

30/05/2007- 30/05/2008
Vânia Moreira Diniz e Cristina Moreira Safadi
Cristina Moreira Safadi e Vânia Moreira Diniz
Nota Importante-
Essa foto de minha mãe (acima na imagem) foi exatamente no ano de nascimento da
minha irmã Cristina. Ela tinha 34 anos
e Cris era a sétima a nascer.
A lembrança mais remota que tenho dela é muito suave. Cabelos negros caídos sobre os ombros, vestido estampado, e olhos expressivos que me transmitiam segurança e amor.
Eu muita pequenina, descendo do ônibus escolar e
contemplando-a enquanto me segurava no colo, os cabelos muitos negros e a minha
alegria ao vê-la e admirá-la tão bela. Nunca poderei esquecer a primeira vez que
tomei consciência de sua presença altiva, ao olhar-me diretamente nos olhos, eu
tão pequenina, ela tão jovem.
Em minhas noites infantis, pedia a Deus que não lhe levasse antes de mim.
Parecia-me impossível viver sem a presença materna neste mundo. Assustava-me ver
crianças sem mães, analisando ser esta um dor insuportável. Isto me trazia medo.
Quantas vezes, angustiava-me quando tardava a chegar em casa depois de seus
passeios por Copacabana ou outra saída qualquer.
Diversas vezes ficávamos meu irmãos e eu com a babá enquanto meus pais iam se
divertir um pouco e a semi-obscuridade de meu quarto levava-me a desejar que
eles voltassem logo para que pudesse fechar os olhos com tranqüilidade e a
alegria quando ouvia o barulho da fechadura lá embaixo naquela imensa casa em
que fomos criados e a sensação de paz que se apoderava de mim.
Minha mãe era daquelas pessoas, cuja presença marcava o lugar em que estava. Isso não acontecia por uma característica forte, mas sim, pela tranqüilidade que transmitia além de seu semblante que raramente se apresentava agressivo.
.
Uma das maiores dores que sentia, em minha infância, era vê-la triste ou chorando. Fazia-o mais constantemente pela lembrança de nosso irmão que se foi ainda tão criança. Disse-me uma vez, que jamais passava um dia, sem lembrar de sua rápida passagem entre nós. E como doía naquela mulher, este fato! Sentia-me impotente e cobria-a de beijos, como para compensá-la de tal sofrimento.
Éramos muito diferentes, mas minha alma sempre esteve unida à dela e assim permanece até hoje. Ela se foi, mas trago em minha essência, sua natureza, seus pensamentos, a experiência de um convívio que não mais acontecerá.
Hoje passados tantos anos tudo isso me vem à mente com uma precisão impressionante, fazendo com que meu coração bata com emoção e também trazendo ao cenário presente, cenas em seus tão mínimos detalhes que quase acredito que estou vivendo a realidade.
Minha mãe era uma mulher forte, embora com aparência de dependência. Gerou oito
filhos e sempre esteve à frente da vida de cada um. Sentia-me protegida por ela.
Existiram momentos só nossos, em que a ela recorria como último amparo,
infalível e perene. Jamais me faltou. Destas noites, guardo uma recordação tão
terna que nunca sairá de meu coração.
Os anos passaram e tomei minha vida de adulta, também com filhos, trabalho, compromissos e muitas outras coisas. Gostaria de ter vivido mais, muito mais com minha mãe.
Tenho plena consciência de que se minha mãe pudesse estar agora aqui, procuraria curtir cada pedaço de nossas vidas mesmo com compromissos a me cercar, mas agradeço o privilégio de ter vivido com ela durante todos esses anos.
Admirei durante toda a minha vida sua nobreza, o pensamento inteiramente lúcido,
a voz harmoniosa e incrivelmente jovem, a dicção perfeita, a inteligência lógica
e principalmente o carisma que sempre exerceu não só em família como fora dela
o que me dava a certeza que a mulher pode se impor em qualquer circunstância.
Os cabelos de minha mãe embranqueceram quase completamente, embora existissem
muitos fios pretos e eram extremamente bonitos até o fim porque, além de tudo,
nunca receberam nenhum laivo de pintura. Ela foi na velhice, uma bela mulher,
elegante, de porte ereto e andar firme, apenas seus olhos antes brilhantes
mantinham uma melancolia natural pela perda de meu pai e de três filhos que se
foram prematuramente.
Uma vez ouvi dizer que as paixões aumentam com a ausência. Não concordo. Elas aparecem, dão sinal de sua existência, mostram que certas pessoas nunca irão embora. É isto que vivo hoje. Uma presença constante, uma saudade eterna, o desejo de retornar, a angústia de uma partida.
Enquanto reflito sobre tudo isso as reminiscências se impõem com tanta
objetividade, que sinto o barulho ensurdecedor da casa em que nasci, com o grito
e as brincadeiras de todos nós. Lá fora, na Rua Barata Ribeiro, uma das mais
movimentadas de Copacabana, os carros passavam em disparada e buzinando,
enquanto eu sonhava com as músicas tocadas e os gritos de meu próprio coração,
achando que tudo se manteria sem o passar inexorável do tempo.
Se um dia puder estar diante de Deus, com direito a um pedido, certamente um dos mais importantes seria: mais um momento com minha mãe. Sinto falta dos gestos não realizados e das palavras não proferidas, que explodem em meu coração. Precisava olhar aqueles olhos, sentir mais uma vez o calor de suas mãos, chorar em seu ombro e ouvir: “Chore não, minha filha!”.
Um ano sem minha mãe, o tempo parece longo demais e no entanto eu a sinto como se tivesse estado com ela ontem. .Um ano sem minha mãe, mas ao mesmo tempo, sua presença nesse período foi mais forte, terna, doce e consciente do que todos os anos que vivemos atrás...