Ensaios

Vânia Moreira Diniz

O Bandido vira herói

É lamentável que em nossa terra o bandido vire herói. Os presos, as pessoas que estão pagando sua pena devem evidentemente ser tratados com respeito. Mas não é disso que estou falando. Aí está mais uma vez  citado o caso do assalto a Sílvio Santos , talvez porque foi um dos últimos e mais perigosos e também porque a vítima é famosa. Revertemos à fama que inebria de forma tão exagerada o ser humano.

Esse rapaz que comandou e planejou o seqüestro e sua namorada que o ajudou estão em evidência e a mídia  só falta carregá-los no colo. Imagino que outros psicopatas e com tendências assassinas que assistem ao espetáculo de uma súbita notoriedade, mesmo que para a maioria de nós isso seja negativo, estão encantados. E não vêem a hora de também se promoverem.

No Brasil pouco se fala das pessoas que tem valor. Um pintor, músico, escritor ou alguém que se destaca em qualquer segmento nem é notado. Ou se é, a indiferença ou a procura de sensacionalismo é bem mais vigorosa.

A namorada do falado seqüestrador Fernando já foi mais entrevistada do que estrela de cinema e até sua mãe já ficou à frente aos holofotes experimentando seu momento de glória. (Respeito a dor dessa mulher que vê sua filha presa e infeliz e imagina seu negro futuro.) Mas o que estão fazendo se sobrepõe ao sentimento de misericórdia. É sensacionalismo à custa de um bandido que aproveita para ser o astro maior. Não quer que apareça seu rosto, não aparece. Exige coisas e elas são satisfeitas assim como foi a presença do governador. E sua vida é dissertada como se fosse uma ilustre biografia.  Que tempos são esses que evidencia um infrator e o torna quase um ídolo transformando-o em “figura nacional?”.

Precisamos deixar de enaltecer os bandidos e torná-los ídolos de Manchete.Eles devem ser noticiados inclusive para que outros marginais  verifiquem que o crime não compensa.Mas devemos fazer com que as crianças e adolescentes de hoje admirem aqueles que são os verdadeiros detentores de troféus e de sucesso. As crianças aprendem mais o nome dessas pessoas infratoras do que de personagens da História Universal.E é lamentável, realmente ultrajante que se dê evidência a bandidos  cuja maldade é a principal arma.

Estamos cansados de violência que se expande e torna “quase normal” como se  fosse natural agir barbaramente, torturar  ameaçar, matar e as pessoas assistindo como se fosse um filme em cartaz! Estamos entristecidos e infelizes ao verificar que  nossas crianças já assistem de forma natural a um noticiário contando as barbaridades e desatinos de um bandido, já que é apresentado de maneira exagerada e sensacionalista. Não temos o direito de proporcionar isso a seres que estão se formando. E que precisam apreciar e admirar exemplos positivos e altruístas. Ou pelo menos presenciar    nosso repudio aos atos vis. Devemos isso a eles.

Já cansou nossos próprios olhos a capa dos ídolos falsos que hoje enchem nossos aparelhos de televisão e outros meios de comunicação e eu não sei a reação dos adolescentes a essa “naturalidade.” Faz-se mister um intervalo nesse desatino que estamos enfrentando de seqüestradores e malfeitores a serem entrevistados como figuras de proeminência nacional. E enquanto não enaltecermos o amor ao próximo, a generosidade e tentarmos expurgar  de nós mesmos, o egoísmo, a inveja , o desamor  e a indiferença estaremos caminhando para o abismo mais profundo que jamais conheceremos.

Vânia Moreira Diniz

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