marido sem conseguir manter o olhar no rosto dele:

-Não sou nada do que pensava. Nem sei quem sou.

Rogério abraçou-a, pela primeira vez sentindo carinho pela mulher

-Não fique assim. Seu pai está infeliz. Sofreu a vida toda por isso.

-Rogério eu sempre pensei que fosse uma pessoa e não é verdade.Não quero saber quem é minha mãe.

-Vamos levante-se, vamos dar uma volta, conversar...

-Não quero sair daqui. Quero me esconder... Morrer...

Quando ela acabou de dizer isso, Flávia entra lentamente e correndo em direção à irmã abraça-a efusivamente.

-Elaine eu sempre a amei. Não sabia de nada. Mas nada mudou . Continuo a amá-la muito.Você sempre será a minha irmãzinha. Não importa quem seja sua mãe. Aliás quem é a minha? Ela algum dia me deu atenção? Não, você não ficar assim . Eu não vou deixar.

E a moça , orgulhosa, tão superior sempre, conseguiu dar um sorriso gracioso à Flávia enquanto comentava:

-Será que eu encontrei minha família agora? Será que eu me encontrei?

E com mão apertada entre as da irmã voltou a deitar-se, sem reação.

Vânia Moreira Diniz

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