1)Vânia& Internet
a)como você começou a
escrever na Internet?
Acessei Blocos online por acaso e enviei
um texto para lá. Leila Miccolis pediu-me imediatamente
para publicá-lo. E então foi uma roda vida. Outros sites
foram me conhecendo, publicando meus escritos.Tive muita
sorte. Ao mesmo tempo estava publicando meu Romance
Laura e resolvi montar meu site nessa época embora ainda
não tivesse um domínio próprio. Acho que minha escalada
na internet
foi rápida, e tive como sempre uma estrela a me
proteger... risos.
b)Desde quando?
Desde 1998. Um dos meus irmãos acabara de
morrer prematuramente e eu embora trabalhando
incessantemente e escrevendo muito estava quase num
processo de depressão.A internet me fascinou e foi uma
força extraordinária nessa época.
c)Ser um escritor na Internet tem que vantagens, a seu
ver?
A facilidade de que as pessoas nos
leiam sem custos e possamos sentir as suas reações,
freqüentar bons grupos de literatura e principalmente
divulgar incessantemente.Viajar por um mundo realmente
diferente sem precisar sair para isso.
d)E desvantagens, quais v percebe?
Acho que a internet tem algumas
desvantagens se você não souber utilizar o lado bom que
ela nos proporciona.Ali está um mundo exatamente igual
ao real e só precisamos ter um jogo de cintura para
enfrentar, compreender e concentrar-nos em nossos
objetivos.Depois de mais de 8 anos de convívio virtual sei
discernir exatamente as reações das pessoas positivas ou
negativas mesmo não olhando como gosto de fazer: "Olhos
nos olhos"
.f)Enquanto muitos pensam
apenas em promover-se, vc oferece hospedagem a inúmeros
internautas, de pessoas renomadas, por ex, o Artur da
Távola, até inéditos, do autor brasileiro, ao autor
português. As pessoas costumam reconhecer tal mérito, vc
ser desprendida?
Nem sempre... risos. Há pessoas que
esquecem que não faço tudo isso por obrigação, mas
simplesmente por muito amor, sem interesse e visando
apenas divulgar quem tem valor e talento.Amo
divulgar tanto um escritor famoso como aquele que sonha
os mesmos sonhos que sonhei um dia e continuo
sonhando.Realizar sonhos de outras pessoas é a coisa
mais gratificante que experimento.
Mas nunca faço nem promovo alguém pensando em
reconhecimento. Na verdade aprendi desde de há muito e
na vida real que se formos refletir sobre isso não
daríamos apoio a ninguém e eu não consigo ser assim. Por
isso o que me importa é fazer a minha parte. É verdade
que mesmo tendo essa idéia bem objetiva, as decepções
aparecem mas não me incomodo com isso. Em compensação
costumo olhar com muito carinho inúmeras pessoas que me
enternecem com seus gestos, agradecimentos e amizade. E
além de tudo costumo dizer que ninguém é feliz sozinho.
Adoro ver as pessoas se realizarem e poder caminhar lado
a lado com meus colegas escritores vibrando com seus
sucessos.Nas atualizações prefiro deixar de atualizar
minha própria coluna a faltar com eles. Vibro com as divulgações e vitórias de todos eles.
2)Vânia &Literatura
a)Quais os seus autores prediletos(famosos)?
Machado de Assis, José de Alencar, Jorge
Amado, Vinicius de Morais Graciliano Ramos, Pearl Buck,
Dostoievski , Camus, e muitos outros.
b)Se não fosse poetisa,escritora e pesquisadora, o que
mais poderia ser?
Não viveria sem a literatura. Acredito
que seria impossível, mas numa hipótese seria artista de
teatro. Já atuei muitas vezes, amo o teatro mas na minha
vida atual não encontro tempo para dedicar-me também ao
palco.
c)Como é esse seu trabalho contra a fome? Por que o
começou? Quando?
Comecei muito pequena. Nasci no Rio em
Copacabana e via muitos mendigos. Ao passar na avenida
Copacabana minha mãe ficava em transe quando me via
"batendo papo" com eles. Subi ao morro aos 11 anos para
dar aula para crianças de minha idade que não puderam
ser alfabetizadas e novamente minha mãe ficava em pânico
mesmo sabendo que ia com pessoas mais velhas. Lá
comparecia três vezes por semana e encontrei um mundo
diferente do meu. Trocávamos experiências.Eles se
encantavam com a minha realidade e eu com a deles. Era
tratada com carinho imenso quando chegava ao Morro Santa
Marta e todos me protegiam.
Jamais deixei de me dedicar a essa campanha onde quer
que eu estivesse. Meu pai costumava dizer sorrindo que
eu jamais resolveria um problema tão complexo e eu lhe
respondia seriamente que se cada um fizesse o bem a quem
estivesse a seu lado de uma forma ou outra quase todos
seriam favorecidos.Ajo assim até hoje e continuo a
aprender lições importantes para minha vida.
d)Por que vc tem um grupo chamado "Adultos e Crianças
Especiais"?
