Virgínia Fulber

Embriagai-vos De Infância

          “o pensamento não é coisa de especialistas,mas um exercício de vida.” M.Foucault

     Não há receitas prontas , o jogo em andamento cria possibilidades, o jogador disposto ao seu

 “devir infância” assume a surpresa do instante ,numa poésis de vida , o jogo de olhares sobre  as

Imagens  recria , reinaugura o caminho, caminhar e caminhante.Pela potência de          cada um

abrem-se linhas de fuga que a partir do momento desdobram-se em novas       formas imanentes,

desejos libertos no  brincar. Ao experimentar a novidade como na resposta “alegre “ de Deleuze:

“criar “ eis a única proposta ao novo homem .Modos de existência   mais livres mais potentes que atravessem e deixem livres estas jovens                               potências que estão  em constante experimentação.Penso que aprenderemos com as crianças   o “novo olhar”e, mais que     educar

pais e educadores  precisam aprender ou reaprender a brincar.    

 “De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição do conhecimento e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho

daquele que conhece? Existem momentos na vida em que a questão de saber se

pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que

se vê é indispensável para continuar a olhar e a refletir.” Foucault

O sucateamento contemporâneo da humanidade  mais-do-que-impõe a questão:

o que pode o pensamento contra todas as forças que, ao nos atravessarem,   nos querem fracos, tristes, servos e tolos?
Deleuze não cessou de dar a essa pergunta inquietante uma resposta alegre: criar.
Quer dizer: o saber nunca é abstrato.
Ele inventa e implica um estilo de vida, uma maneira de viver, uma ética; ou, mais radicalmente, uma estética, estética da existência ou arte de si mesmo.      A vida

como obra de arte, o filósofo (o intelectual, o    cientista, o artista) como grandes estilistas do agora.
Para o pensador francês, o pensamento não é coisa de especialistas, mas          um exercício de vida.
Os conceitos funcionarão nele como cores, sons, como imagens. Como  intensidades

que convém ou não, que atravessam o sujeito-que-quer-conhecer ou não,        que conectam com alguma estratégia, interesse ou paixão, ou sequer terão interesse.

Assim, a única pergunta é se o que se lê nos convém, nos afeta,             quer dizer, aumenta nossa potência, potência de agir, de resistir, de viver (na prática de uma ética não-fascista), nossa potência de criar, enfim.
É só deste modo que as questões relevantes podem (re)aparecer:
Como ser um homem livre?
Como estar à altura do que nos acontece?
Como trair a própria classe, raça, pátria, natureza?
Como fazer da vida uma força de experimentação, não de demolição?
Como substituir a necessidade de ser amado pela potência de amar?
Como devolver ao desejo sua força de conexão e de subversão?
Como dar ao pensamento velocidade absoluta, e fazer dele uma máquina de    guerra apta a combater os aparelhos de captura, chamem-se Estado, Capital, Édipo, Mídia? 

Vê-se, pela força dos problemas colocados, pela grandeza neles implicada, pelo  nível

de exigência ética, política e intelectual que eles exprimem, como regurgitam aqui

e ali, na intensidade e atualidade de um campo de pensamento                como este, mineiraizinhos em miríades mil desmentindo a aridez desértica.
Vagalumando luzinhas por entre a espessa nuvem a evocar uma ilusória    mesmice do deserto, entrevê-se como o corpo organizado agônico (sofrendo justamente por estar organizado, disciplinado e controlado) pode abrir-se por entre brechas, vagas e,  mais que espantar o tédio, o repetido, o intolerável e o abjeto, no arejar do corpo sem órgãos incessantemente recriado inventar o novo.
E, de preferência, em incessante estado de intensidade-embriaguez, como cantou Baudelaire: "EMBRIAGAI-VOS
É necessário estar sempre bêbedo. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para

não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra

é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas - de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.    Contanto que vos embriagueis.E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva

de um fosso, na desolada solidão de vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela,        ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o   que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhe que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.”

     Utilizei             aqui fragmentos do ARTIGO MIRÍADES POR ENTRE MAIO DE 68 E O DESERTO  de Paulo Tarso Cabral de Medeiros, com devida permissão do autor, que poderá ser encontrado  no endereço      (http://www.geocities.com/ptreview/17-medeiros.html, com a finalidade de ampliar a discussão e o novo olhar sobre a  complexidade implicada no processo do pensamento e suas diretrizes  a partir da proposta aberta que pensadores como       G. Deleuze e Foucault nos apresentam,deixemo-nos  afetar por estes “luzeiros “ tal qual estes  foram               por Espinosa e Nietzsche .Entregues, a embriagues  do  “devir infância” e,       pela potência dos corpos,                     quiçá possamos de forma criativa e receptiva entendermos as três          transmutações  do espírito segundo Nietzsche em Zaratustra “do espírito em camelo, do camelo em leão e do leão em criança. O camelo, espírito de carga, que a tudo renuncia e é respeitoso, foge para seu deserto. No solitário deserto, o espírito se torna leão, almejando obter liberdade e ser o senhor do local. Para isso, o espírito  de leão precisará lutar com o dragão "Tu- deves", dizendo "eu quero". Diz o dragão "todo o valor já criado, e todo valor criado - sou eu. Em verdade, não deve haver mais nenhum 'Eu quero'!" [18] O leão não conseguirá criar novos valores, mas apenas liberdade para a nova criação. O começar de novo e a capacidade de criação somente será possível com sua transformação do leão em criança.”

Virgínia Fulber ( de Além Mar)

vicam@yahoo.com.br

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