Jornal'Ecos da Literatura Lusófona

25 de Dezembro de 2005 - Edição N°31

 

 

 

   

Fernando Oliveira

Vânia Moreira Diniz 

 
 

 

Jornal’Ecos: Vânia, onde nasceste? E como foi a tua infância?


Vânia: Nasci no Rio de Janeiro e morei sempre em Copacabana. A infância foi  feliz e instigante em certos aspectos. Principalmente quando ia para o bairro da Gávea na casa de meu avô e me parecia um lugar encantado. Ele era escritor, humanista, jornalista, político,  a casa estava sempre cheia e eu podia satisfazer meu desejo de aprender estimulando meus sonhos infantis, porém audaciosos. Minha imaginação era grande e por isso realizei muitas peripécias...  
Gostava de brincar, passear, conhecer pessoas, fazer toda espécie de evoluções em meus patins, era curiosa demais o que às vezes até irritava os adultos  e lia demasiadamente além de minha idade a ponto  de ter ficado com sérias dores de cabeça  e o médico recomendado limites. Efetivamente mesmo com a supervisão de meus pais extrapolava “os limites” recomendados. Mas vi também que no mundo havia pobreza, miséria e fome o que muito me assustou quando comecei a percebê-las.

No entanto o sol foi sempre intenso e imaginava na minha inocência que alguém podia transformá-lo  para melhor. Minha infância foi realmente muito absorvente. E um dia, acho que dos mais tristes de minha vida vi que as pessoas podiam também ser violentas. Por isso mesmo reconheci que o carinho e o amor eram as únicas formas de combater certas atitudes. Grandes ensinamentos me mostravam que os direitos e deveres deveriam ser iguais, porque meu pai e meu avô tinham concepções muito evoluídas. Nunca houve uma frase de discriminação sobre homens e mulheres e as mulheres eram enaltecidas por eles de um modo veemente. Por isso cresci num lar em que a feminilidade intensa e poder de sedução da mulher não impediam, a cultura, independência, luta pelos sonhos e ideais.

 

Jornal’Ecos: Sei que começaste a escrever muito jovem, de 6 para 7 anos? Como aconteceu esta precoce disposição para a escrita?


Vânia: Meu irmão mais velho entrou para o colégio muito cedo como todos nós. Como ele tinha hiperatividade, meu pai colocou um professor particular e eu aos quatro anos pedi para ficar assistindo. Quando vi estava lendo as marcas dos eletrodomésticos de minha casa: Um dia quando sentada à mesa do jantar, soletrei a marca da geladeira, meus pais pensaram apenas que eu tinha decorado. Como eu continuasse, mandaram buscar um jornal e eu comecei a ler as manchetes lenta, mas firmemente. Nem eu sei como tudo começou. Quando percebi estava lendo. Aos seis anos levei uma redação para o colégio e minha professora viu. Não acreditou que eu  tivesse escrito e pediu que descrevesse um quadro que ela tinha pendurado na parede. Só assim se convenceu e aí passei a escrever sobre tudo indiscriminadamente. E era chamada para coordenar todos os movimentos do colégio que incluísse literatura.

 

Jornal’Ecos: O fato de escrever assiduamente tão cedo trouxe alguma conseqüência de ordem existencial?

Vânia: Sem dúvida. À medida que escrevia e queria ler mais e mais, fui notando  em que mundo vivia, a generosidade, o amor, a ternura e uma ânsia imensa para realizar alguma coisa, sem ser apenas brincar,  estudar, viajar ou ter uma vida tranqüila. Desejava realizar meus primeiros sonhos e cismava muito pequena com as aventuras que Monteiro Lobato descrevia. Antes de tudo notei uma humanidade desigual, olhares tristes de crianças, a deficiência que era discriminada e comecei a me aproximar dessas pessoas como uma necessidade física.

 

Jornal’Ecos: Quais os primeiros autores que leste com afinco?


Vânia: Bem pequena li Monteiro Lobato. E em seguida Érico Veríssimo, Machado de Assis, José de Alencar, Cronin, Pearl Buch, Jorge Amado, Eça de Queiroz, Dostoievski e muitos outros. Na poesia, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Camões etc.

