


Vanderley Caixe
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UM CANTO DA TERRA Dionila
camponesa Dionila
camponesa despejada, lavoura
destruída e trecos no chão. Sessenta
e oito anos amainando a terra, amainando
os filhos, produzindo o nosso pão. Dionila
da terra semente, da
terra o ventre, do
filho do chão. Oitocentos
mil pequenos proprietários, quatrocentos
e cinqüenta mil posseiros e, dois
milhões de pequenos arrendatários, /juntos
na expulsão. Acompanhados,
os tratores chegaram com a polícia
e a ordem do juiz. Não
ficou casa, /não
ficou planta no chão. Sua
lavoura destruída e
seus trecos debaixo do pé de pau. Mais
uma favela vai ser construída de despejo, de
desemprego .De toda a injustiça do mundo. Dionila,
a cobiça é o chão! Mexa
nervos e músculos, o
que resta das rugas do rosto ao sol. Faça
da enxada as asas /e
como o pássaro , busque o céu! Viva
o etéreo para nós. Do
céu olhe os seus companheiros! Olhe
aqueles que com a força dos seus braços /ganham
o mísero pão. Seja
a força para que eles continuem produzindo /a
macaxeira, a batata e o feijão. Dionila,
do alto dos céus: Inspire
a força dos seus filhos de Coqueirinho e Cachorrinho , /ameaçados
pela Usina Central Olho dÁgua. Estenda
seus braços por toda Alagamar, Piacas,Caipora,Várzea
Grande, Riacho dos Currais. Vá
aos agricultores da Fazenda Paripe, /para
eles enfrentarem a a
especulação imobiliária. Lembre-se
da luta dos agricultores de Capim-de- Cheiro /que
há anos enfrentam a Usina Maravilha e, agora, os proprietários
Assis e Vasconcelos. Dionila,
seja a força de Camucim, do
Sítio das Moças de
Taquara, do Sítio Arame, Capim-de- Cheiro, dos
municípios de Alhandra,
Caaporã e Pitimbu, /que
o inferno verde dos diabos da Fazenda Tabu está expulsando. Seja
a guarda de Joaquim, seu irmão de roça e da terra, /ameaçado
por todos aqueles proprietários rurais em Mangueira. Dionila,
nossa mãe camponesa, Olhai
os índios da Baia da Traição - da Nação Potiguar; Olhai
pelos pescadores da Barreira Grande, Acaú,
Tejucupapo e todos os outros; Olhai
por Mataraca, Sapé, Rio Tinto, Santa Rita,que pelas
mãos que as usinas vão matar, na
calda envenenada, nos
pilares da cana-de açúcar - a destruição do ar -a
destruição da terra - a destruição dos rios. Dionila,
verta por nós as lágrimas que o despejo enxugou. Dionila, é
o boi - o capim é
o trator - a cana é
o capanga - o latifúndio é
o policial - o poder é
a lei - a injustiça é
o dinheiro - o lucro que sua fome vai gerar é
o projeto do álcool é
o plano - o filho legítimo do sistema é
o que você não entende, /o
que seus olhos não compreendem neste
dia de Feliz Ano Novo.! (Um
dia de um ano, na cidade de Pedras de Fogo, Estado da Paraíba, os
tratores da Usina Central Olho D ´Água, acompanhado de 40 policiais , um
oficial de justiça e do mandado de um juiz - mais tarde afastado por
corrupção e prevaricação - expulsaram D. Dionila de sua casa,
derrubaram as jaqueiras, mangueiras e a própria casa, destruindo toda a
plantação de feijão-de-corda e batata. A Usina precisava plantar
cana-de-açúcar.) |