Virgínia Fulber

Do Dizer Que Já Não Cala... Sobrevive!

                     

          "No começo dos flagelos e quando eles terminam,

           faz-se sempre um pouco de retórica. No primeiro caso,

           não se perdeu ainda o hábito, e no segundo, ele já retornou.

           É no momento da desgraça que a gente se habitua à verdade,

           quer dizer, ao silêncio. Esperemos".(A. Camus A Peste )

 

    Como os Albatrozes alguns sentimentos, hábitos e valores estariam em

extinção?

     As palavras simples, as mais puras expressões dos sentimentos na correria

da vida moderna não encontram acolhida, o tempo dedicado a escuta cada

vez mais raro,nos lares, nas escolas, esquinas, nos corredores discursos vazios

de sentido ou carregados  de fria erudição. Perdeu-se o hábito de sentar-nos

em silêncio,dar o tempo necessário ao dizer que já não cala em cada corpo

que estremece e, transborda em vida, desejo de pronunciar seu grito de Albatroz...

     Encontramo-nos na era das comunicações, a velocidade impera, requer

Síntese objetividade, mas como chegar a síntese em um discurso sem a escuta

prévia da verborragia que  precisa sangrar ... Ais que o poeta espreitador do

silêncio captura, ais que a literatura abriga, nos dizeres simples de espanto e
admiração á própria  condição humana...

     Não nos é ensinados nas escolas e nos lares que as obras de arte antes de

serem expostas passaram por processos, recortes, muito suor, aflições e erros... 

     Quanto tempo ainda emprestamos à frugal escuta ao escritor ou ao

ouvir estórias do cotidiano, dos mais humanos sentimentos, erros,buscas  tão

comuns à cada um ?

     Cabe ao olhar treinado observar o vôo destemido?  Ou seria no resgate

dum viver mais arejado,num desaprender  um pouco a severidade, recuperar

o próprio tempo da escuta que contém o desejo de compreender, de assimilar

a beleza das tormentas,delas recuperar a força do alçar-se em relâmpagos,

flashes e dizer simplesmente com coragem de inovar linguagem escuta e

pensamentos ? Coragem de errar um pouco, de não desistir ante ao olhar ácido

e desencorajador de certos mestres que fixam-se nos modelos e preconceitos,

transferindo seus medos,angústias mesmo que  inconscientemente...   

     Ouvir silêncios, interpretar doçuras nos rostos, sem vista que desliza sobre

o outro atentamente, requer o exercício de aprender a dizer e de ouvir o que não

cala ...Ouvir ( ler) atentamente a si no outro, nos intervalos ...

     Seria o tempo dedicado às leituras, à música, ‘a Poesia, ou ainda às crianças e

ao povo em sua diferença o que viria favorecer o entendimento entre os não poetas que sufocam-se mutuamente ? 

 

     Ouvindo Ária – Cantilena – Bachianas n.5 de Heitor Villa-Lobos

na simplicidade desta  apresentação onde a riqueza de sentimentos e capacidade

de expressá-los põe-me a saudar-vos  Albatrozes e demais sobreviventes...  

 virgínia além mar  11 julho 2007               

 'Se, com Spinoza, entendemos por Ética a determinação de estratégias de

 ação, nossa época de hipertecnificação defronta-se com dilemas éticos ingentes. Selecionar valores que favoreçam a vida, redefinir o sentido do que é ser humano - eis o desafio que nos cabe enfrentar. ' [Luiz Alberto Oliveira físico, doutor em Cosmologia, Prof. De Filosofia da Ciência RJ             

foto 1>Pegadas do albatroz

Foto 2> Vôo do Albatroz

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