 

Jornal’Ecos: E a tua família? Apoiava a tua ânsia de transmitir?


Vânia: Minha família era formada de intelectuais realmente, mesmo assim eles ficavam preocupados com a quantidade de informações que eu queria reter e tinham receio da minha ânsia de ler cada vez mais, escrevendo nos momentos mais inusitados, querendo realizar coisas não próprias da minha idade.

 

Jornal’Ecos: Tens algum modelo ou mestre literário/intelectual e como transcorreu a tua vida em família?

 

Vânia: Meu grande mestre foi efetivamente meu avô. Eu o admirava muito e costumava ficar extasiada quando ele recebia seus discípulos e discorria sobre os assuntos mais variados.
Mas claro que tive outros líderes principalmente na literatura, filosofia e psiquiatria que eu lia demasiadamente na enorme biblioteca de meu pai.

 

Jornal’Ecos: Algum facto ou revelação de uma qualquer importância marcou a tua infância ou a adolescência?

 

Vânia: Sim, a  certeza que somos todos absolutamente iguais, e que só seríamos felizes nos doando em algum sentido e sem cobranças. Tinha convicção que as decepções existiriam sempre e eram passageiras. E que a perseguição de nossos sonhos deveria ser mantida em qualquer circunstância, sem o que a vida não teria sentido. Mas principalmente tive consciência da finitude da vida, porque perdi meu irmão aos cinco anos de idade depois de muito sofrimento. Presenciei tudo aos doze anos, compartilhei desses momentos e escrevia e pesquisava sobre esse aspecto de nossa existência. Por isso sempre tive pressa de realizar tudo. E cada vez mais isso se acentua.
 

 

Jornal’Ecos: Em que colégio estudaste e como tudo transcorreu nesse sector?

 

Vânia: Estudei num colégio de origem francesa Sacré Coeur de Marie e encontrei lá dentro apoio, amor, embora a exigência do estudo e de certos princípios  fosse bastante severa.. Lá dentro tive consciência de minhas aptidões. Estudávamos, praticávamos esportes, fazíamos teatro, a música era estimulada profundamente e  pude desenvolver meu amor ao teatro e principalmente à literatura.   

 

Jornal’Ecos: Poderias falar das tuas composições, tanto em prosa como em verso nos primeiros anos?

 

Vânia: Nos primeiros anos a minha grande inclinação era a prosa. Escrevia em todos os momentos da minha vida e muitas vezes  interrompia uma  diversão e era encontrada no escritório de meu pai escrevendo. Divagava, sonhava e escrevia. Todos os aspectos da minha vida, o que eu presenciava e a minha imaginação exacerbada eram passados para a literatura em longas páginas de prosa. Amava estudar história e  discorrer sobre seus personagens, nossos antepassados, deixar no papel minha dúvidas e incertezas quanto aos valores da vida. Escrevia poesia, compunha meus cantos com efusão, mas esses só comecei  a divulgar um pouco mais tarde.

 

Jornal’Ecos: Sei que iniciaste tudo cedo na tua vida. A tua filosofia de vida definiu-se cedo?

 

Vânia: Sim, realizei as coisas básicas da vida muito cedo. Casei-me e saí de casa criança ainda, contra a vontade de meus pais, por isso tive que ser forte e procurar dentro de mim muitas forças. Minhas filhas nasceram quando eu era ainda muito jovenzinha. Existiam amor e paixão em minha vida, mas estava numa fase em que ainda precisava do carinho especial de meus pais. Compreendi então que a força real vem de dentro de nós. E era lá que a procurava. A minha filosofia era enfrentar todos os obstáculos que me conduzissem a uma vida feliz. Mas para isso comecei com mais força ainda a valorizar o amor, a ternura, o desenvolver incessante da literatura e compreender que durante essa viagem terrena vamos lidar com pessoas diferentes e pensamentos opostos e que isso devia nos enriquecer. Pelo menos assim eu tentava.  Mas também a ser firme quando achava importante em atitudes que até poderiam me fazer sofrer, mas que eram necessárias.

 

Jornal’Ecos: Nesse tempo da tua  infância a inclinação social Já era grande ? E como surgiu?