Porque acompanhei meu pai em muitas
instituições de crianças com necessidades especiais e um dia conheci uma criança da
minha idade e presenciei uma crise que me fez pensar que
jamais poderia esquecer aquele momento e a única forma
de ter um pouco de paz seria fazendo, visitando, amando
e se tivesse dinheiro suficiente criando uma fundação
para elas. Essa criança cresceu, é claro e até hoje a
visito: Ela nasceu com a síndrome de regressão e quando
a crise a acomete regride aos 4 anos de idade, tem que ser
internada, é uma das cenas mais tristes que jamais
presenciei em minha vida.Convivo com outras formas
de diferença como a síndrome de down e muitas outras. Elas são muito especiais
para mim no sentido mais nobre e afetuoso .
Criei o grupo para que pudesse dar conforto aos pais
principalmente nessa hora em que ficam perdidos com a
notícia que lhes é dada ou que eles percebem e para
adultos especiais que
sofrem preconceitos às vezes na própria família.
e)O que pensa da inclusão social?
A inclusão social é a única forma de ser
praticada a dignidade humana.Os projetos, no entanto que
aparecem, não contribuem efetivamente para isso. O mundo
jamais será compassivo e humano sem a inclusão social.
f)Prefere Poesia ou Prosa, para ler, para escrever?
Prefiro tudo para ler ou escrever.Não
viveria e me faltaria o "oxigênio" se não pudesse
incessantemente praticar essas duas coisas.Reconheço que
sou uma leitora e escritora totalmente compulsiva.Os
poemas tem suas horas especiais e a prosa a qualquer
momento e em qualquer circunstância
g) A poesia é necessária?
A poesia é essencial. Dela se tira
elementos para acreditar na vida, na qualidade de vida e
nunca posso esquecer que "minha secretária" na minha
casa diz que "se sente mais feliz mesmo que não entenda"
quando lê um poema pela manhã ou quando me escuta
declamar.É uma pessoa simples mas sente a mágica da
poesia quando a lê.
h)Por que gosta de escrever para crianças? Por que seu
pseudônimo Ciganinha?
Na verdade gosto de escrever ainda mais
de crianças. Gosto de falar e sentir suas alminhas e
entender o que naquele momento elas estão querendo ou
nas suas necessidades que os adultos dificilmente
compreendem ou explicam..Monteiro Lobato foi meu grande
ídolo quando era criança, li aos 9 anos sua coleção
inteira desde o "sitio do Pica-pau amarelo", passando por
todos os outros livros como "Geografia de Dona Benta",
"O poço do Visconde", a gramática da "Emilia", todos até
chegar aos "Doze trabalhos de Hércules" e acho que isso
me marcou profundamente. Gostaria que as crianças
sentissem tudo que senti ao ler livros feito para elas.
O meu pseudônimo Ciganinha foi interessante. Eu tinha
mais ou menos uns três anos e passeava com minha babá no
jardim Botânico um bairro do Rio, muito lindo. E gostava
desde pequena de pulseirinhas , cordões, sempre fui
muito "vaidosa", até hoje. Ao passar um casal mais velho
por essa rua tranqüila que eu brincava muito, a senhora
me apontou para o marido dizendo: "Olhe que linda
ciganinha" E ambos começaram a conversar comigo e eu
muito convencida a responder , feliz porque achava que
estava "abafando"...risos
3)Vânia e família
a)Como era sua infância?
Maravilhosa porque vivi no meio de
intelectuais, artistas, políticos,na casa de meu avô
Raymundo de Monte Arraes que era escritor, político,
jornalista advogado e muito conhecido na época. E era
uma paraíso que me fascinava. Lá conheci Raquel de
Queiroz, eu bem pequenina e vim reencontrá-la quando já
era moça numa visita que ela fez à Brasília . Na casa de
meus pais também era assim.Gostava de brincar, patinava
maravilhosamente e fazíamos saraus eu e meu irmão poeta
Francisco Sérgio. Declamando, ganhei vários prêmios, mas
tinha no colégio o jornal que eu era a redatora. Então
das Brincadeiras aos escritos era apenas um pulo.
Principalmente amava ficar entre os adultos,com tantas
pessoas sedutoras que freqüentavam a casa. Passeei
muito, viajei, aprendi, era extremamente curiosa, acho
que meu conhecimento geral, apesar de ter sido criada
num colégio francês exigente foi plasmado muito mais em
casa do que no próprio colégio. Minha avó paterna foi
criada na Europa no mesmo colégio que estudei mas em
Londres e ela, minha avó Isa foi uma fonte de cultura
para mim.Meu pai era moderno mas não permitia nenhuma
desatenção aos estudos. Eu podia brincar, namorar,
divertir-me, pular carnaval nos dias dessa festa que até
hoje gosto demais. Mas se vacilava nos estudos estava
perdida. Tanto eu como meus irmãos. Tivemos conflitos
quando encenava minhas peças de teatro.
Mas claro que houve o lado triste quando perdi meu irmão
aos cinco anos de idade ou quando me casei contra a
vontade deles aos quinze anos. Tive uma puberdade e
adolescência bastante conturbada
b) Que relações familiares e com quem a marcaram e
impulsionaram para ser como é?
