Jornal’Ecos:
Vânia, onde nasceste? E como foi a tua infância?
Vânia: Nasci no Rio de Janeiro e morei sempre
em Copacabana. A
infância foi feliz e instigante em certos
aspectos. Principalmente quando ia para o bairro
da Gávea na casa de meu avô e me parecia um
lugar encantado. Ele era escritor, humanista,
jornalista, político, a casa estava sempre
cheia e eu podia satisfazer meu desejo de
aprender estimulando meus sonhos infantis, porém
audaciosos. Minha imaginação era grande e p
or
isso realizei muitas peripécias...
Gostava de brincar, passear, conhecer pessoas,
fazer toda espécie de evoluções em meus patins,
era curiosa demais o que às vezes até irritava
os adultos e lia demasiadamente além de minha
idade a ponto de ter ficado com sérias dores de
cabeça e o médico recomendado limites.
Efetivamente mesmo com a supervisão de meus pais
extrapolava “os limites” recomendados. Mas vi
também que no mundo havia pobreza, miséria e
fome o que muito me assustou quando comecei a
percebê-las.
No entanto o
sol foi sempre intenso e imaginava na minha
inocência que alguém podia transformá-lo para
melhor. Minha infância foi realmente muito
absorvente. E um dia, acho que dos mais tristes
de minha vida vi que as pessoas podiam também
ser violentas. Por isso mesmo reconheci que o
carinho e o amor eram as únicas formas de
combater certas atitudes. Grandes ensinamentos
me mostravam que os direitos e deveres deveriam
ser iguais, porque meu pai e meu avô tinham
concepções muito evoluídas. Nunca houve uma
frase de discriminação sobre homens e mulheres e
as mulheres eram enaltecidas por eles de um modo
veemente. Por isso cresci num lar em que a
feminilidade intensa e poder de sedução da
mulher não impediam, a cultura, independência,
luta pelos sonhos e ideais.
Jornal’Ecos:
Sei que começaste a escrever muito jovem, de 6
para 7 anos? Como aconteceu esta precoce
disposição para a escrita?
Vânia: Meu irmão mais velho entrou para o
colégio muito cedo como todos nós. Como ele
tinha hiperatividade, meu pai colocou um
professor particular e eu aos quatro anos pedi
para ficar assistindo. Quando vi estava lendo as
marcas dos eletrodomésticos de minha casa: Um
dia quando sentada à mesa do jantar, soletrei a
marca da geladeira, meus pais pensaram apenas
que eu tinha decorado. Como eu continuasse,
mandaram buscar um jornal e eu comecei a ler as
manchetes lenta, mas firmemente. Nem eu sei como
tudo começou. Quando percebi estava lendo. Aos
seis anos levei uma redação para o colégio e
minha professora viu. Não acreditou que eu
tivesse escrito e pediu que descrevesse um
quadro que ela tinha pendurado na parede. Só
assim se convenceu e aí passei a escrever sobre
tudo indiscriminadamente. E era chamada para
coordenar todos os movimentos do colégio que
incluísse literatura.
Jornal’Ecos: O
fato de escrever assiduamente tão cedo trouxe
alguma conseqüência de ordem existencial?
Vânia: Sem dúvida. À medida que escrevia e
queria ler mais e mais, fui notando em que
mundo vivia, a generosidade, o amor, a ternura e
uma ânsia imensa para realizar alguma coisa, sem
ser apenas brincar, estudar, viajar ou ter uma
vida tranqüila. Desejava realizar meus primeiros
sonhos e cismava muito pequena com as aventuras
que Monteiro Lobato descrevia. Antes de tudo
notei uma humanidade desigual, olhares tristes
de crianças, a deficiência que era discriminada
e comecei a me aproximar dessas pessoas como uma
necessidade física.
Jornal’Ecos:
Quais os primeiros autores que leste com afinco?
Vânia: Bem pequena li Monteiro Lobato. E em
seguida Érico Veríssimo, Machado de Assis, José
de Alencar, Cronin, Pearl Buch, Jorge Amado, Eça
de Queiroz, Dostoievski e muitos outros. Na
poesia, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de
Andrade, Pablo Neruda, Camões etc.
