Virgínia Fulber

Algumas Considerações sobre 
"Conhece-te a si mesmo"

" Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la em lugar     escondido

ou debaixo do alqueire, e sim sobre o candelabro, a fim de  que os que
entram vejam a luz. A lâmpada do corpo é o teu olho.     Se teu      olho
estiver são, todo o teu corpo ficará também iluminado; mas se   ele  for
mau, teu corpo também ficará escuro. Por isso, vê bem se a luz que há
em ti não é treva. Portanto, se todo o teu corpo está iluminado,     sem
parte alguma tenebrosa, estarás     todo iluminado como a     lâmpada,

quando te ilumina com seu fulgor." (Lc:11, "Dois ditos sobre a lâmpada").

     Em determinado momento da existência  nos perguntamos    quem  sou eu ? Lamentavelmente, muitos  iniciam o   "olhar para o céu" apenas    na   angústia, originárias das crises de identidade, e que  se apresenta em várias  fases da vida. Porém, na idade adulta interessa prestar atenção ao  EU que anseia por   ser o si mesmo .Sabemos que somos o resultado de uma trama sócio-cultural e genética, mas da investigação   compromissada com      a verdade surgem os fantasmas do passado, da infância.Nesta oportunidade o medo deve ser encarado e novamente

a infância    nos é bastante útil. Para tanto, retomar o"Herói" que já nos "visitou"

é fundamental,  este  pequeno guerreiro que  nos guia na senda do auto conhecimento .

     Hoje, é bastante    comum nas    terapias    que    integram o        Xamanismo, conhecimentos dos povos Silviculas , indicar-se o encontro com "o      animal de poder "  e,   que este guie o paciente. Porém,    o  " homem de poder " já   nos foi apresentado na infância ,       nas fábulas através dos heróis (1),      bem como na Mitologia.       Acredito de muito valor reencontrar com    o "Herói" em    nós de nossa   infância e pedir ajuda à ele, neste  momento em que o medo de  continuar investigando se apresenta.

     Tenho observado que as pessoas não se vêem objetivamente, primeiro nível da couraça muscular do caráter em W. Reich. Integramos à nossa "visão "a visão dos nossos antepassados e primeiros contatos íntimos na     primeira       infância,  que vieram distorcer nossa visão de mundo e do si mesmo.       Importa pois, verificar, questionar a quem está em busca duma vida   mais consciente       questões de teor íntimo, considerando:De quem são os olhos com os quais me vejo ante ao  espelho ?

Algumas pessoas crêem-se inadequadas fisicamente por terem sido     comparadas, terem ouvido comparações , ou mesmo observações tais como: fulano é  bonitinho, magro, alto, cabelos longos, corajoso, cuidadoso,    educadinho, etc.   Observações que refletem o     olhar de        quem    julga o    que   a     criança         faz,   apenas objetivamente, sem intuir a      motivação íntima, o   desejo de revelar algo que não passa pela consciência moral, ou pela Razão.

     Tenho   observado  pessoas muito bonitas  que apesar dos elogios recebidos,    mesmo prêmios , neste sentido de aprovação estética, não se reconhecerem   como "aceitáveis, bonitas, e mesmo   além da média ,        pois em seu espelho "mágico", primitivo, ainda há uma "bruxa" que responde – "não estás      nos meus padrões" , entendendo-se que "meus padrões" são aqueles internalizados pela     imagem dos "velhos fantasmas", extremamente bonitos ou exigentes   quanto a       Estética . E a aceitação que buscam é sempre ainda,         apesar de alguns terem pais falecidos, a destes !  Isto estende-se à outros        aspectos da experiência    existencial destas pessoas. Independente dos "modelos" estéticos propostos pela mídia,      pessoas que não são vulneráveis ao preestabelecido,      pois construíram     a auto     estima "suficientemente  boa" (para lembrar a brilhante observação de Donald Winnicott). E esta advém, em grande parte, do modo como foram tratadas   na        infância, do conhecimento dos adultos que dela cuidaram,    da interferência das opiniões sobre a construção       do imaginário infantil.    Precisam, assim, da aprovação constante daqueles a quem amam e admiram.            Outras observações negativas quanto ao comportamento são determinantes no "mal estar " que já se apresentava   na antiga Grécia através da tragédia grega, e que em Freud vimos      derivar-se do    conflito entre o Ego, Id e     Super Ego ( Mal Estar  na  Civilização) que         atormentará o indivíduo   em sua existência em      sociedade . Conflito este que   está na base das neuroses, depressões e pânicos.