 

Vânia: Sim, muito grande. Primeiramente porque muito pequenina aos cinco ou seis anos e com a lenda de papai Noel jamais compreendi porque as órfãs que meu colégio mantinha não recebiam os mesmos presentes maravilhosos que eu ou minhas coleguinhas. E depois porque em Copacabana comecei a prestar muita atenção aos mendigos, deficientes e procurar entender o porquê dessa diferença. Porque exatamente eu era eu e porque tinha sido escolhida para nascer nessa família e não na outra?  Tornei-me amiga  de uma menina muito pobre  e relutava com a sua condição humilde no orfanato de um colégio rico, exercendo atividades que eu achava que competia a um adulto. Foi aí que tudo começou. Minha avaliação do que acontecia nesse mundo e a certeza que não podíamos ser indiferentes. Eu me questionava desesperadamente, cismava e minha mãe ficava preocupada com minhas idéias.

 

Jornal’Ecos: Daí por diante como foi delineada a tua vida em termos principalmente literários?

 

Vânia: Escrevia demais. Trabalhava , estudava, cuidava de minhas filhas e escrevia por vezes à noite até de madrugada e manualmente. Escrevi três romances que conservei no papel, sabendo das dificuldades para publicá-los e também crônicas e poesias. Escrevi em revistas e jornais, recebia convites para palestras, mas não conseguia publicar os livros. Até que um dia senti uma dolorosa amargura quando vi que meus romances tinham sido consumidos e não conseguia encontrá-los até que os vi totalmente borrados numa gaveta . Foi como se tivesse perdido um ente muito e especialmente querido. Montei um curso de línguas em Brasília para executivos e o dirigi durante 10 anos, continuando a escrever incessantemente e aprofundar-me no campo da pesquisa . Comecei um estudo importante sobre drogas, fiz pesquisa de campo e publiquei em co-autoria  com dois professores, um médico e um advogado o “ Manual da saúde física e mental do servidor público” , em seguida meu romance “Laura “ vários trabalhos eletrônicos em poemas destacando-se “Olhos Azuis” já em segunda edição e os e-books “Acordes”  “Eu me enterneço” “Esse amor que é nosso”, “O caminho a seguir”,” Além do Horizonte” e estou esperando para breve o lançamento de “ternura”.  Participei de mais de 20 antologias entre as quais uma especificamente de autores do meu site de literatura. Escrevi um livro de poemas ainda inédito  e publiquei durante esse ano um livro de crônicas, um de poesias e um infanto-juvenil  que foram lançados em Brasília, no Rio e será relançado na Livraria Siciliano agora em janeiro de 2006.  Fui convidada por um canal de Brasília para dirigir um programa de entrevistas convidando psicólogos, médicos, escritores mas acabei não aceitando porque a emissora não tinha condições de bancar a estadia deles aqui.

 

Jornal’Ecos: A internet exerceu força nas tuas actividades e o que pensas dela como evolução e aprendizado?


Vânia: Realmente exerceu muita força. Antes de entrar realmente na internet há oito anos e usar o computador, acreditava que minha inspiração se completasse nos dedos escrevendo com caneta e diretamente para o papel. Não gostava sequer de máquina de escrever. Usava-a, mas não com entusiasmo da caneta. E quando resolvi aderir à internet, não acreditava que fosse me acostumar. Mas em uma semana estava totalmente apaixonada por ela. A primeira pessoa com quem falei foi Leila Miccolis que me deu completo apoio em Blocos on line, um site maravilhoso cujo valor reconhecido passei a amar. Quando mandei meu primeiro texto foi imediatamente publicado e aí não parei mais. Tinha acabado de publicar meu primeiro livro e estava concluindo meu romance “Laura”. Mas a internet me colocou em contato com muita gente que amava a literatura e isso foi muito bom.