Jornal’Ecos: E
a tua família? Apoiava a tua ânsia de
transmitir?
Vânia: Minha família era formada de intelectuais
realmente, mesmo assim eles ficavam preocupados
com a quantidade de informações que eu queria
reter e tinham receio da minha ânsia de ler cada
vez mais, escrevendo nos momentos mais
inusitados, querendo realizar coisas não
próprias da minha idade.
Jornal’Ecos:
Tens algum modelo ou mestre
literário/intelectual e como transcorreu a tua
vida em família?
Vânia: Meu
grande mestre foi efetivamente meu avô. Eu o
admirava muito e costumava ficar extasiada
quando ele recebia seus discípulos e discorria
sobre os assuntos mais variados.
Mas claro que tive outros líderes principalmente
na literatura, filosofia e psiquiatria que eu
lia demasiadamente na enorme biblioteca de meu
pai.
Jornal’Ecos:
Algum facto ou revelação de uma qualquer
importância marcou a tua infância ou a
adolescência?
Vânia: Sim, a
certeza que somos todos absolutamente iguais, e
que só seríamos felizes nos doando em algum
sentido e sem cobranças. Tinha convicção que as
decepções existiriam sempre e eram passageiras.
E que a perseguição de nossos sonhos deveria ser
mantida em qualquer circunstância, sem o que a
vida não teria sentido. Mas principalmente tive
consciência da finitude da vida, porque perdi
meu irmão aos cinco anos de idade depois de
muito sofrimento. Presenciei tudo aos doze anos,
compartilhei desses momentos e escrevia e
pesquisava sobre esse aspecto de nossa
existência. Por isso sempre tive pressa de
realizar tudo. E cada vez mais isso se acentua.
Jornal’Ecos:
Em que colégio estudaste e como tudo transcorreu
nesse sector?
Vânia: Estudei
num colégio de origem francesa Sacré Coeur de
Marie e encontrei lá dentro apoio, amor, embora
a exigência do estudo e de certos princípios
fosse bastante severa.. Lá dentro tive
consciência de minhas aptidões. Estudávamos,
praticávamos esportes, fazíamos teatro, a música
era estimulada profundamente e pude desenvolver
meu amor ao teatro e principalmente à
literatura.
Jornal’Ecos:
Poderias falar das tuas composições, tanto em
prosa como em verso nos primeiros anos?
Vânia: Nos
primeiros anos a minha grande inclinação era a
prosa. Escrevia em todos os momentos da minha
vida e muitas vezes interrompia uma diversão e
era encontrada no escritório de meu pai
escrevendo. Divagava, sonhava e escrevia. Todos
os aspectos da minha vida, o que eu presenciava
e a minha imaginação exacerbada eram passados
para a literatura em longas páginas de prosa.
Amava estudar história e discorrer sobre seus
personagens, nossos antepassados, deixar no
papel minha dúvidas e incertezas quanto aos
valores da vida. Escrevia poesia, compunha meus
cantos com efusão, mas esses só comecei a
divulgar um pouco mais tarde.
Jornal’Ecos:
Sei que iniciaste tudo cedo na tua vida. A tua
filosofia de vida definiu-se cedo?
Vânia: Sim,
realizei as coisas básicas da vida muito cedo.
Casei-me e saí de casa criança ainda, contra a
vontade de meus pais, por isso tive que ser
forte e procurar dentro de mim muitas forças.
Minhas filhas nasceram quando eu era ainda muito
jovenzinha. Existiam amor e paixão em minha
vida, mas estava numa fase em que ainda
precisava do carinho especial de meus pais.
Compreendi então que a força real vem de dentro
de nós. E era lá que a procurava. A minha
filosofia era enfrentar todos os obstáculos que
me conduzissem a uma vida feliz. Mas para isso
comecei com mais força ainda a valorizar o amor,
a ternura, o desenvolver incessante da
literatura e compreender que durante essa viagem
terrena vamos lidar com pessoas diferentes e
pensamentos opostos e que isso devia nos
enriquecer. Pelo menos assim eu tentava. Mas
também a ser firme quando achava importante em
atitudes que até poderiam me fazer sofrer, mas
que eram necessárias.