Meu avô foi meu grande guru. Quando ele
lançava seus livros , mandava publicar os pequenos
livros infantis que eu escrevia e eu me sentia
prestigiada... risos Ele era um humanista, um
intelectual e me chamava sempre de "minha herdeira,
minha pequena escritora". Assim me apresentava a todos
que iam à sua casa e minha família era enorme .Seu pai
foi assassinado por problemas políticos e mesmo assim
ele recebia o filho desse homem que encontrara
casualmente em sua vida política entre seus
correligionários. Uma cena maravilhosa que presenciei na
minha infância foi meu avô oferecer um emprego a um
ladrão que havia invadido sua casa.
Só de irmãos éramos oito mas meu pai também exerceu
grande influência em minha vida. Todos os conceitos de
liberdade, humanismo, amor ao próximo, defesa dos menos
favorecidos, foi certamente ali que eu aprendi. Ele
costumava praticar sua profissão de advogado para
subsistir mas a de psiquiatra certamente para ajudar às
pessoas, sempre.
c)Fale um pouquinho de algumas pessoas significativas em
sua família,pois sempre fala do pai, do avô, dos irmãos.
Minha família era como já disse de
intelectuais e literatos, médicos, advogados,
jornalistas. Eles se reuniam na minha casa ou do meu avô
e o ex-governador Miguel Arraes morou e estudou na casa
de meu avô num tempo que eu não era nascida.Minha
família era Arraes de Alencar e soube que José de
Alencar o grande romancista era nosso parente. Por essa
época quando o lia , exultava mais ainda.Meu tio Frota
Moreira irmão de meu pai, foi um grande líder, Deputado
em São Paulo tinha idéias que se parecem muito com as
minhas hoje mas morreu cedo. E Vinicius de Moraes foi
alguém que influenciou minha vida toda, já que era amigo
de meu pai. Uma pessoa que eu também tinha grande
admiração era o meu médico pediatra, pai e amigo, Dr. Odilon de Andrade e o advogado Evaristo de Morais
Filho. Nessa roda que freqüentava as casas de meu avô e
meu pai aprendi e ouvi muita coisa e era uma glória
quando era permitido que eu saísse com os adultos para
os restaurantes em Copacabana e ouvisse fascinada os
debates e discussões.Mas teve alguém que também foi
muito importante em minha vida. Meu tio Arraes, Miguel
Alfredo Arraes de Alencar que foi reformado pela
revolução de 1964 e quando pequena o via afirmando que
era comunista para quem quisesse ouvir mesmo com a
repressão. Ele me salvou no Leblon quando quase me
afoguei nas águas do mar que sempre amei e tinha uma
admiração imensa por esse homem que segundo me contavam,
com uma carreira maravilhosa no exército teve que aos 36
anos desfazer de todos os seus sonhos, esteve preso
incomunicável e sentia o país injustiçado.
d)defina "os Arraes"
Lutadores, inteligentes e
empreendedores.
Os "Arraes" eram e são profundamente inteligentes ,de
idéias arejadas , vivi com eles toda a minha vida e até
hoje tenho um tio aqui em Brasília, e meu primo Virgílio
Arraes escreve no Jornal/ Ecos. Meu nome de solteira era
Vânia Arraes Moreira e eu me orgulhava desse nome mas
tirei-o quando casei para não ficar muito grande . Com
os Arraes, cujo patriarca, vamos dizer assim era meu avô
aprendi lições extraordinárias não só politicamente
falando, mas de conceitos e verdades. Nunca conheci
ninguém da minha família Arraes que não fosse
profundamente inteligente e as reuniões com eles eram e
são deliciosas. As histórias que contam cheias de
espírito me fazem rir às gargalhadas e ao mesmo tempo
induzem á muita reflexão. São uns combatedores,
dispostos sempre a lutar ininterruptamente por ideais à
frente. Absolutamente vanguardeiros
4)Se pudesse modificar
algo ou alguém para que o mundo fosse melhor, o que
seria e por que?
O objetivo seria me tornar cada vez
menos egoísta . Esse é um ideal que se conseguíssemos
praticar teríamos um mundo melhor e mais justo. Mas
começando de mim mesma. Isso porque sem o egoísmo e
sendo mais altruísta seria muito mais fácil eliminar
outras "pestes" que inundam o planeta e sobressair
potencialidades que certamente enfatizaria a
solidariedade e o amor.Às vezes me deparo com um
sentimento de impotência que me faz profundamente
triste. Não acho que "modificar alguém" resolvesse mas
conscientizar desde as primeiros anos as crianças é uma
solução mais viável e universal. E isso significaria
reformular tudo em volta.
5)Defina-se:
Quem é Vânia Diniz?
Alguém que ama fanaticamente a
literatura, queria ver um mundo mais justo e menos
sofredor e desde os seis anos sonha demais. Viciada em
sonhos... Mas que vibra intensamente com as pequenas
coisas da vida. risos E que certamente é apenas uma
aprendiz em todas as categorias. E se orgulha desse
aprendizado.
Obrigada, Ciganinha dos
olhos verdes!!
Obrigada querida amiga Clevane por ter
me proporcionado falar de minha vida e rememorar coisas
tão especiais."