Como evolução e aprendizado, não creio que ela sozinha baste. Mas é uma força e facilita a muita gente que não tinha contato com a literatura a descobrir aptidões pela facilidade de textos que se apresentam e como complemento de um treinamento assíduo.. São informações em massa. Mas   claro que já deve haver uma base de conhecimentos para que seja eficiente e atue como fonte de pesquisa e informação.
A Internet, entretanto, facilitou imensamente a divulgação de escritores talentosos e que não conseguiam ver seus textos publicados. Essa parte do meu trabalho é muito especial para mim porque jamais seremos felizes sozinhos. E no site Vânia Diniz todos caminham juntos e evidenciados. Sinto-me imensamente feliz quando atualizo a cada semana seus conteúdos. E vejo o brilho de suas produções.

 

Jornal’Ecos: Em relação ao nosso Jornal'Ecos, o que significa em tua vida literária?


Vânia: O jornal'Ecos foi e está sendo um marco em minha vida literária. Muitas vezes durante sua elaboração, temos que ficar concentrados no trabalho e quando o colocamos no ar, estamos realmente exaustos, mas realizados. Começamos a prepará-lo uma semana antes, pelos espaços que têm que ser elaborados, espera de textos, autores novos que vamos introduzir e todo um trabalho meticuloso. Nesses dias ficamos quase por conta do jornal, mas é uma alegria imensa, curti-lo depois de atualizado. A revisão antes de colocar no ar é rigorosa e temos que ficar absorvidos na edição e preparação mas é maravilhoso. Uma experiência que está sendo salutar.  E me realizando muito. Principalmente porque a penetração dele está fantástica em muitos países e principalmente no Brasil. E temos a filosofia de unir literatura e a concretização de idéias usando essa arte magnífica da palavra.

 

Jornal’Ecos: Publicaste este ano três livros. Como conseguiste coordenar tantas actividades e qual o teu maior ideal que esperas alcançar?


Vânia: Sim foi um ano de muito trabalho, mas houve compensação absoluta.A coordenação de minhas atividades se dá com muito rigor nos horários, trabalhando muito e com especial carinho e alegria. Estou fazendo o que amo. Meu sonho mais constante é obter adeptos para minha filosofia de vida e só o  conseguirei com a minha literatura. É usar essa ferramenta belíssima e eficiente em prol de um mundo humano maior e mais justo. E também, é claro ser lida, deixando sementes para meus descendentes e muitas pessoas. Não sei exatamente como consigo trabalhar tanto, mas acho que só o amor ao que faço seria capaz de consegui-lo.

 

Jornal’Ecos: Qual a tua concepção em relação ao universo, e o que sentes frente ao mistério da vida? É realmente um mistério?

 

Vânia: Sim, é um mistério e se não fosse não haveria a sedução de viver a vida, esperar seus frutos, o dia de amanhã e curtir acontecimentos absolutamente inesperados. A minha concepção em relação ao universo é que vivemos num lugar onde a natureza e os seus efeitos transmitem uma energia que ainda não sei precisar exatamente, mas que nos revigora a cada momento difícil. Os sentimentos que nos equilibram são frutos dessa natureza que infelizmente está sendo transformada aos poucos pela mão do homem. E sinto uma enorme fascinação frente esse mistério não destituído por vezes de medo e respeito profundos.

 

Jornal’Ecos: Agora é tua vez de usar este espaço que o Jornal oferece para falar aos seus leitores. Quais as mensagens que pretendes transmitir?.
 

 

Vânia: Desejo agradecer a todos que lêem , escrevem, estimulam e  dizer que nunca desistam de seus sonhos mesmo que o desânimo se acerque às vezes. Isso é uma experiência minha, mas certamente cada um tem o seu jeitinho de enfrentar as dificuldades num projeto que se fez importante para sua vida. Só tenho certeza que devemos lutar pelos nossos ideais e como me disse uma escritora que já se foi, mas que admiro muito “batalhar”, “batalhar” sempre por nossas convicções. Aproveito para agradecer a você, Fernando, meu  parceiro de Jornal  o companheirismo e apoio e desejar a todos um belíssimo natal e um ano novo com muitas esperanças.

 

<> Dicionário da língua portuguesa em linha <> Conexão para traduções <>

 
 

INICIO

 Índice <><><><><><><><><><><><> Autores

 
 
 

Paris & Brasília: 25 de Dezembro de 2005

 


Analyse d'audience