Jornal’Ecos:
Nesse tempo da tua infância a inclinação social
Já era grande ? E como surgiu?
Vânia: Sim,
muito grande. Primeiramente porque muito
pequenina aos cinco ou seis anos e com a lenda
de papai Noel jamais compreendi porque as órfãs
que meu colégio mantinha não recebiam os mesmos
presentes maravilhosos que eu ou minhas
coleguinhas. E depois porque em Copacabana
comecei a prestar muita atenção aos mendigos,
deficientes e procurar entender o porquê dessa
diferença. Porque exatamente eu era eu e porque
tinha sido escolhida para nascer nessa família e
não na outra? Tornei-me amiga de uma menina
muito pobre e relutava com a sua condição
humilde no orfanato de um colégio rico,
exercendo atividades que eu achava que competia
a um adulto. Foi aí que tudo começou. Minha
avaliação do que acontecia nesse mundo e a
certeza que não podíamos ser indiferentes. Eu me
questionava desesperadamente, cismava e minha
mãe ficava preocupada com minhas idéias.
Jornal’Ecos:
Daí por diante como foi delineada a tua vida em
termos principalmente literários?
Vânia:
Escrevia demais. Trabalhava , estudava, cuidava
de minhas filhas e escrevia por vezes à noite
até de madrugada e manualmente. Escrevi três
romances que conservei no papel, sabendo das
dificuldades para publicá-los e também crônicas
e poesias. Escrevi em revistas e jornais,
recebia convites para palestras, mas não
conseguia publicar os livros. Até que um dia
senti uma dolorosa amargura quando vi que meus
romances tinham sido consumidos e não conseguia
encontrá-los até que os vi totalmente borrados
numa gaveta . Foi como se tivesse perdido um
ente muito e especialmente querido. Montei um
curso de línguas em Brasília para executivos e o
dirigi durante 10 anos, continuando a escrever
incessantemente e aprofundar-me no campo da
pesquisa . Comecei um estudo importante sobre
drogas, fiz pesquisa de campo e publiquei em
co-autoria com dois professores, um médico e um
advogado o “ Manual da saúde física e mental do
servidor público” , em seguida meu romance
“Laura “ vários trabalhos eletrônicos em poemas
destacando-se “Olhos Azuis” já em segunda edição
e os e-books “Acordes” “Eu me enterneço” “Esse
amor que é nosso”, “O caminho a seguir”,” Além
do Horizonte” e estou esperando para breve o
lançamento de “ternura”. Participei de
mais de 20
antologias entre as quais uma especificamente de
autores do meu site de literatura. Escrevi um
livro de poemas ainda inédito e publiquei
durante esse ano um livro de crônicas, um de
poesias e um infanto-juvenil que foram lançados
em Brasília, no Rio e será relançado na Livraria
Siciliano agora em janeiro de 2006. Fui
convidada por um canal de Brasília para dirigir
um programa de entrevistas convidando
psicólogos, médicos, escritores mas acabei não
aceitando porque a emissora não tinha condições
de bancar a estadia deles aqui.
Jornal’Ecos: A
internet exerceu força nas tuas actividades e o
que pensas dela como evolução e aprendizado?
Vânia: Realmente exerceu muita força. Antes de
entrar realmente na internet há oito anos e usar
o computador, acreditava que minha inspiração se
completasse nos dedos escrevendo com caneta e
diretamente para o papel. Não gostava sequer de
máquina de escrever. Usava-a, mas não com
entusiasmo da caneta. E quando resolvi aderir à
internet, não acreditava que fosse me acostumar.
Mas em uma semana estava totalmente apaixonada
por ela. A primeira pessoa com quem falei foi
Leila Miccolis que me deu completo apoio em
Blocos on line, um site maravilhoso cujo valor
reconhecido passei a amar. Quando mandei meu
primeiro texto foi imediatamente publicado e aí
não parei mais. Tinha acabado de publicar meu
primeiro livro e estava concluindo meu romance
“Laura”. Mas a internet me colocou em contato
com muita gente que amava a literatura e isso
foi muito bom.
Como evolução
e aprendizado, não creio que ela sozinha baste.