     Nós, heróis, tal qual os heróis da antiguidade,            precisamos   conviver com o conflito de ter que fazer   escolhas que implicam em servir à sociedade ( polis) ou aos "céus". Neste conflito há sempre alguém (ou algo) a abandonar, para alcançar o si mesmo, entregar-se aos "céus" e      sofrer       o desprezo,    indiferença  do meio mundano ou entregar-se à sociedade, confundindo-se com os outros.

     Penso que hoje servir às Leis do "céu de si mesmo" é   este encontro com o Self, o Ser, estar em conformidade com a sua própria    natureza        em seu devir , num retorno. Não podemos servir à dois senhores !   O Ego não pode ser abandonado,  e sim reconhecido, conforme o conhecimento nas obras orientais.    E no exemplo de Jesus que "desligou-se muito cedo da autoridade dos pais, sendo assim que  seguiu em sua peregrinação   , por sua própria       vocação,  sem           desrespeito,   sem desobediência, sem medo de errar, sem afronta ao mundo.

     A passagem bíblica que relata o medo, que Jesus, como homem, também sentia, está descrita na oração no monte da Oliveiras, onde foi preso. A angustia de Jesus face à prisão e à morte na cruz é claramente relatada em Lucas.

     Pais que aceitam em seus     filhos talentos distintos dos seus estão contribuindo para a saúde física e mental de seus filhos, bem como       para uma sociedade mais humana e justa. A postura verdadeira de cada um de            nós face à sociedade  é aquela centrada no "si mesmo",          construído sobre as bases da compreensão  e da liberdade de agir.

     De quem são os medos que me atormentam ?

     Esta é uma segunda questão que penso  crucial ,      "Eu"      tenho realmente tal "medo "? ou estes medos me foram impostos?        Olhar sobre os medos materno/ paterno (falta de fé) neste momento é interessante, para   distinguir entre os medos impostos os medos necessários diante da aventura "heróica" do existir.

     " De quem são os valores que cultivo? Quem são meus "senhores"?

     Deixo estas questões àqueles que ainda não se a fizeram.  E a lembrança de que "olhar para o Céu" é um exemplo de dedicação constante      e  ininterrupta que nos deixou Jesus, fonte da luz que ilumina a vida, do olhar sobre a experiência.

     "Jesus orava de madrugada. Subia ao monte mais solitário e orava sozinho, como ele gostava. Também foi assim com algumas curas, onde os enfermos eram levados ao silêncio e ao afastamento do mundo."

     "Quanto ao "olhar o mundo", Jesus disse o que significa, na passagem  em que algumas crianças, na ânsia de vê-lo de perto, foram barradas pelos discípulos, para que não     incomodassem   o Mestre:    "Deixai vir a        mim os pequenos, não os incomodeis, pois deles é o Reino de Deus. em verdade vos digo, aquele      que não ver o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele" (Lc:18)

     Jesus iluminou seu corpo terreno com o amor ao mundo,        com a dedicação e estando conosco como criança,        como alguém que não aceita a descrição que os outros fizeram, faz questão de ver com seus próprios olhos.

                                    Virgínia Fulber de Além Mar Dez/2004

Indico as obras de James Hillman, Psicologia Junguiana

Meus agradecimentos à amiga Miriam Lemos (Psicologa, RJ)      que me auxiliou ,pois fez algumas incursões em teologia, orientada por dois pastores, um dos quais falava inúmeras línguas e a ensinou a ler alguns trechos da Bíblia, muito     traídos pelas traduções, agradeço a amizade e colaboração nas passagens Bíblicas no texto incluídas. Para observações acerca dos cuidados maternos esta indica a obra Margareth Mahler, que reúne além de um incrível detalhamento das experiências mãe-filho, dados antropológicos de valor

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Malito vivamf@yahoo.com.br

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