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Tenho Medo tenho
medo do meu silencio, tenho
medo das palavras que eu não disse, tenho
medo de ter medo, tenho
medo desse enredo, dessa mesmice. tenho
medo desse sonho calado, tenho
medo de calar esse grito de horror, tenho
medo dos apóstolos ajustados, tenho
medo do meu comportado pavor. tenho
medo que essa vaga me incrusta, tenho
medo de ser um sujeito formatado, tenho
medo que me botem saia justa, tenho
medo de me fazer bitolado. tenho
medo que eles pensem que tenho medo de
denunciar a matança de homens, mulheres e crianças. tenho
medo que a minha voz se cale de bruços, enquanto
outras terras eles invadem e matam as esperanças. tenho
medo da torpeza da indiferença, tenho
medo da insensibilidade dos meus versos, tenho medo
de falar em abstrato de flores, dores e amores, tenho
medo de desenquadrá-los do real amores, dores e flores. tenho
medo de amordaçar a minha angústia, tenho
medo de ter medo de chorar essas crianças, tenho
medo de esquecer todos os seus nomes, tenho
medo de caducar todos os pronomes, tenho
medo de confundir-me, na escolha, entre ser
homem ou lobisomem. tenho
medo de ser aceito socialmente, por
não de não ter dito convenientemente, as
verdades duras do nosso presente. Vanderley
Caixe / outubro de 2004 |