Mas é uma força e facilita a muita gente que não
tinha contato com a literatura a descobrir
aptidões pela facilidade de textos que se
apresentam e como complemento de um treinamento
assíduo.. São informações
em massa. Mas claro que
já deve haver uma base de conhecimentos para que
seja eficiente e atue como fonte de pesquisa e
informação.
A Internet, entretanto, facilitou imensamente a
divulgação de escritores talentosos e que não
conseguiam ver seus textos publicados. Essa
parte do meu trabalho é muito especial para mim
porque jamais seremos felizes sozinhos. E no
site Vânia Diniz todos caminham juntos e
evidenciados. Sinto-me imensamente feliz quando
atualizo a cada semana seus conteúdos. E vejo o
brilho de suas produções.
Jornal’Ecos:
Em relação ao nosso Jornal'Ecos, o que significa
em tua vida literária?
Vânia: O jornal'Ecos foi e está sendo um marco
em minha vida literária. Muitas vezes durante
sua elaboração, temos que ficar concentrados no
trabalho e quando o colocamos no ar, estamos
realmente exaustos, mas realizados. Começamos a
prepará-lo uma semana antes, pelos espaços que
têm que ser elaborados, espera de textos,
autores novos que vamos introduzir e todo um
trabalho meticuloso. Nesses dias ficamos quase
por conta do jornal, mas é uma alegria imensa,
curti-lo depois de atualizado. A revisão antes
de colocar no ar é rigorosa e temos que ficar
absorvidos na edição e preparação mas é
maravilhoso. Uma experiência que está sendo
salutar. E me realizando muito. Principalmente
porque a penetração dele está fantástica em
muitos países e principalmente no Brasil. E
temos a filosofia de unir literatura e a
concretização de idéias usando essa arte
magnífica da palavra.
Jornal’Ecos:
Publicaste este ano três livros. Como
conseguiste coordenar tantas actividades e qual
o teu maior ideal que esperas alcançar?
Vânia: Sim foi um ano de muito trabalho, mas
houve compensação absoluta.A coordenação de
minhas atividades se dá com muito rigor nos
horários, trabalhando muito e com especial
carinho e alegria. Estou fazendo o que amo. Meu
sonho mais constante é obter adeptos para minha
filosofia de vida e só o conseguirei com a
minha literatura. É usar essa ferramenta
belíssima e eficiente em prol de um mundo humano
maior e mais justo. E também, é claro ser lida,
deixando sementes para meus descendentes e
muitas pessoas. Não sei exatamente como consigo
trabalhar tanto, mas acho que só o amor ao que
faço seria capaz de consegui-lo.
Jornal’Ecos:
Qual a tua concepção em relação ao universo, e o
que sentes frente ao mistério da vida? É
realmente um mistério?
Vânia: Sim, é
um mistério e se não fosse não haveria a sedução
de viver a vida, esperar seus frutos, o dia de
amanhã e curtir acontecimentos absolutamente
inesperados. A minha concepção em relação ao
universo é que vivemos num lugar onde a natureza
e os seus efeitos transmitem uma energia que
ainda não sei precisar exatamente, mas que nos
revigora a cada momento difícil. Os sentimentos
que nos equilibram são frutos dessa natureza que
infelizmente está sendo transformada aos poucos
pela mão do homem. E sinto uma enorme fascinação
frente esse mistério não destituído por vezes de
medo e respeito profundos.
Jornal’Ecos:
Agora é tua vez de usar este espaço que o Jornal
oferece para falar aos seus leitores. Quais as
mensagens que pretendes transmitir?.
Vânia: Desejo
agradecer a todos que lêem , escrevem, estimulam
e dizer que nunca desistam de seus sonhos mesmo
que o desânimo se acerque às vezes. Isso é uma
experiência minha, mas certamente cada um tem o
seu jeitinho de enfrentar as dificuldades num
projeto que se fez importante para sua vida. Só
tenho certeza que devemos lutar pelos nossos
ideais e como me disse uma escritora que já se
foi, mas que admiro muito “batalhar”, “batalhar”
sempre por nossas convicções. Aproveito para
agradecer a você, Fernando, meu parceiro de Jornal o companheirismo e apoio e desejar a
todos um belíssimo natal e um ano novo com
muitas esperanças.