Virgínia Fulber

Devir da Mulher Nua
"Pão e Rosas"

     Ela estava  nua, tão nua quanto pode      ser uma  mulher sem seus  brincos  e o esmalte nas unhas. Sua pele inalava o aroma das   maçãs vermelhas, argentinas, daquelas que vinham embaladas   em papel de seda azul,  azul também  o par de seus  olhos  nos quais habitavam   a candura dum recital ao    ar livre  num    anoitecer   duma      primavera imprecisa . Imprecisas,  indecisas também  eram suas mãos tais como adoráveis gaivotas ao    luar, delas, estendidas,  escorriam uma  ânsia de poesia invertida que à      trouxesse de volta à sala de estar.

     Duas contas esboçavam uma lembrança , frente  à veneziana ,semi aberta, as rendas       do     cortinado   alargavam-se em sorriso triste...            Pequenos pés tão nus   e alvos como         podem   ser os pés de uma    mulher, sem esmalte nas  unhas, descalços e abandonados  ao banho de estrelas duma noite qualquer .

     Tinha 24 anos , um    vestido branco     de linho no       armário , um colar de pérolas no porta jóias, um anel       de brilhantes  também, um estojo   com  colônia de rosas e uma  passagem de avião  na mesinha do telefone que diante à  nudez       nada mais significavam , o vestido, anel, colar ou a colônia adocicada ,perdido olhar a fizera enternecer-se do despir-se ante o espelho da vida de ilusões e passageiras  perdidas decisões .  Haveria   de libertar-se das coisas  e  Fábulas   infantis . Da  vida  queria as mais nuas, as mais suas !

      Desligou o telefone e durante aquela     semana tomou   banhos de  espuma, bebeu água mineral ,das frutas sorveu a fragrância   e sabor ,   cobriu os espelhos da     casa,          ouviu o canto    dos    pássaros ao   amanhecer,      dançou ao acenar de todos    os Pôr de Sóis  .  Comeu  seu pão, viu uma rosa        as pétalas         abrir e de sorriso vestiu-se !

Semeou         margaridas   na floreira  não       trabalhou.        A solidão domesticou? acreditava ,a culpa e o medo  desta decisão crua haveria    de resolver se já não as havia ultrapassado ... Pensava...

     Enfim,      tirou férias e  não viajou !     Entretanto  iniciou  a percorrer um território desconhecido .

     E... desta vez , ainda não se casou ! 

     Reconhecida potência e    ânsia de  mais        viver ,lançada ao seu  devir       descansada,        espreguiçou-se     demorada,        natural  e deliciosamente   nua e sua .


                         *Dia 08 de março de 1908, mais de 14 mil mulheres marcharam nas ruas de Nova Iorque: reivindicaram o mesmo         que as operárias no ano de 1857, (greve por redução de carga  horária na época), bem como o direito de voto. Caminhavam com o slogan "Pão e Rosas",                  em que o pão simbolizava a estabilidade econômica e as rosas uma         melhor qualidade de vida  . Em 1910, numa conferência internacional de mulheres  realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem            àquelas mulheres,       comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher".

Virgínia F. de Além Mar   26/11/2004

http://vicamf.multiply.com/journal

 vicamf@yahoo.com.br

 

voltar